



O Vendedor de Sonhos

Augusto Cury

Romance
Editora: Academia de Inteligncia
ISBN: 9788560096275
Ano: 2009
Edio: 1

Digitalizado por: Artemio Prilla

Reeditado por SusanaCap



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Dedico este romance aos queridos leitores de todos os
pases onde meus livros tm sido publicados. Em especial aos
que de alguma forma vendem sonhos por meio da sua
inteligncia, crtica, sensibilidade, generosidade, amabilidade.
Os vendedores de sonhos so freqentemente estranhos no
ninho social. So anormais. Pois o normal  chafurdar na lama
do individualismo, do egocentrismo, do personalismo. O seu
legado ser inesquecvel.

Prefcio
Este  meu quarto livro de fico e meu vigsimo segundo
livro. Meus romances, como O futuro da humanidade e A
ditadura da beleza, no objetivam criar tramas que apenas
entretm, divertem, excitam a emoo. Todos eles envolvem 
teses psicolgicas, psiquitricas, sociolgicas e filosficas. 
Tm a inteno de provocar o debate, viajar no mundo das 
idias e ultrapassar as fronteiras do preconceito.
Escrevo continuamente h mais de vinte e cinco anos e 
publico h pouco mais de oito anos. Tenho mais de 3 mil 
pginas ainda inditas, no publicadas. Muitos no entendem 
por que meus livros so to procurados, j que no tenho 
atrao por propagandas e, dentro do possvel, possuo uma 
vida social um tanto reclusa. Talvez seja- por causa das 
viagens pelo territrio do insondvel mundo da mente 
humana. Sinceramente, no mereo esse sucesso. No sou um 
autor capaz de produzir textos com agilidade. Sou, sim, um 
escritor determinado. Costumo brincar que sou um grande 
teimoso. Procuro ser um arteso das palavras. Escrevo e 
reescrevo continuamente cada pargrafo, dia e noite, como se 
fosse um escultor compulsivo. Voc vai ver neste romance 
diversos pensamentos que foram esculpidos depois de terem 
sido reescritos, forjados em minha psique dez ou vinte vezes.
H livros que saem do cerne do intelecto; outros saem das 
entranhas da emoo. O vendedor de sonhos saiu dos 
recnditos desses dois espaos. H muitos anos o venho 
elaborando, at que chegou o momento de escrev-lo. 
Enquanto o escrevia, fui bombardeado com inumerveis 
questionamentos, sorri muito e ao mesmo tempo repensei 
nossas loucuras, pelo menos as minhas. Este romance passeia 
pelos vales do drama e da stira, pela tragdia dos que 
perderam e pela ingenuidade dos que fizeram da existncia o 
picadeiro de um circo.
O personagem principal  dotado de uma ousadia sem 
precedente. Ele esconde muitos segredos. Nada, ningum 
consegue controlar seus gestos e palavras, a no ser sua 
prpria conscincia. Sai bradando aos quatro ventos que as 
sociedades modernas se tornaram um grande manicmio 
global, onde o normal  ser ansioso, estressado, e o anormal  
ser saudvel, tranqilo, sereno. Ele instiga a mente de todos os 
que passam por ele, seja nas ruas, nas empresas, nos 
shoppings, nas escolas, com o mtodo socrtico. Torpedeia as 
pessoas com inumerveis perguntas.
Sonho que este livro possa ser lido no apenas pelos 
adultos, mas tambm pelos jovens, pois penso que muitos 
deles esto se tornando servos passivos do sistema social. No 
so arrebatados pelos sonhos e pelas aventuras. Tornaram-se, 
apesar das excees, consumidores de produtos e servios e 
no de idias. Entretanto, consciente ou inconscientemente, 
todos querem uma vida regada a emoes borbulhantes, at 
bebs quando se arriscam a sair do bero. Mas onde encontr-
las em abundncia? Em que espao da sociedade tais emoes 
se encontram? Alguns pagam muito dinheiro para consegui-
las, mas vivem angustiados. Outros se desesperam em busca 
de fama e reputao, mas morrem entediados. Outros ainda 
escalam ngremes montanhas para ter algumas doses de 
aventura, mas elas se dissipam no calor do dia seguinte. Na 
contramo da massacrante rotina social esto os personagens 
deste romance. Eles vivero altas doses de adrenalina 
diariamente. Entretanto, o "negcio" de vender sonhos tem um 
alto preo. Por isso, riscos e vendavais os acompanharo.

O encontro
No mais inspirador dos dias, sexta-feira, cinco da tarde, 
pessoas apressadas  como de costume  paravam e se 
aglomeravam num entroncamento central da grande 
metrpole. Olhavam para o alto, aflitas, no cruzamento da Rua 
Amrica com a Avenida Europa. O som estridente de um carro 
de bombeiros invadia os crebros, anunciando perigo. Uma 
ambulncia procurava furar o trnsito engarrafado para se 
aproximar do local.
Os bombeiros chegaram com rapidez e isolaram a rea, 
impedindo os espectadores de se aproximar do imponente 
Edifcio San Pablo, pertencente ao grupo Alfa, um dos maiores 
conglomerados empresariais do mundo. Os cidados se 
entreolhavam, e os transeuntes que chegavam pouco a pouco 
traziam no semblante uma interrogao. O que estaria 
acontecendo? Que movimento era aquele? As pessoas 
apontavam para o alto. No vigsimo andar, num parapeito do 
belo edifcio de vidro espelhado, debruava-se um suicida.
Mais um ser humano queria abreviar a j brevssima 
existncia. Mais uma pessoa planejava desistir de viver. Era 
um tempo saturado de tristeza. Morriam mais pessoas 
interrompendo a prpria vida do que nas guerras e nos 
homicdios. Os nmeros deixavam atnitos os que refletiam 
sobre eles. A experincia do prazer havia se tornado larga 
como um oceano, mas to rasa quanto um espelho dgua. 
Muitos privilegiados financeira e intelectualmente viviam 
vazios, entediados, ilhados em seu mundo. O sistema social 
assolava no apenas os miserveis, mas tambm os abastados.

O suicida do San Pablo era um homem de quarenta anos, 
face bem torneada, sobrancelhas fortes, pele de poucas rugas, 
cabelos grisalhos semilongos e bem-tratados. Sua erudio, 
esculpida por muitos anos de instruo, agora se resumia a p. 
Das cinco lnguas que falava, nenhuma lhe fora til para falar 
consigo mesmo; nenhuma lhe dera condies de compreender 
o idioma de seus fantasmas interiores. Fora asfixiado por uma 
crise depressiva. Vivia sem sentido. Nada o encantava.
Naquele momento, apenas o ltimo instante parecia atra-
lo. Esse fenmeno monstruoso que costumam chamar de 
morte parecia to aterrador... mas era, tambm, uma soluo 
mgica para aliviar os transtornos humanos. Nada parecia 
demover aquele homem da idia de acabar com a prpria vida. 
Ele olhou para cima, como se quisesse se redimir do seu 
ltimo ato, olhou para baixo e deu dois passos apressados, sem 
se importar em despencar. A multido sussurrou de pavor, 
pensando que ele saltaria.
Alguns observadores mordiam os dedos em grande tenso. 
Outros nem piscavam os olhos, para no perder detalhes da 
cena  o ser humano detesta a dor, mas tem uma fortssima 
atrao por ela; rejeita os acidentes, as mazelas e misrias, 
mas eles seduzem sua retina. O desfecho daquele ato traria 
angstia e insnia aos espectadores, mas eles resistiam a 
abandonar a cena de terror. Em contraste com a platia 
ansiosa, os motoristas parados no trnsito estavam 
impacientes, buzinavam sem parar. Alguns colocavam a cabea 
janela afora e vociferavam: Pula logo e acaba com esse 
show!.
Os bombeiros e o chefe de polcia subiram at o topo do 
edifcio para tentar dissuadir o suicida. No tiveram xito. 
Diante do fracasso, um renomado psiquiatra foi chamado s 
pressas para realizar a empreitada. O mdico tentou 
conquistar a confiana do homem, estimulou-o a pensar nas 
conseqncias daquele ato... mas nada. O suicida estava farto 
de tcnicas, j havia feito quatro tratamentos psiquitricos 
malsucedidos. Aos berros, ameaava: Mais um passo e eu 
pulo!. Tinha uma nica certeza, a morte o silenciaria, pelo 
menos acreditava que sim. Sua deciso estava tomada, com ou 
sem platia. Sua mente se fixava em suas frustraes, remoia 
suas mazelas, alimentava a fervura da sua angstia.
        Enquanto se desenrolavam esses acontecimentos no alto 
do edifcio, apareceu sorrateiramente um homem no meio da 
multido, pedindo passagem. Aparentemente era mais um 
caminhante, s que malvestido. Trajava uma camisa azul de 
mangas compridas desbotada, com algumas manchas pretas. E 
um blazer preto amassado. No usava gravata. A cala preta 
tambm estava amassada, parecia que no via gua h uma 
semana. Cabelos grisalhos ao redor da orelha, um pouco 
compridos e despenteados. Barba relativamente longa, sem 
cortar h algum tempo. Pele seca e com rugas sobressaltadas 
no contorno dos olhos e nos vincos do rosto, evidenciando que 
s vezes dormia ao relento. Tinha entre trinta e quarenta anos, 
mas aparentava mais idade. No expressava ser uma 
autoridade poltica nem espiritual, e muito menos intelectual. 
Sua figura estava mais prxima de um desprivilegiado social 
do que de um cone do sistema.
        Sua aparncia sem magnetismo contrastava com os 
movimentos delicados dos seus gestos. Tocava suavemente os 
ombros das pessoas, abria um sorriso e passava por elas. As 
pessoas no sabiam descrever a sensao que tinham ao ser 
tocadas por ele, mas eram estimuladas a abrir-lhe espao.
O caminhante aproximou-se do cordo de isolamento dos 
bombeiros. Foi impedido de entrar. Mas, desrespeitando o 
bloqueio, fitou os olhos dos que o barravam e expressou 
categoricamente:

 Eu preciso entrar. Ele est me esperando.  Os 
bombeiros o olharam de cima a baixo e menearam a cabea. 
Parecia mais algum que precisava de assistncia do que uma 
pessoa til numa situao to tensa.
 Qual o seu nome?  indagaram sem pestanejar.
 No importa neste momento!  respondeu firmemente 
o misterioso homem..
 Quem o chamou?  questionaram os bombeiros.
 Voc saber! E se demorarem me interrogando, tero 
de preparar mais um funeral  disse, elevando os olhos.
Os bombeiros comearam a suar. Um tinha sndrome do 
pnico, outro era insone. A ltima frase do misterioso homem 
os perturbou. Ousadamente ele passou por eles. Afinal de 
contas, pensaram, talvez seja um psiquiatra excntrico ou um 
parente do suicida.
Chegando ao topo do edifcio, foi barrado novamente. O 
chefe de polcia foi grosseiro.
 Parado a. Voc no devia estar aqui.  Disse que ele 
deveria descer imediatamente. Mas o enigmtico homem fitou-
lhe os olhos e retrucou:
 Como no posso entrar, se fui chamado?
O chefe de polcia olhou para o psiquiatra, que olhou para 
o chefe dos bombeiros. Faziam sinais um para o outro para 
saber quem o chamara. Bastaram alguns segundos de distrao 
para que o misterioso malvestido sasse da zona de segurana 
e se aproximasse perigosamente do homem que estava 
prximo de seu ltimo flego.
Quando o viram, no dava mais tempo para interromp-
lo. Qualquer advertncia que fizessem contra ele poderia 
desencadear o acidente, levando o suicida a executar sua 
inteno. Tensos, preferiram aguardar o desenrolar dos fatos.
O homem chegou sem pedir licena e sem se perturbar 
com a possibilidade de o suicida se atirar do edifcio. Pegou-o 
de surpresa, ficando a trs metros dele. Ao perceber o invasor, 
o outro gritou imediatamente:
 V embora, seno vou me matar!
O forasteiro ficou indiferente a essa ameaa. Com a maior 
naturalidade do mundo, sentou-se no parapeito do edifcio, 
tirou um sanduche do bolso do palet e comeou a com-lo 
prazerosamente. Entre uma mordida e outra, assoviava uma 
msica, feliz da vida.
O suicida ficou abalado. Sentiu-se desprestigiado, 
afrontado, desrespeitado em seus sentimentos.
Aos berros, clamou:
 Pare com essa msica. Eu vou me jogar. Intrpido, o 
estranho homem reagiu:
 Voc quer fazer o favor de no perturbar meu jantar?!
- disse com veemncia. E deu mais umas boas mordidas, 
mexendo as pernas com prazer. Em seguida, olhou para o 
suicida e fez um gesto, oferecendo-lhe um pedao.
Ao ver esse gesto, o chefe de polcia tremulou os lbios, o 
psiquiatra estatelou os olhos e o chefe dos bombeiros franziu a 
testa, perplexo.
O suicida ficou sem reao. Pensou consigo: No  
possvel! Achei algum mais maluco do que eu.
Ver algum comer um sanduche com eloqente prazer 
diante de quem estava para se matar era um cena surreal. 
Parecia extrada de um filme. O suicida fechou parcialmente os 
olhos, aumentou um pouco a freqncia respiratria e contraiu 
ainda mais os msculos da face. No sabia se atirava, se 
gritava, se bronqueava com o estranho. Ofegante, bradou, 
altissonante:
 Se manda! Eu vou me atirar.  E ficou a um fio de cair. 
Parecia que dessa vez ele realmente se esborracharia no cho. 
A multido sussurrou, apavorada, e o chefe de polcia colocou 
as mos nos olhos para no ver a desgraa.
Todos esperavam que, para evitar o acidente, o estranho 
homem se retirasse imediatamente de cena. Ele poderia dizer, 
como fizeram o psiquiatra e o policial: No faa isso! Eu vou 
embora, ou dar um conselho do tipo: A vida  bela. Voc 
pode superar seus problemas. Voc tem muitos anos pela 
frente. Entretanto, num sobressalto, colocou-se rapidamente 
em p e, para assombro de todos e em especial do suicida, 
bradou um poema filosfico em voz alta. Declamava-o para os 
cus e apontava as mos na direo daquele que queria 
exterminar seu flego de vida:

Seja anulado no parntese do tempo o dia em 
que este homem nasceu!
Que na manh desse dia seja dissipado o 
orvalho que
Umedece a relva!
Que seja retida a claridade da tarde que trouxe 
jbilo
aos caminhantes!
Que a noite em que este homem foi concebido 
seja
usurpada pela angstia!
Resgate-se dessa noite o brilho das estrelas que 
pontilhavam o cu!
Recolham-se da sua infncia seus sorrisos e 
seus medos!
Anulem-se da sua meninice suas peripcias e 
suas aventuras!
Risquem-se da sua maturidade seus sonhos e 
pesadelos,
sua lucidez e suas loucuras!

Aps ter recitado o poema a plenos pulmes, o estranho 
expressou um ar de tristeza e, abaixando o tom de voz, disse o 
nmero um, sem dar qualquer explicao da contagem. A 
multido, atnita, perguntava-se se aquilo no era uma pea 
de teatro a cu aberto. Tampouco o policial sabia como reagir: 
seria melhor intervir ou continuar acompanhando o desenrolar 
dos fatos? O chefe dos bombeiros olhou para o psiquiatra, 
pedindo explicaes. Confuso, ele disse:
 No conheo nada na literatura sobre anular a 
existncia, recolher sorrisos. No entendo de poesia... Deve ser 
mais um maluco!
O suicida ficou pasmado, quase em estado de choque. As 
palavras do forasteiro ecoaram em sua mente sem que ele lhes 
desse permisso. Indignado, reagiu com violncia:
 Quem  voc para querer assassinar o meu passado?! 
Que direito tem de destruir minha infncia? Que ousadia  
essa?  Aps agredir o invasor com essas frases, caiu em si e 
pensou: Ser que no sou eu o autor desse assassinato?. Mas 
lutava para dissipar qualquer ponderao.
Vendo-o circunspecto, o misterioso homem teve o 
atrevimento de provoc-lo ainda mais:
 Cuidado! Pensar  perigoso, principalmente para quem 
quer morrer. Se quiser se matar, no pense.
O suicida ficou embaraado; fora fisgado pelo invasor. 
Pensou consigo: Esse sujeito est me encorajando a morrer 
ou o qu? Ser que estou diante de um sdico? Ser que ele 
quer ver sangue?. Sacudiu a cabea, como se assim pudesse 
interromper seus devaneios, mas os pensamentos sempre 
traem os desejos impulsivos. Percebendo a confuso mental do 
suicida, o estranho homem falou com suavidade, mas com no 
menos contundncia:
 No pense! Porque, se voc pensar, vai perceber que 
quem se mata comete homicdios mltiplos: mata primeiro a 
si, e depois, aos poucos, os que ficam. Se pensar, entender 
que a culpa, os erros, as decepes e as desgraas so 
privilgios de uma vida consciente. A morte no tem esses 
privilgios!  Em seguida, o forasteiro saiu do estado de 
segurana e passou para o de angstia. Disse o nmero quatro 
e movimentou indignadamente a cabea.
O suicida ficou paralisado. Queria rejeitar as idias do 
forasteiro, mas elas pareciam um vrus penetrando nos 
circuitos de sua mente. Que palavras eram aquelas? 
Perturbado e tentando resistir s reflexes, enfrentou o 
forasteiro:
 Quem  voc que, em vez de me poupar, me confronta? 
Por que no me trata como um miservel doente mental, digno 
de pena?  e, aumentando o tom de voz, decretou:  Cai fora! 
Sou um homem completamente acabado.
Em vez de se intimidar, o estranho homem perdeu a 
pacincia e censurou seu interlocutor perturbado:
 Quem disse que voc  uma pessoa frgil ou um pobre 
deprimido que esgotou o prazer de viver? Ou um 
desprivilegiado... um frustrado? Ou um moribundo que no 
consegue carregai o peso das suas perdas? Para mim, voc no 
 nada disso. Para mim, voc  apenas um homem orgulhoso, 
preso na sua gaiola emocional, alienado de misrias maiores 
que a sua.
O suicida colocou as duas mos para trs e se afastou, 
assustado, da linha de tiro em que se encontrava. Com raiva e 
a voz j embargada, indagou:
 Quem  voc para me chamar de orgulhoso, um 
prisioneiro em minha gaiola emocional? Quem  voc para 
dizer que estou alienado de sofrimentos maiores que os 
meus?!
Ele sentia-se alvejado no peito, sem ar. O intruso acertara 
na mosca. Seus pensamentos penetraram como um raio nos 
recnditos da sua psique. Naquele momento, o triste homem 
pensou no pai, que lhe esmagara a infncia, lhe causara muita 
dor. Seu pai emocionalmente distante, alienado, enclausurado 
em si mesmo. Mas o suicida no tocava nesse assunto com 
ningum; era-lhe extremamente difcil lidar com as cicatrizes 
do passado. Atingido por essas recordaes angustiantes, disse 
em tom mais ameno, com lgrimas nos olhos:
Cale-se. No fale mais nada. Deixe-me morrer em paz. 
Ao perceber que havia tocado numa ferida profunda, o homem 
que o questionava diminuiu tambm o tom de voz.
 Eu respeito a sua dor e no posso elaborar nenhuma 
tese sobre ela. Sua dor  nica, e  a nica que voc consegue 
realmente sentir. Ela te pertence e a mais ningum.
Essas palavras iluminaram os pensamentos do homem 
quase em prantos. Ele entendeu que ningum pode julgar a dor 
dos outros. Compreendeu que a dor de seu pai era nica e, 
portanto, no poderia ser sentida ou avaliada por mais 
ningum a no ser por ele mesmo. Sempre condenara 
veementemente seu pai, mas comeou a v-lo, pela primeira 
vez, com outros olhos. Nesse instante, para sua surpresa, o 
intruso lhe teceu algumas palavras que era difcil dizer se 
eram elogios ou crticas:
 Para mim, voc  tambm um ser humano corajoso, 
pois tenciona esmagar seu corpo em troca de uma longa noite 
de sono no claustro de um tmulo! , sem dvida, uma bela 
iluso  e interrompeu seu discurso, para que o suicida se 
desse conta das conseqncias imprevisveis do seu ato.
Mais uma vez, o homem deprimido interrogou-se sobre 
aquela estranha figura que havia surgido para atrapalhar seus 
planos. Que homem era esse? Que palavras! Uma noite de sono 
eterno no claustro de um tmulo... essa idia lhe causava 
repugnncia. Porm, insistindo em levar seu projeto adiante, 
rebateu:
 No vejo motivo para continuar esta merda de vida!  
resmungou veementemente, e franziu a testa, atormentado 
pelas idias que vinham sem pedir licena. O forasteiro 
calibrou a potente voz e o confrontou energicamente:
 Merda de vida? Mas que ingratido! Seu corao, nesse 
instante, deve estar querendo rasgar seu trax e protestar com 
lgrimas de sangue o extermnio da vida!  e, com rara 
eloqncia, mudou o timbre, tentando traduzir a voz do 
corao do suicida:  No! No! Tenha compaixo de mim! Eu 
bombeei seu sangue incansavelmente, milhes de vezes. Supri 
suas necessidades... fui seu servo sem reclamar. E agora voc 
quer me calar, sem nem me dar direito de defesa? Ora... eu fui 
o mais fiel dos escravos. E qual  o meu prmio? Qual a minha 
recompensa? Uma morte estpida! Voc quer interromper 
minha pulsao s para estancar seu sofrimento. Ah! Mas que 
tremendo egosta voc ! Quem me dera eu lhe pudesse 
bombear coragem! Enfrente a vida, seu egocntrico!  e, 
instigando o suicida, pediu que ele prestasse ateno no peito 
para perceber o desespero do seu corao.
O homem sentiu a camisa vibrar. No notara que seu 
corao estava quase a explodir. Parecia que, de fato, estava 
gritando dentro do peito. O suicida arrefeceu. Ficou 
impressionado com o impacto da fala daquele estranho em 
seus pensamentos. Mas, quando parecia derrotado, mostrou o 
pouco da determinao que lhe restava.
 J me sentenciei a morte. No h esperana.
O maltrapilho, ento, lhe deu o golpe derradeiro:
 Voc j se sentenciou? Voc sabia que o suicdio  a 
condenao mais injusta? Porque quem se mata executa 
contra si mesmo uma sentena fatal sem ao menos se dar o 
direito de defesa. Por que se auto-condena sem se defender? 
Por que no se d o direito de argumentar com seus 
fantasmas, encarar suas perdas e lutar contra suas idias 
pessimistas?  mais fcil dizer que no vale a pena viver... 
Voc  realmente injusto consigo mesmo!
O estranho demonstrava saber com maestria que os que 
tiram a prpria vida, ainda que planejem sua morte, no tm 
conscincia das dimenses do fim da existncia. Sabia que, se 
vissem o desespero dos ntimos e as conseqncias 
indecifrveis do suicdio, voltariam atrs e se defenderiam. 
Sabia que nenhuma carta ou bilhete poderia ser atestado de 
defesa. O homem do topo do Edifcio San Pablo havia deixado 
uma mensagem para seu nico filho, tentando explicar o 
inexplicvel.
Ele tambm j tinha comentado com seus psiquiatras e 
psiclogos sobre suas idias de suicdio. Fora analisado, 
interpretado, diagnosticado, e ouvira muitas teses sobre suas 
deficincias metablicas cerebrais, bem como fora encorajado 
a superar seus conflitos e ver seus problemas sob diversos 
ngulos. Mas nada tocava aquele rgido intelectual. Nenhuma 
dessas intervenes ou explicaes o retirou do seu atoleiro 
emocional.
O homem era inacessvel. Mas estava pela primeira vez 
atordoado por aquela pessoa estranha que o interpelava no 
topo do edifcio. A julgar pelas vestes e pela aparncia 
humilde, tratava-se de um miservel que pedia esmolas. 
Contudo, as idias e o discurso deixavam entrever um 
especialista em abalar mentes impenetrveis. Suas palavras 
geravam mais inquietao do que tranqilidade. Parece que 
sabia que sem inquietao no h questionamento, e que sem 
questionamento no se encontram alternativas, no se abre o 
leque de possibilidades. A ansiedade do suicida aumentou tato 
que ele acabou por decidir fazer ao forasteiro uma pergunta; 
resistira muito a faz-la, pois havia presumido, pelos primeiros 
embates, que entraria num campo minado. E entrou.
 Quem  voc?
O suicida ansiava por uma resposta curta e clara, mas ela 
no veio. Em vez disso, mais uma rajada de indagaes.
 Quem sou eu? Como voc ousa perguntar quem eu sou 
se no sabe quem voc ? Quem  voc, que procura na morte 
silenciar sua existncia diante de uma platia assombrada?
Tentando desdenhar do homem que o interpelava, o 
suicida retrucou com certo sarcasmo:
 Eu? Quem eu sou? Sou um homem que em poucos 
momentos deixar de existir. E j no saberei quem sou e o 
que fui.
 Pois eu sou diferente de voc. Porque voc parou de 
procurar a si mesmo. Tornou-se um deus. Enquanto eu 
diariamente me pergunto: Quem sou?. - E mostrando 
astcia, fez outra pergunta:  E quer saber qual  a resposta 
que encontrei?
O suicida, constrangido, meneou a cabea, dizendo que 
sim. O forasteiro prosseguiu:
 Eu lhe respondo se primeiramente me responder. De 
que fonte filosfica, religiosa ou cientfica voc bebeu para 
defender a tese de que a morte  o fim da existncia? Somos 
tomos vivos que se desintegram para nunca mais resgatar a 
sua estrutura? Somos apenas um crebro organizado ou temos 
uma psique que coexiste com o crebro e transcende seus 
limites? Que mortal o sabe? Voc sabe? Que religioso pode 
defender seu pensamento se no usar o elemento da f? Que 
neurocientista pode defender seus argumentos se no usar o 
fenmeno da especulao? Que ateu ou agnstico pode 
defender suas idias sem margem de insegurana e sem 
distores?
O forasteiro parecia ter conhecido e ampliado o mtodo 
socrtico. Fazia interminveis indagaes. O suicida ficou 
atordoado com essa exploso de perguntas. Era um ateu, mas 
descobriu que seu atesmo era uma fonte de especulao. 
Como muitos normais, dissertava teses sobre esses 
fenmenos com uma segurana insustentvel, sem nunca 
debat-las isentas de paixes e tendncias.
O homem de roupas rotas e semblante circunspeto dirigia 
sua mquina de perguntar tambm a si mesmo. E, antes de 
receber qualquer resposta, definitiva ou provisria, de quem o 
ouvia, deu um ultimato:
 Somos dois ignorantes. A diferena entre ns  que eu 
reconheo que sou.

Emocional
Enquanto grandes idias eram debatidas no topo do 
edifcio, algumas poucas pessoas da multido se afastavam 
sem saber o que estava acontecendo. No suportavam esperar 
o desfecho final da desgraa alheia. Mas a maioria permanecia 
firme; no queriam perder o desenrolar dos fatos.
De repente, apareceu no meio do povo um homem curtido 
no usque e na vodca, chamado Bartolomeu. Era mais um ser 
humano com cicatrizes ocultas, embora fosse extremamente 
bem-humorado e, em alguns momentos, petulante. Cabelos 
pretos desgrenhados, relativamente curtos, que h semanas 
no viam pente nem provavelmente gua. Tinha mais de trinta 
anos. Pele clara, sobrancelhas exaltadas, rosto um pouco 
inchado, que escondia as cicatrizes da surrada existncia. 
Tranava as pernas ao andar, de to bbado que estava. Com a 
voz pastosa e a lngua presa, esbarrava em algumas pessoas e, 
em vez de agradecer pelo apoio, reclamava. Para uns, dizia:
 Ei, voc me atropelou. No v que estou na mo 
esquerda?
Para outros, falava:
 D licena, amigo, que estou com pressa. Bartolomeu 
deu alguns passos a mais e tropeou na sarjeta.
        Para no se espatifar no cho, tentou se apoiar onde 
pde, at que encontrou uma velhinha e caiu por cima dela. A 
coitada quase quebrou a coluna. Tentando se desvencilhar 
dele, deu-lhe uma bengalada na cabea e gritou, assustada:
 Sai de cima, seu tarado!
Ele no tinha fora para se deslocar. Vendo a velhinha 
gritar sem parar, para no ficar em maus lenis, gritou mais 
alto que ela.
 Socorro! Gente, me aode! Esta velhinha est me 
agarrando.
As pessoas prximas deslocaram os olhos do cu para a 
terra. Fitaram a reao do bbado. Percebendo sua astcia, 
tiraram-no de cima da velhota, deram-lhe uns empurres e 
disseram:
 Sai para l, seu malandro.
Mas ele, no querendo sair por baixo, falou, todo 
atabalhoado:
 Obrigado, gente, por esse empu... empu...  Estava to 
embriagado que ensaiou trs vezes falar a palavra 
empurrozinho. - Em seguida, tentou sacudir a poeira da 
cala e quase caiu de novo:
 Vocs me salvaram dessa...
A velhinha estava de prontido quando ele ameaou 
caluni-la. Levantou sem titubear a bengala e preparou-se para 
desferi-la novamente em sua cabea, mas o esperto corrigiu-se 
a tempo.
 ... dessa senhora bonitona...
E deixou o campo de batalha. Comeou a andar. Enquanto 
caminhava por entre a aglomerao, perguntava-se, intrigado, 
por que todo mundo estava compenetrado, olhando para cima. 
Achou que as pessoas estavam vendo um extraterrestre. Olhou 
para o alto do edifcio com dificuldade e, tumultuando mais 
uma vez o ambiente, comeou a gritar:
 Estou vendo! Estou vendo o E.T. Cuidado, gente! Ele  
amarelo e chifrudo. E tem uma arma nas mos!
Na realidade, Bartolomeu estava alucinando. Sua mente 
estava to perturbada que construa imagens irreais. No era 
um alcolatra comum, era um amotinador. Alm de beber tudo 
que estivesse  sua frente, era um especialista em chamar a 
ateno social. Por isso seu apelido era Boquinha de Mel. 
Amava beber e amava mais ainda falar. Alis, os amigos mais 
ntimos diziam que tinha a SCF, a sndrome compulsiva de 
falar.
Ele agarrava as pessoas prximas, estimulando-as a ver o 
que s ele via. Elas tentavam se soltar das mos dele com 
safanes e xingamentos.
O bbedo balbuciava:
 Que povo mal-educado! S porque vi primeiro o E.T. 
eles morrem de inveja.
Enquanto isso, no topo do San Pablo, o homem que 
pensara em desistir da vida comeou a pensar que, na verdade, 
precisava exterminar era seu preconceito, pois estava repleto 
de idias vazias e conceitos superficiais sobre a vida e a morte. 
Exaltava a prpria cultura, mas agora precisava exaltar a 
prpria ignorncia  um comportamento improvvel (e at 
doloroso) para quem sempre se julgara um brilhante 
intelectual. Dentro do mundo acadmico, ele parecia ter 
vastos conhecimentos, que ostentava com tanto orgulho, mas 
nunca poucos minutos haviam sido to longos para faz-lo 
enxergar a sua insensatez.
Sentiu que estava tomando uma ducha de serenidade. E 
essa ducha no parava de jorrar do homem saturado de 
incgnitas e sem glamour social. Como se no bastasse o que 
havia argido, o forasteiro ampliou o bombardeamento. Fez 
um passeio pela histria de um grande pensador:
 Por que Darwin, nos instantes finais de sua vida, 
quando sofria de intolerveis nuseas e vmitos, bradava 
Deus meu? Era ele um fraco ao clamar por Deus diante do 
esgotamento de suas foras? Era ele um covarde por se 
perturbar diante da dor e, ao se aproximar da morte, 
consider-la um fenmeno antinatural, embora a sua teoria se 
fundamentasse em processos naturais da seleo das espcies? 
Por que ocorreu um grave conflito entre sua existncia e sua 
teoria? A morte  o fim ou o comeo? Nela nos perdemos ou 
nos encontramos? Ser que, quando morremos, somos 
regurgitados da Histria como atores que nunca mais 
contracenam?
O suicida reagiu com espanto, engoliu saliva. Nunca havia 
pensado nessas questes. Jamais refletira sobre a hiptese de 
que, de forma to singela quanto um beb que regurgita o leite 
que o amamentou, ele, ao querer morrer, estaria regurgitando 
sua histria da Histria. Embora fosse partidrio da teoria da 
evoluo, desconhecia o homem Darwin e seus conflitos. Mas 
ser que Darwin havia sido incoerente e frgil? No... no 
podia ser. Darwin no desistiu de viver. Ele certamente se 
apaixonou pela vida muito mais do que eu, pensou.
A sensao que tinha era de que o homem das questes 
inumerveis lhe tirara a roupa da soberba sem pedir 
permisso. Enquanto o corao se acalmava, procurou 
recuperar o flego, como se pegasse carona no ar que aspirava 
para percorrer reas de sua mente jamais percorridas. 
Respondeu com franqueza:
 No, no sei. Jamais pensei nessas questes.
E o forasteiro emendou:
 Trabalhamos, compramos, vendemos e construmos 
relaes sociais; discorremos sobre poltica, economia e 
cincias, mas no fundo somos meninos brincando no teatro da 
existncia, sem poder alcanar sua complexidade. Escrevemos 
milhes de livros e os armazenamos em imensas bibliotecas, 
mas somos apenas crianas. No sabemos quase nada sobre o 
que somos. Somos bilhes de meninos que, por dcadas a fio, 
brincam neste deslumbrante planeta.
O suicida diminuiu a respirao. Comeou a resgatar sua 
histria e sua identidade. Jlio Csar Lambert  esse era o 
seu nome  era portador de raciocnio arguto, rpido, 
privilegiado. Em sua promissora carreira acadmica, quando 
defendera suas teses de mestrado e doutorado, obtivera notas 
mximas com louvor. Tambm havia participado de muitas 
bancas como avaliador de trabalhos alheios. Perturbava 
mestrandos e doutorandos com suas crticas cidas. Sempre 
fora um eglatra, e sua expectativa era a de que os outros 
gravitassem na rbita da sua inteligncia. Agora, no entanto, 
participava de uma banca cujo avaliador era um maltrapilho. 
Sentia-se uma criana indefesa diante dos prprios medos e da 
prpria falta de sabedoria. Mas, pela primeira vez, foi chamado 
de menino, e no se contorceu de raiva, pela primeira vez teve 
prazer em reconhecer sua pequenez. J no se sentia um 
homem diante do prprio fim; via-se como um ser humano em 
reconstruo.
As loucuras s podem ser tratadas quando abandonam 
seus disfarces. E Jlio Csar se escondia atrs de sua 
eloqncia, cultura e status acadmico. Agora, comeava a 
remover suas camuflagens. Haveria um longo caminho pela 
frente.
O sol j se punha no horizonte. E o suicdio se dissipava 
no topo do San Pablo. Nesse momento, o homem que resgatara 
Jlio Csar citou o nmero vinte, mostrando-se consumido por 
um estado de aflio. Jlio Csar, intrigado, questionou:
 Por que voc cita nmeros enquanto conversamos?
O homem no respondeu de imediato. Olhou para o 
horizonte, viu vrias luzes se acendendo, mas outras se 
apagavam. Respirou lentamente, como se quisesse estar 
presente em todos os lugares para reacend-las. Virou o rosto 
para Jlio Csar, penetrou profundamente em seus olhos e 
falou, com tensa suavidade:
 Por que eu conto nmeros? No breve intervalo de 
tempo em que permanecemos no alto deste edifcio, vinte 
pessoas fecharam os olhos para sempre. Vinte pessoas 
desistiram de viver. Vinte seres humanos no deram o direito 
de defesa a si mesmos, como voc no dava. Pessoas que um 
dia brincaram, amaram, choraram, batalharam, recuaram... 
agora deixam um rastro de dor na memria dos que ficam.
Jlio Csar no entendia a apurada sensibilidade daquele 
homem. Quem era ele? O que vivera para ter tamanha 
afetividade? O sagaz professor tentava definir o intruso, sem 
xito. E, num lance de olhar, percebeu que o forasteiro estava 
chorando. Era uma reao incompreensvel para um homem 
to forte, afinal. Parecia que penetrava na dor indescritvel dos 
filhos que perderam os pais e cresceram se perguntando: Por 
que no suportou sua dor por mim?. Ou parecia que percorria 
a mente dos pais que perderam os filhos e que, apesar de 
freqentemente terem feito muito por eles, se contorciam de 
culpa, alimentada pelo pensamento: O que eu poderia ter 
feito por meu filho e no fiz?. Ou ainda parecia que o invasor 
chorava porque resgatava suas perdas desconhecidas.
O fato era que tanto as palavras como as lgrimas do 
forasteiro fizeram Jlio Csar se desarmar completamente. O 
intelectual comeou, assim, uma viagem para os trilhos da sua 
infncia, e no o suportou. Permitiu-se, tambm, cair em 
pranto. Como poucas vezes na vida, chorou sem se importar 
com as pessoas que o observavam. Era um homem de 
cicatrizes profundas.
 Meu pai brincava comigo, me beijava e me chamava de 
meu filho querido.
E, suspirando fundo, falou de algo que julgava proibido 
falar, algo que mesmo seus colegas mais ntimos 
desconheciam. Algo que estava enterrado, mas continuava 
vivo e influenciando a sua maneira de interpretar a vida.
 Mas ele me abandonou quando eu era criana, sem me 
dar explicao.  Fazendo uma pausa, acrescentou:  Eu 
assistia a um desenho animado, na sala, quando ouvi o forte 
estalido que vinha de seu quarto. Quando cheguei para saber o 
que havia ocorrido, vi que ele estava sangrando, cado no cho. 
Eu tinha apenas seis anos. E gritava sem parar, pedindo ajuda. 
Minha me no estava em casa. Corri at os vizinhos, mas meu 
desespero era to grande que, por alguns momentos, ningum 
entendeu minha crise. Mal comeava a vida e perdia minha 
infncia, minha inocncia. Meu mundo desabou. Passei a 
detestar desenhos animados. No tive outros irmos. Minha 
me, viva e pobre, tinha de trabalhar fora; lutou como uma 
valente para me sustentar, mas contraiu um cncer e morreu 
quando eu tinha doze anos. Fui criado por tios. Passava de 
casa em casa, sentia-me um estranho em lares que nunca 
foram meus. Fui um adolescente irritadio, pouco afeito s 
festas de famlia. Pudera: no poucas vezes, fui tratado como 
um empregado e tinha de me calar.
Jlio Csar havia desenvolvido uma personalidade 
agressiva. Era pouco socivel, tmido e intolerante. Sentia-se 
feio e mal-amado. Para no se destruir, compensara seus 
conflitos no estudo. Com dificuldades, entrou para a 
universidade e tornou-se um aluno brilhante. Trabalhava 
durante o dia, ia para a faculdade  noite, estudava nas 
madrugadas e nos finais de semana. E, externando uma raiva 
jamais superada, adicionou:
 Mas ultrapassei todos aqueles que zombaram de mim. 
Tornei-me mais culto e bem-sucedido que eles. Fui um 
universitrio exemplar e tornei-me um professor 
respeitadssimo. Fui invejado por uns e odiado por outros. 
Muitos me admiravam. Casei-me e tive um filho, Joo Marcos. 
Mas acho que no fui nem bom amante nem bom pai. O tempo 
passou e, h um ano, me apaixonei por uma aluna quinze anos 
mais nova. Fiquei desesperado. Tentei seduzi-la, compr-la, 
contra dvidas. Acabei com meu crdito, perdi minha 
segurana... e, por fim, ela me abandonou. Meu cho se abriu. 
Minha esposa descobriu meu caso e me abandonou tambm. 
Quando ela se foi, percebi que ainda a amava; no podia perd-
la! Tentei reconquist-la, mas ela estava cansada do 
intelectual que nunca fora afetivo, que era pessimista, 
deprimido e ainda por cima estava falido. Deixou-me.
Nesse momento, comeou a se permitir chorar, algo que 
nunca mais acontecera depois da perda da sua me. 
Lacrimejava e comeou a limpar os olhos com a mo direita. 
Quem via o autoritrio professor no conhecia suas cicatrizes. 
E continuou seu inquietante relato:
 Joo Marcos, meu filho, caiu no mundo das drogas. 
Agressivo, sempre me acusou de nunca ter brincado ou ter 
sido amvel, companheiro e amigo. Foi vrias vezes internado. 
Hoje mora em outro estado e se recusa a falar comigo. 
Resumindo, desde os cinco anos coleciono incontveis 
abandonos. Alguns por culpa dos outros, outros por culpa 
minha - disse com sinceridade, comeando a aprender a retirar 
seus disfarces.
Assim que terminou, um filme passou rapidamente pela 
sua mente. Recordou as ltimas imagens do pai, imagens que 
estavam bloqueadas. Recordou tambm que o chamara dia e 
noite por longas semanas aps sua perda. Cresceu com raiva 
do pai, crendo que ele estava preso em sua gaiola emocional, 
alienado das dores que ele, Jlio, sentiria no futuro.
Agora estava repetindo a mesma trajetria. O passado 
calava mais forte do que sua notvel carreira acadmica. Sua 
cultura no o tornara flexvel nem o relaxara. Era um homem 
engessado, impulsivo, tenso. Nunca se desarmou diante de 
seus psiquiatras e psiclogos. No raras vezes os criticava 
frontalmente por considerar as interpretaes deles infantis 
para algum do seu nvel intelectual. Convenc-lo era uma 
tarefa dantesca.
Aps rasgar a sua histria e exp-la cruamente, o 
intelectual fechou-se novamente, pois temia que o homem ao 
seu lado lhe desse uma enxurrada de conselhos, de 
pensamentos de auto ajuda, de informaes sem razes e de 
orientaes sem efeitos. Mas o forasteiro no fez nada disso. 
Brincou num momento em que era quase impossvel brincar. 
Disse suavemente:
 Meu amigo, voc est numa grande enrascada.
 Jlio Csar deu um leve sorriso. No esperava essa 
resposta. Os conselhos no vieram. Em seguida o estranho 
mostrou que, apesar de no conseguir sentir a dor dele, 
conhecia a matemtica do abandono.
 Sei muito bem o que  perder! H momentos em que o 
mundo desaba sobre ns e ningum  capaz de nos 
compreender!
Enquanto falava, tocou o dedo indicador no olho direito e 
depois no esquerdo e enxugou tambm suas lgrimas. Talvez 
as suas cicatrizes fossem to profundas ou maiores do que as 
que ouvira.
Jlio Csar, novamente sensibilizado, perguntou:
 Diga-me: quem  voc?
A resposta foi um clido silncio.
  psiquiatra ou psiclogo?  perguntou, pensando 
estar diante de um profissional inusitado, incomum.
 No sou  afirmou com segurana o estranho.
  filsofo?
 Aprecio o mundo das idias, mas no sou.
  um lder religioso?  falou, achando que podia se 
tratar de um lder catlico, protestante, mulumano ou 
budista.
 No sou!  respondeu com firmeza o homem. Como 
no obtivera nenhuma resposta, Jlio Csar, intrigado, 
perguntou com impacincia:  Voc  louco?
  provvel - respondeu o outro, com um pequeno 
sorriso no rosto. Jlio Csar no poderia estar mais confuso.
 Quem  voc? Diga-me.
Pressionava o protagonista contemplado por uma 
multido confusa, que no sabia o dilogo que se desenrolava 
no topo do edifcio. O psiquiatra, o chefe dos bombeiros e o da 
polcia se esforavam para ouvir a conversa, mas nem sempre 
era audvel. Com a insistncia de Jlio Csar, a reao do 
misterioso homem no poderia ser mais perturbadora. Ele 
abriu os braos, levantou-os para o alto e disse:
 Quando considero a brevidade da existncia dentro do 
pequeno parntese do tempo e reflito sobre tudo o que est 
alm de mim e depois de mim, enxergo minha pequenez. 
Quando considero que um dia tombarei no silncio de um 
tmulo, tragado pela vastido da existncia, compreendo 
minhas extensas limitaes e, ao deparar com elas, deixo de 
ser deus e liberto-me para ser apenas um ser humano. Saio da 
condio de centro do universo para ser apenas um andante 
nas trajetrias que desconheo...
Suas palavras no responderam s indagaes de Jlio 
Csar, mas ele as bebeu. Elas produziram em seu intelecto 
uma indagao que seria comum na boca de muitos que 
cruzariam a histria do forasteiro: Esse homem  um 
psictico ou um sbio? Ou os dois?. Tentava alcanar as 
nuances dos pensamentos que ouvira, mas era uma rdua 
tarefa.
O intrpido homem novamente olhou para o alto e mudou 
de discurso, comeando a questionar a Deus de um modo que 
Jlio Csar nunca ouvira:
 Deus, quem s tu? Por que te calas diante das loucuras 
de alguns religiosos e no abrandas o mar de dvidas dos 
cticos? Por que disfaras teus movimentos atrs das leis da 
fsica e escondes a tua assinatura nos eventos que ocorrem ao 
acaso? Teu silncio me inquieta!
O intelectual era um especialista em sociologia da 
religio; conhecia o cristianismo, o islamismo, o budismo e 
outras religies, mas esses textos no o ajudavam a 
compreender a mente do forasteiro. No sabia se ele era um 
ateu irreverente ou algum que tivesse uma intimidade 
informal com o Autor d, existncia O notvel professor 
novamente se interrogou: Que homem  esse? De onde saiu? 
Qual a sua origem?
As pessoas, na sociedade moderna, inclusive lderes de 
vrios segmentos, eram por demais previsveis. Suas reaes 
transitavam dentro do trivial. No tinham comportamentos 
que provocassem a emoo alheia nem excitassem a 
imaginao. O que faltava nos normais sobejava no 
misterioso homem que estava diante de Jlio Csar. Sua 
curiosidade para saber a identidade do forasteiro expandiu-se 
tanto que ele novamente perguntou, mas dessa vez foi 
diferente. Primeiro se interiorizou e reconheceu que sabia 
muito pouco sobre si mesmo.
 Eu no sei quem sou, preciso me achar. Mas, por favor, 
insisto, quem  voc?
O homem abriu um sorriso a meio mastro; Jlio Csar 
comeava a falar a sua linguagem. Sob forte inspirao ele se 
revelou. Em p, observando o horizonte onde o sol se punha, 
abriu um pouco as pernas, levantou os braos e comentou com 
segurana:
 Sou um vendedor de sonhos!
A mente do intelectual ficou mais obscura ainda. Parecia 
que o estranho deixava seu estado de lucidez e mergulhava 
num estado de insanidade. Para Jlio Csar, a identificao do 
estranho no representava nada, a no ser assombro, mas para 
ele ela queria dizer quase tudo.
L embaixo, Bartolomeu no parava de gritar e incomodar 
as pessoas:
 Olhem o chefe dos E.T.s. Est de braos abertos e 
mudou de cor.
Dessa vez no era uma alucinao, mas um erro de 
interpretao. Ou no! Era difcil saber. Aps se declarar, o 
vendedor de sonhos compenetrou-se, olhou para a multido e 
teve uma reao estranha. Compadeceu-se dela.
Jlio Csar esfregou as mos no rosto. No acreditava na 
definio que tocava seus ouvidos.
 Vendedor de sonhos? Como assim? O que  isso?  
perguntou, completamente perdido em sua racionalidade.
O estranho parecia to inteligente! Revelara maturidade 
intelectual, estilhaara seus paradigmas, ajudara a organizar 
sua confuso mental e, quando o cu estava azul-celeste, fez 
desaguar uma sbita tempestade. Jamais Jlio Csar ouvira 
algum se auto-intitular desse modo.
O psiquiatra, a vinte e cinco metros de distncia, ao ouvir 
a expresso, fez uma anlise rpida. Sem margem de 
insegurana, assegurou para o chefe dos bombeiros e da 
polcia:  Eu sabia. So da mesma laia.
No bastasse a estranheza do ttulo, o forasteiro, ao se 
identificar, olhou para o lado direito e viu uma pessoa num 
edifcio vizinho, a cerca de cento e cinqenta metros, 
apontando uma arma para ele. Estava com silenciador. Numa 
reao magistral, empurrou Jlio Csar para o cho e ambos 
caram. Jlio Csar no entendeu o que acontecera, apenas 
ficou atnito. Para no assust-lo ainda mais, o vendedor de 
sonhos disse:
 Se essa queda o perturbou, imagine o que aconteceria 
quando voc tocasse o solo desse edifcio.
A multido pensou que o homem havia contido o suicida. 
Todos estavam sem entender os fatos. Ambos se levantaram. O 
vendedor de sonhos olhou para o horizonte e viu que o 
atirador havia sado de cena. Ser que ele estava tendo 
alucinaes? Quem desejaria a morte de algum to simples? 
Em seguida, ambos apareceram de p, livres, no parapeito do 
edifcio.
Jlio Csar olhou para o estranho e este reafirmou, sem 
margem de insegurana:
 Sim, sou vendedor de sonhos.
Confuso, Jlio Csar, por alguns momentos, pensou que o 
homem que estava diante de si fosse um vendedor ambulante. 
Ou um vendedor de aes da bolsa. Mas, com aquelas idias, 
parecia impossvel. Curioso, questionou-o:
 Como assim? Que produtos voc vende?
 Eu procuro vender coragem para os inseguros, ousadia 
para os fbicos, alegria para os que perderam o encanto pela 
vida, sensatez para os incautos, crticas para os pensadores.
Jlio Csar, num rompante de orgulho, lembrando-se do 
tempo em que se sentia um deus por ter vasta cultura 
acadmica, disse consigo: No  possvel! Estou tendo um 
pesadelo. Acho que j morri e no percebi. Num momento eu 
queria tirar minha vida porque estava preso no novelo dos 
meus conflitos. Noutro, estou mais perturbado ainda porque 
estou diante de algum que me resgatou e diz que vende o que 
 invendvel. Vende o que todos procuram mas no existe nos 
mercados. E, para sua surpresa, o estranho completou:
 E para os que pensam em pr um ponto final na vida, 
procuro vender uma vrgula, apenas uma vrgula.
 Uma vrgula?  perguntou, confuso, o socilogo.
 Sim, uma vrgula. Uma pequena vrgula, para que eles 
continuem a escrever sua histria.
Jlio Csar comeou a transpirar. De repente, sob um 
estado de iluminao interior, caiu em si. O irreverente 
homem acabara de vender para ele uma vrgula, e ele a 
comprara sem perceber. No houve preo, no houve presso, 
no houve chantagem, no houve apelos. Ele a comprara para 
retornar s razes da essncia humana. O intelectual tornara-
se aluno do maltrapilho. Fora irrigado por uma suave 
solidariedade. Colocou as mos na cabea para ver se tudo o 
que se passava com ele era real.
O ilustre professor de sociologia comeou a ter insights. 
Olhou para baixo e viu a multido esperando sua reao. No 
fundo, aquelas pessoas estavam to perdidas quanto ele. Eram 
livres para ir e vir, mas se sentiam pesadas, controladas, sem 
suavidade. Faltava-lhes liberdade para arejar a prpria 
personalidade.
O professor parecia penetrar nas entranhas de um filme 
cujas cenas eram surreais e ao mesmo tempo concretas. Esse 
sujeito  real ou tudo o que estou vendo  uma armadilha da 
minha mente?, indagou para si mesmo, sob uma aura de 
fascnio e insegurana. Nunca ningum o encantara como o 
incompreensvel peregrino.
Em seguida, o misterioso homem fez um convite que o 
abalou ao mximo.
 Venha e siga-me, e eu o farei um vendedor de sonhos. 
O chamamento provocou um burburinho em milhes de 
neurnios do intelectual. Ele no conseguiu reagir. Sua voz se 
embargou. Estava fisicamente paralisado, mas pensativo. Que 
proposta  essa? Como posso seguir um homem que conheci 
h cerca de uma hora?, pensou, transtornado. Mas ao mesmo 
tempo sentiu uma atrao irresistvel pelo enigmtico 
chamamento.
Estava cansado dos debates acadmicos. Ele era um dos 
mais eloqentes intelectuais entre seus pares, mas muitos dos 
colegas, inclusive ele mesmo, viviam no lodo do cime e das 
vaidades interminveis. Sentia que faltava, no templo do 
conhecimento, na universidade, tolerncia, estmulo  rebeldia 
do pensamento e uma dose de loucura para libertar a 
criatividade. Alguns templos do conhecimento tinham se 
tornado to rgidos como as mais rgidas religies. Os 
professores, cientistas e pensadores no tinham liberdade. 
Tinham de seguir a cartilha dos departamentos.
Agora Jlio Csar estava diante de um homem 
malvestido, cabelos desarrumados, sem glamour social, mas 
instigante, aventureiro, rebelde ao pensamento vigente, 
crtico, arrebatador, livre, e que, para completar, lhe fazia a 
mais maluca e excitante das propostas: vender sonhos. 
Como? Para quem? Com que objetivo? Ser que serei alvo de 
deboche ou de aplausos?, refletia o intelectual. Ao mesmo 
tempo que se perturbava com o chamamento, vinha  sua 
mente que todo pensador deve andar por ares nunca antes 
percorridos.
Embora tivesse grave transtorno emocional e fosse 
saturado de orgulho, Jlio Csar sempre fora ponderado, 
jamais havia dado vexame em pblico. A primeira vez foi no 
edifcio San Pablo. Sabia que dessa vez dera o maior de todos 
os escndalos. No fizera teatro, estava realmente pensando 
em pr um fim em sua vida. Como tinha medo de usar armas 
ou tomar remdios, fora ao topo do edifcio.
O convite continuava ecoando em sua mente como uma 
granada que se estilhaa em mil pedaos, rompendo seus 
paradigmas. Um longo minuto se passara. Em conflito, pensou: 
Tentei viver sob o teto do jbilo e dos alicerces da segurana, 
mas me afundei. Tentei estimular meus alunos a pensar, mas 
formei muitos repetidores de informaes. Tentei contribuir 
para a sociedade, mas era uma ilha de soberba. Se conseguir 
vender um pouco de sonhos para algumas pessoas, tal qual 
esse misterioso homem me vendeu, talvez minha vida tenha 
mais sentido do que teve at aqui.
Ento resolvi segui-lo. Eu, o narrador desta histria, sou 
Jlio Csar, o primeiro dos discpulos desse homem 
extraordinrio e inquietante.
Ele se tornou meu mestre. Fui o primeiro que arriscou 
seguir uma jornada sem destino, sem agenda, completamente 
imprevisvel. Loucura? Talvez, mas no menos do que aquela 
que vivi.

O primeiro passo
Logo que samos de cena fomos barrados por um dos 
personagens que nos observavam atentamente no topo do 
edifcio, o chefe da polcia. Era um homem alto, de um metro e 
noventa, com leve sobrepeso, farda impecvel, cabelos 
grisalhos, faces sem rugas e com ar de quem amava o poder.
Conteve-nos, e no se importou comigo. Estava 
acostumado a lidar com suicidas; considerava-os frgeis e no 
seres humanos complexos. Para ele, eu era mais uma 
estatstica da sua profisso. No gostei. Senti o gosto amargo 
do preconceito. Afinal de contas, eu era muito mais culto do 
que esse portador de armas. Minhas armas so as idias, mais 
poderosas, mais penetrantes. Mas no tinha fora para me 
defender. No precisava. Tinha um torpedo ao meu lado, o 
homem que me resgatara.
O real interesse do policial era interrogar o homem que 
me resgatara. Queria saber quem era o amotinador. O 
comportamento dele no estava na sua estatstica. No 
conseguira ouvir muito do que falvamos, mas o pouco que 
conseguiu escutar o deixara tambm assombrado. Olhou de 
cima a baixo o vendedor de sonhos, observou sua aparncia, e 
no acreditava na imagem que contemplava. O forasteiro 
parecia fora do contexto social. Inquieto, comeou a fazer seu 
interrogatrio. Pressenti que, tal como eu, o policial entraria 
no vespeiro. E entrou.
 Qual o seu nome?  perguntou, num tom arrogante. O 
homem que estava ao meu lado fitou furtivamente seus olhos, 
mudou de assunto e chocou-o com estas palavras:
 Voc no est alegre por essa pessoa ter corrigido sua 
rota? No entrou num estado de jbilo pelo fato de ela ter 
resgatado sua vida?  E apontou o olhar para mim.
O frio policial caiu do pinculo do poder. Perdeu o 
rebolado. No esperava que sua insensibilidade fosse 
desnudada em poucos segundos. Constrangido, disse 
formalmente:
 Sim, claro que estou feliz por ele.
Todas as pessoas que respondiam estupidamente para o 
mestre engoliam sua insensatez. Eram estimuladas a enxergar 
seu superficialismo e a cheirar o odor das prprias tolices. Ele 
continuou a torpede-lo:
 Se voc est feliz, por que no exterioriza sua 
felicidade? Por que no pergunta seu nome e lhe d os 
parabns? Afinal de contas, a vida de um ser humano no vale 
mais do que o edifcio que nos sustenta?
O chefe da polcia ficou nu mais rpido do que eu. E achei 
timo, sa do estado de vergonha para os patamares nobres da 
auto-estima. O homem que ele impactou era arguto, um 
especialista em instigar a inteligncia. Enquanto ele 
constrangia o chefe da polcia, comecei a ter insights. Percebi 
que no  possvel seguir um lder sem admir-lo. A admirao 
 mais forte que o poder. O carisma  mais intenso que as 
presses. Eu comeara a admirar muito o carismtico homem 
que me chamou.
Enquanto refletia sobre isso, veio  minha mente a 
relao com meus alunos. Eu era um depsito de informaes.
Nunca entendera que o carisma  fundamental para 
assimilar o conhecimento. Primeiro vem o carisma do mestre, 
depois o conhecimento que ele detm. Eu tinha a doena da 
maioria dos intelectuais: chatice. Era um sujeito sem sabor, 
crtico, cobrador. Nem eu me suportava.
Embaraado com os surpreendentes pensamentos que 
ouvira, o chefe da policia olhou rapidamente para mim e disse, 
mais constrangido ainda, como se fosse uma criana 
recebendo orientaes:
 Parabns, senhor.  No momento seguinte, num tom 
mais brando, ele pediu os documentos para o vendedor de 
sonhos.
Com singeleza, este respondeu:
 No tenho documentos.
 Como assim? Todo mundo tem documentos na 
sociedade! Sem documentos o senhor no tem identidade.
 Minha identidade  o que sou  enfatizou.
 O senhor poder ser preso se no se identificar. Poder 
ser considerado um terrorista, um perturbador da ordem 
social, um psicopata. Quem  o senhor?  perguntou o 
policial, voltando a ter um tom agressivo.
Nesse momento, franzi a testa. Pressenti que o policial 
entraria mais uma vez numa fria. O personagem que agitara 
meu crebro lhe retrucou:
 Respondo-lhe se me responder primeiro. Com que 
autoridade o senhor quer penetrar nos espaos mais ntimos 
do meu ser? Quais so suas credenciais para invadir as 
entranhas da minha psique?  expressou, com segurana.
O policial aceitou o desafio. Elevou o tom de voz. No 
sabia que seria preso na prpria astcia.
 Sou Pedro Alcntara, chefe da polcia deste distrito  
disse, soltando o ar, orgulhoso e autoconfiante.
Indignado, meu mestre o questionou:
 No perguntei sua profisso, seu status social, suas 
atividades. Quero saber qual  sua essncia. Quem  o ser 
humano que est por detrs dessa farda?
Revelando um tique nervoso, o policial cocou 
rapidamente as sobrancelhas com a mo direita, e no soube 
responder. Diminuindo o tom de voz, novamente o mestre 
perguntou:
 Qual  seu grande sonho?
 Meu grande sonho? Bom, eu, eu...  gaguejou, e 
novamente no soube responder.
Nunca algum com to poucas palavras havia confrontado 
o autoritrio chefe da polcia. Ele portava um revlver, mas 
ficou sem ao. Pude olhar nos olhos daquele que me resgatara 
e sentir um pouco o que ele pensava. O chefe da polcia 
cuidava da segurana dos normais, mas era inseguro; 
procurava proteger a sociedade, mas no tinha proteo 
emocional.
Enquanto eu o julgava, de repente comecei a me ver nele. 
E o que vi me incomodou. Como poderia uma pessoa sem 
sonhos proteger a sociedade, a no ser que fosse um rob ou 
uma mquina de prender? Como um professor sem sonhos 
pode formar cidados que sonham em ser livres e solidrios? 
Em seguida, o enigmtico mestre acrescentou:  Cuidado! O 
senhor luta pela segurana social, mas o medo e a solido so 
ladres que furtam a emoo mais do que perigosos 
delinqentes. Seu filho no precisa de um chefe de polcia, 
mas de um ombro onde chorar, um ser humano a quem possa 
segredar sentimentos e que o ensine a pensar. Viva esse 
sonho!
O chefe da polcia ficou pasmado. Fora treinado para lidar 
com marginais, para prend-los, e nunca ouvira falar dos 
ladres que invadem a psique. No sabia o que fazer sem sua 
arma e seu distintivo. Como a maioria dos normais, 
inclusive eu, era um profissional austero, e quando entrava 
pelo porto de casa no sabia ser pai, continuava sendo um 
profissional. No sabia separar os papis. Ganhava medalhas de 
honra ao mrito, mas estava morrendo como ser humano.
Quando o ouvi derrotar a arrogncia do policial, deu-me 
uma vontade imensa de perguntar se ele realmente tinha um 
filho ou se o mestre havia chutado. Mas vi o chefe da polcia 
compenetrado; parecia algemado em seu intelecto, tentando 
sair de uma priso em que h anos se metera.
O psiquiatra no se agentou. Vendo o chefe da polcia 
completamente perdido, procurou constranger o forasteiro. 
Certamente pensava que suas idias puxariam o tapete dele, 
revelariam sua insegurana. Com astcia psicolgica, afirmou:
 Quem no revela a identidade esconde sua fragilidade.
 Voc acha que sou frgil?  indagou o mestre.
 No sei  reagiu o psiquiatra, titubeando.
 Pois voc est correto. Sou frgil. Tenho aprendido que 
ningum  digno de ser uma autoridade, inclusive cientfica, 
se no reconhece seus limites e suas fragilidades. Voc  
frgil?  metralhou.
 Bem...
Vendo-o hesitar, continuou a indagar-lhe:
 Qual a linha teraputica que voc segue?
O homem que me cativara me surpreendeu com essa 
pergunta. No entendi o motivo dela. Parecia no ter conexo 
com o assunto. Mas o psiquiatra, que tambm era 
psicoterapeuta, disse, assoberbado:
 Sou freudiano.
 Muito bem. Ento me responda: o que  mais 
complexo, uma teoria psicolgica, seja ela qual for, ou a mente 
de um ser humano?
O psiquiatra, temendo uma armadilha, ficou sem 
responder por um momento. Em seguida, no respondeu 
diretamente:
 Usamos as teorias para decifrar a mente humana.
 Por favor, deixe-me propor mais uma questo: voc 
pode mapear uma teoria, esgotar sua leitura, mas poder 
esgotar a compreenso da mente humana?
 No. Mas eu no estou aqui para ser indagado por voc 
disse com desdm, sem entender aonde o estranho queria 
chegar.
 E muito menos eu, que sou um perito em mente 
humana. Vendo sua arrogncia, o outro lhe deu o golpe fatal:
 Os profissionais de sade mental so poetas da 
existncia, tm uma misso esplndida, mas jamais podem 
colocar um paciente dentro de um texto terico, e sim um 
texto dentro do paciente. No enquadre excessivamente seus 
pacientes dentro dos muros de uma teoria, caso contrrio 
reduzir suas dimenses. Cada doena pertence a um doente. 
Cada doente tem uma mente. Cada mente  um universo 
infinito.
Entendi o recado que passara para o psiquiatra, pois senti 
na prpria pele o que queria dizer. Quando o psiquiatra me 
abordou, usou tcnicas e interpretaes. Eu as rechacei 
imediatamente. Tratou do ato suicida, mas no do ser humano 
dilacerado que estava em mim. Sua teoria poderia ser til em 
situaes previsveis, em especial quando o paciente procura 
ajuda espontnea, mas no em situaes em que  resistente 
ou perdeu a esperana. Eu estava resistente, precisava 
primeiro do ser humano psiquiatra e depois do profissional 
psiquiatra. Como ele me abordara diretamente, eu o senti 
como invasor, me recolhi dentro de mim, entrei num cofre.
O vendedor de sonhos fez o caminho inverso. Comeou 
pelo sanduche: invadiu minha psique com penetrantes 
questionamentos, como num nutriente que invade a corrente 
sangnea e estimula as clulas. No segundo momento, tratou 
do ato suicida. Percebeu que eu era um doutor em resistncia 
e obstinao. Quebrou a espinha-dorsal da minha auto-
suficincia.
O psiquiatra, embora tenha sido chamado de poeta da 
existncia, no gostou de ser questionado por um 
desconhecido malvestido e sem currculo. No demonstrou que 
estava feliz porque eu havia retirado da cabea a idia de 
suicdio. Desgraa de cime! Fiquei mordido de raiva ao 
enxergar isso, mas me lembrei que no templo da universidade 
havia cometido esse crime por diversas vezes.
Nessa altura, o mestre tocou o ombro direito do jovem 
chefe dos bombeiros com a mo esquerda e disse-lhe:
 Parabns, meu filho, pelos riscos que tem corrido por 
pessoas que desconhece. Voc  um vendedor de sonhos.
Aps essas palavras, deu alguns passos na direo da 
porta para pegar o elevador. L vou eu seguindo o intrigante 
homem. Mas as surpresas ainda no tinham acabado. O 
psiquiatra olhou para o chefe da polcia e deixou ganhar 
sonoridade um pensamento, sem que, obviamente, o vendedor 
de sonhos e eu ouvssemos. Mas, para a minha surpresa, o 
homem que eu acompanhava voltou-se para eles e repetiu o 
pensamento simultaneamente com o psiquiatra.
 Os loucos se entendem!
O psiquiatra ficou vermelho com sua reao. Assim como 
eu, certamente deve ter perguntado para si mesmo: Como 
esse estranho conseguiu repetir ao mesmo tempo o 
pensamento que proferi?.
Vendo-o embasbacado, ainda teve tempo para dar-nos a 
ltima e inesquecvel lio no topo do edifcio. Comentou com 
o psiquiatra:
 Uns tm uma loucura visvel e outros, oculta. Que tipo 
de loucura voc tem?
 Eu no. Eu sou normal!  reagiu impulsivamente o 
profissional de sade mental. Enquanto isso, o vendedor de 
sonhos admitiu:
 Pois a minha  visvel.
Em seguida, deu as costas e comeou a caminhar com as 
mos nos meus ombros. Trs passos adiante, olhou para o alto 
e expressou:
 Deus, livra-me dos normais!

Tirando o gesso da mente
Descemos mudos do elevador. Eu, pensativo; o vendedor 
de sonhos, tranqilo. Assoviava com um olhar fixo, 
concentrado em si mesmo. Parecia percorrer com exultao as 
avenidas da prpria mente. Passamos pelo imenso saguo 
ricamente decorado com lustres e mveis antigos e uma 
imensa mesa de mrmore negro da recepo. S agora me dava 
conta de que eram belos, mas para mim eram horrveis. Via o 
mundo pelas janelas da minha emoo.
L fora as luzes brilhavam, alumiando a multido ansiosa 
por notcias. Notcias que eu faria questo de no dar. 
Sinceramente, queria me esconder, esquecer esse escndalo, 
virar a pgina, no pensar um segundo mais na minha dor. 
Cnscio de que chamara a ateno porque queria desistir da 
vida, chafurdei na lama da vergonha. Mas no podia me 
teletransportar, tinha de enfrentar os olhares da platia. Por 
instantes, tive raiva de mim mesmo. Pensei: Existiam 
distintas alternativas para enfrentar minha crise, por que no 
as escolhi?. Mas a dor nos cega e a frustrao nos emburrece.
Quando samos do Edifcio San Pablo e rompemos o 
cordo de isolamento, eu queria tampar o rosto e sair 
rapidamente do ambiente, mas era impossvel, a aglomerao 
era enorme, no havia espao para correr. A imprensa estava 
presente e queria informaes. Transitei pela minha via-crcis, 
cabisbaixo.
O vendedor de sonhos, para no me constranger, evitava 
dar informaes. Ningum sabia o que realmente acontecera 
no alto do edifcio, o rico embate que tive com esse misterioso 
homem ficou alojado somente na minha mente.
 medida que escapamos dos meios de comunicao e 
comeamos a andar no meio da multido, assustei-me. Fomos 
tratados como celebridades. Tornei-me famoso pelos motivos 
que menos queria.
Para o homem que seguia, o culto  celebridade era um 
dos sintomas mais notveis de que havamos construdo um 
grande manicmio global. Ao longo da caminhada, ele nos 
questionava.
 Afinal de contas, quem merece mais aplausos, um 
lixeiro annimo ou um ator de Hollywood? Quem  mais 
complexo em sua psique? Quem  mais indecifrvel em sua 
histria? No h diferena. Ambos. Mas os normais acham 
isso uma heresia.
Vendo-me constrangido pela multido que, excitada, nos 
enchia de perguntas, querendo explicaes sobre o que 
ocorrera no alto do edifcio, aquele homem inteligente mudou 
o foco das pessoas. Em vez de tentar sair discretamente do 
aperto, levantou as mos naquela algazarra e pediu silncio, 
que s veio depois de um prolongado momento.
Pensei: L vem mais um discurso perturbador. Mas o 
forasteiro era mais excntrico do que eu imaginava. Sem dar 
explicaes, pediu que todos fizessem uma grande roda, o que 
foi difcil, pois as pessoas se apinhavam. E para a surpresa de 
todos, entrou no centro dela e comeou a danar uma dana 
irlandesa. Ele se agachava, jogando os ps para o alto, e se 
levantava, pouco a pouco, fazendo o mesmo movimento. Ao 
mesmo tempo emitia sons eufricos.
No consegui deixar de pensar: Um intelectual no teria 
essa reao, e se tivesse vontade, no teria coragem de faz-
lo. Maldito preconceito. Pouco tempo antes eu quase me 
matara, mas os preconceitos ainda estavam vivssimos. Era 
um normal enrustido.
Ningum entendeu muito bem as reaes do vendedor de 
sonhos, muito menos eu, mas algumas pessoas comearam a 
participar. Ficaram boquiabertas, pois tinham sado de um 
espetculo de terror para entrar num espetculo de jbilo. A 
alegria  contagiante. Haviam sido contagiados pela sua 
euforia despretensiosa.
A roda se abriu mais. Os que sabiam a tal dana ou os que 
se arriscavam a dan-la sem conhec-la comearam a enfiar o 
brao direito no esquerdo uns dos outros e danavam em 
crculos. Os que margeavam a roda tambm mergulharam no 
clima, e comearam a bater palmas no ritmo da dana. Mas 
muitos ficaram mais distantes, dentre os quais se destacavam 
alguns executivos muito bem-trajados. No quiseram se 
aproximar do bando de loucos. Preferiram ocultar sua loucura, 
como eu.
Dentro do crculo dos que danavam sempre entrava e 
saa uma pessoa, revelando seu desempenho. E saa sob 
aplausos. Enquanto eu estava de fora, tudo bem, me protegia, 
mas de repente o vendedor de sonhos pegou nos meus braos 
e, exultante, colocou-me no centro do crculo.
Eu no sabia onde enfiar a cara. Fiquei de p. Sabia dar 
aulas tericas, mas no tinha flexibilidade, no tinha ginga. 
Recitava O capital, de Marx, para alunos e professores com 
maestria, era uni ardente defensor da liberdade de expresso, 
uma liberdade que pouco existia no recndito da minha alma. 
As pessoas continuavam danando ao meu redor e me 
incentivando, mas eu estava paralisado. H alguns minutos era 
alvo da ateno da multido, mas agora torcia para que 
ningum me reconhecesse. Torcia para que nenhum professor 
ou aluno da minha universidade estivesse presente. No me 
importava em morrer, mas me incomodava o vexame. Que 
loucura! Descobri que sou mais doente do que imaginava.
Era discreto, contido, sereno, tinha voz dosada, pelo 
menos quando no era contrariado. No manifestava jbilo em 
pblico. No sabia improvisar, estava infectado com o vrus 
dos intelectuais: o formalismo. Tudo certo, tudo ftido. A 
multido me olhava, esperando que eu me soltasse, mas estava 
enraizado em minha timidez. Subitamente, mais uma surpresa 
me envolveu. O bbado miservel que apontava os dedos para 
o alto apareceu. Enfiou seu brao esquerdo no meu direito e 
me empurrou para danar.
Alm de ter um bafo insuportvel, o miservel danava 
mal, quase caa, e eu ainda tinha que segur-lo. Vendo-me 
engessado no meio da baguna, ele parou de danar, olhou 
para mim, me deu um beijo na face esquerda e balbuciou:
 Se solta, cara! O chefe dos E.T.s te salvou. Esta festa  
pra voc!
Fui alvejado no centro do meu orgulho. Raramente vi ou 
ouvi tanta vivacidade e espontaneidade em frases to curtas. 
Nesse momento tive um grande insight. Veio  minha mente o 
texto da parbola de Cristo a respeito da ovelha perdida. Eu a 
havia lido e interpretado como socilogo e achava um absurdo 
ele deixar noventa e nove ovelhas para ir atrs de apenas uma. 
Os socialistas sacrificaram milhes de pessoas em torno de um 
ideal, mas esse Cristo quase enlouqueceu por um nfimo ser 
humano, e endoidou de tanta alegria quando o achou.
Criticava seu romantismo exagerado, mas agora o 
vendedor de sonhos manifestava a mesma alegria. S depois 
que o cambaleante alcolatra me beijou, percebi que estava 
festejando por mim. O bbado estava mais sbrio que eu. 
Estava embasbacado, nunca pensei que fosse possvel que um 
estranho desse tanta importncia para um desconhecido. Eu 
estava perdido e fui achado, estava morto e fui resgatado. O 
que mais poderia querer? No deveria eu comemorar? Mandei 
s favas meu formalismo, joguei para o alto meu status de 
intelectual.
Eu era normal e, como muitos normais, minha loucura 
era oculta, disfarada; precisava ser espontneo. Soltei-me. O 
mestre havia enfatizado que o corao no reclama motivos 
para pulsar. O maior sentido para continuar vivo  estar vivo, 
 a insondvel existncia. Na universidade, havia esquecido 
que os grandes filsofos discorreram sobre o sentido da vida, a 
poltica do prazer e a arte do belo. Considerava tais 
pensamentos filosficos desprezveis frases de auto-ajuda. Era 
preconceituoso. Percebi, agora, que precisava beb-los. Foi a 
primeira vez em que dancei sem ter usque na cabea. 
Precisava de uma vrgula para continuar respirando. 
Raramente me senti to bem.
Os normais eram to famintos de alegria que, quando 
encontravam um maluco que lhes tirasse o gesso da emoo, 
relaxavam e brincavam como crianas. Homens de gravata 
danavam, bem como mulheres de longo e de minissaia. 
Crianas e adolescentes tambm caram na gandaia.
Nesse momento, apareceu uma velhinha danando feliz 
da vida com sua bengala. Era a senhora em cima da qual 
Bartolomeu cara. Seu nome era Jurema. Tinha oitenta anos 
bem vividos. Quem imaginasse que ela estava capengando 
pelos ditosos anos se enganara. Estava em melhor forma que 
eu. Sade tima, a no ser por leves sintomas do mal de 
Parkinson. Sabia danar como raras pessoas. O vendedor de 
sonhos se encantou com ela. Danaram juntos. Eu esfregava os 
olhos para ver se tudo era real.
De repente, ela se desfez dos braos do mestre e topou 
com Bartolomeu no centro da roda. Deu-lhe uma bengalada na 
cabea, mas com suavidade, e novamente lhe disse:  Seu 
tarado.  No me agentei. Morri de ri. Ela fez o que eu 
gostaria de ter feito quando ele me deu um sculo malcheiroso 
no rosto.
O mestre voltou-se para a velhinha e, em vez de 
repreend-la, gritou:
 Voc  linda!  E, tomando-a agora pela cintura, 
rodopiou-a. A velhinha recebeu uma carga de adrenalina que a 
fez se sentir com vinte anos.
Por instantes achei que o vendedor de sonhos estava 
sendo falso. Mas refleti: quem disse que ela no era 
maravilhosa? O que  ser bonita? Enquanto ponderava, o 
alcolatra, esperto que era, vendo que o elogio funcionava, 
chegou perto da sua agressora e bradou exageros:
 Linda! Maravilhosa! Delirante amvel! Admirvel! 
Pensando estar abafando, recebeu outra bengalada da velhota.
 Tarado inveterado! Conquistador barato! Cachorro 
compulsivo! - disse ela, aparentando raiva. Bartolomeu enfiou 
o rabo entre as pernas. Mas em seguida percebeu que ela 
estava brincando. Derreteu-se. Fazia cinqenta anos que no a 
chamavam de linda nem utilizavam com ela adjetivos 
superlativos. Animadssima, tomou o bbado pelos braos e 
saiu danando com ele, feliz da vida. Fiquei impressionado; 
conhecia o poder da crtica, mas desconhecia o poder do 
elogio. Ser que os que usam esse poder corrigem mais, vivem 
mais e melhor? Estava confuso. Nunca vira tanta maluquice 
num s dia.
Ao longo da caminhada, o homem que eu seguira ensinou 
que os pequenos gestos podem ter tanto ou mais impacto que 
os grandes discursos. Em suas aulas ao ar livre, constatei que 
suas reaes e seu silncio penetravam mais do que as 
tcnicas multimdia. Intuitivamente sabamos que ele 
guardava grandes segredos. No ousvamos perguntar, pois ele 
nos tirava a roupa com seu mtodo socrtico. Transformou-se 
num especialista em fazer da vida uma festa, at quando havia 
motivos para se contorcer de raiva ou se autopunir.
Ele nos dizia continuamente:
 Felizes os que do risada das suas tolices, pois deles  
a fonte do relaxamento.
Eu detestava pessoas tolas, que davam respostas 
superficiais, mas no fundo era uma pessoa saturada de tolices. 
Tinha muito que aprender para dar risada de mim mesmo. 
Tinha muito que aprender sobre a arte de desanuviar a cabea, 
uma arte desconhecida no templo acadmico.
A universidade que eu ajudei a promover formava alunos 
que no sabiam olhar para si mesmos, detectar sua estupidez, 
se soltar, chorar, amar, correr riscos, sair do crcere da rotina 
e muito menos sonhar. Eu era o mais temido dos professores, 
uma mquina de criticar. Entulhava meus alunos de crtica e 
mais crtica social, mas jamais ensinara algum deles a curtir a 
vida. Claro! Ningum pode dar o que no tem. A minha vida 
era uma droga.
Tinha orgulho da minha tica e honestidade, mas 
comeava a descobrir que era antitico e desonesto comigo 
mesmo. Felizmente estava comeando a aprender a expelir os 
demnios que engessavam a minha mente e me 
transformavam num sujeito quase insuportvel.

Chamando complicados
Depois de vinte minutos de dana no sop do Edifcio San 
Pablo, o vendedor de sonhos pediu novamente silncio para a 
multido remanescente. Eufricas, as pessoas pouco a pouco 
se aquietaram. Para o espanto de todos, ele proclamou um 
verso em voz alta, como se estivesse no alto de um monte:

Muitos danam sobre o solo,
Mas no na pista do autoconhecimento.
So deuses que no reconhecem seus limites.
Como podero se achar se nunca se perderam?
Como sero humanos se no se aproximam de 
si?
Quem so vocs? Sim, digam-me, quem so?

As pessoas ficaram com os olhos regalados. Elas haviam 
acabado de danar numa pista improvisada, mas agora o 
promotor da festa introduzia uma outra pista e as questionava 
se eram humanas ou divinas. Vrios homens bem-trajados, em 
especial aqueles que no haviam danado e estavam na 
posio de crticos, ficaram atordoados. Diariamente estavam 
vidrados na cotao do dlar, nas cotaes da bolsa de valores, 
em tcnicas de liderana empresariais, em carros, hotis, mas 
muitos jamais haviam danado na pista do autoconhecimento, 
jamais haviam sido caminhantes no territrio psquico.
Viviam vazios, entediados, ansiosos, inundados de 
tranqilizantes. No se humanizavam. Eram deuses que 
morriam um pouco a cada momento, eram deuses que 
negavam seus conflitos.
Vendo a multido silenciada, ele expandiu seu discurso:
 Sem filosofar a vida, vivero na superfcie. No 
percebero que a existncia  como os raios solares que 
despontam solenemente na mais bela aurora e se despedem 
fatalmente no ocaso.  Alguns o aplaudiram sem entender a 
dimenso do seu raciocnio e sem perceber que estavam 
prximos do entardecer.
Momentos depois, para minha surpresa, ele saiu 
cumprimentando pessoa por pessoa, indagando:
 Quem  voc? Qual  o seu grande sonho?
Muitos ficavam constrangidos no primeiro momento. No 
sabiam responder quem eram nem qual era seu grande sonho. 
Outros, mais desinibidos e sinceros, diziam: No tenho 
sonhos, e justificavam: Minha vida est uma merda!. Outros 
comentavam: Vivo num atoleiro de dvidas. Como posso 
sonhar?, e ainda outros comentavam: Meu trabalho  uma 
fonte de estresse. Tenho dores em todo o corpo. Esqueci de 
mim mesmo, s sei trabalhar. Fiquei impressionado com as 
respostas. Percebi que a platia que estava assistindo ao meu 
suicdio no estava distante de minha misria. A platia e os 
atores viviam o mesmo drama.
O mestre no tinha solues mgicas para elas, queria 
instig-las a se interiorizar e se repensar. Observando o 
deserto psquico em que se encontravam, bradou:
 Sem sonhos, os monstros que nos assediam, estejam 
eles alojados em nossa mente ou no terreno social, nos 
controlaro. O objetivo fundamental dos sonhos no  o 
sucesso, mas nos livrar do fantasma do conformismo.
Uma jovem obesa, de cento e trinta quilos e um metro e 
oitenta de altura, ficou comovida com essas palavras. Sentia-
se programada para ser rejeitada e infeliz. O fantasma do 
conformismo a dominava. H anos tomava antidepressivos. 
Era pessimista e excessivamente crtica consigo mesma. 
Sempre se diminua perante outras mulheres. Constrangida, 
aproximou-se do vendedor de sonhos e teve a coragem de se 
abrir num tom de voz que s alguns de ns ouvimos:
 Sou um poo de tristeza e solido. Pode algum no 
atraente um dia ser amado? Pode algum no cortejado ter 
chance de encontrar um grande amor?  Ela sonhava em ser 
beijada, abraada, querida, admirada, mas sua reao indicava 
que provavelmente fora ridicularizada, rechaada, chamada 
por apelidos que s se dariam a animais. Sua auto-estima fora 
assassinada na sua infncia, como a minha.
Bartolomeu ouviu suas palavras. Carente e esbaforindo 
lcool, balbuciou aos gritos:
 Apetitosa! Belssima! Maravilhosa! Se voc procura um 
prncipe, o encontrou. Quer namorar comigo? - E abriu os 
braos.
Para ele no cair, tive que apoiar o miservel. Ela sorriu, 
mas o bbado desavergonhado era o ltimo homem com o qual 
ela se envolveria.
O mestre olhou nos olhos dela. Condodo, respondeu-lhe:
  possvel encontrar um grande amor. S no se 
esquea jamais que voc poder ter o melhor parceiro ao seu 
lado, mas ser infeliz se no tiver um romance com a prpria 
vida.  E orientou-a:
 Contudo, para alcan-lo, ter de deixar de ser escrava.
 Escrava do qu?  indagou surpresa.
 Dos padres de beleza do sistema  afirmou. Algumas 
pessoas que o ouviram se animaram com suas palavras e 
comentaram que sonhavam superar sua timidez, solido, 
fobias. Outras almejavam fazer amigos, mudar de trabalho, 
porque com o dinheiro que ganhavam as contas no fechavam 
no final do ms. Outras ainda diziam que sonhavam em fazer 
um curso superior, mas no tinha recursos para isso.
Elas esperavam um milagre, mas o vendedor de sonhos 
era um vendedor de idias, um mercador de conhecimento. O 
conhecimento era melhor do que o ouro e a prata, encantava 
mais que diamantes e prolas. Por isso, no estimulava o xito 
pelo xito. Para ele, no havia trajetrias sem percalos, nem 
oceanos sem tormentas. Fitando as pessoas, falou com 
segurana:
 Se seus sonhos forem desejos e no projetos de vida, 
certamente vocs levaro para a sepultura seus conflitos. 
Sonhos sem projetos produzem pessoas frustradas, servas do 
sistema.
E no deu explicaes sobre esses pensamentos, pois 
queria que as pessoas danassem na pista das idias. Fiquei 
reflexivo. Vivemos numa sociedade consumista, numa 
sociedade de desejos, e no de projetos existenciais. Ningum 
planeja ter amigos, ningum planeja ser tolerante, superar 
fobias, ter um grande amor.
 Se o acaso for nosso deus e os acidentes, nossos 
demnios, seremos infantis.
Espantei-me ao olhar ao meu redor e perceber que o 
sistema social havia feito um estrago irreparvel em quase 
todos ns. No poucas pessoas consumiam muito, mas eram 
autmatas, robotizadas, viviam sem propsitos, sem 
significado, sem metas, como especialistas em obedecer a 
ordens e no em pensar, o que fazia aumentar o ndice de 
transtornos psquicos.
Questionei-me tambm como educador: o que eu havia 
formado na universidade? Servos ou lderes? Autmatos ou 
pensadores? Mas antes de responder a essas perguntas me 
inquietei com minha prpria situao. Perguntei-me: ser 
crtico libertou-me da servido? Conclu que no! Eu era servo 
do meu pessimismo e da minha pseudo-independncia. Estava 
levando para o tmulo meus conflitos. Interrompendo meus 
pensamentos, o mestre comentou para sua platia extasiada:
 Conquistas sem riscos so sonhos sem mritos. 
Ningum  digno dos sonhos se no usar suas derrotas para 
cultiv-los.
Por estudar a histria das riquezas das naes, entendi o 
significado sociolgico desse ltimo pensamento. Entendi que 
muitos dos que recebiam herana ou eram presenteados 
gratuitamente com fortunas haviam tido conquistas sem 
mritos, no valorizavam as batalhas dos seus pais, dissipavam 
seus bens como se fossem eternos. A herana se tornava um 
lao para uma vida dissoluta e superficial. Eles eram 
imediatistas, queriam sorver o mximo prazer do presente, 
sem prever futuras tempestades.
Enquanto eu criticava as pessoas como vtimas do 
sistema e no como autoras da sua histria, num mpeto 
voltei-me para mim e percebi que no era diferente delas. No 
entendia por que pensamentos to simples eram to 
penetrantes. Estudei complexas idias do socialismo, mas elas 
no penetravam nas reas ocultas da minha psique. Sonhei em 
ser uma pessoa feliz, mas tornei-me um miservel. Sonhei em 
viver uma vida melhor que a que meu pai viveu, mas reproduzi 
o que mais detestava nele. Sonhei em ser mais socivel que 
minha me, mas cultivava sua sisudez e amargura.
No usei minhas perdas para cultivar meus sonhos. No 
fui digno deles. Detestava riscos, queria controlar tudo ao meu 
redor, pois no poderia comprometer minha brilhante 
reputao acadmica. Tornei-me estril por dentro, no 
engravidava de novas idias. Esqueci que os grandes 
pensadores eram malucos que assumiam os riscos. No poucos 
foram execrados, taxados de lunticos, tidos como herticos, 
transformados em espetculo de vergonha social. Enfim, 
serviram de carne fresca para aves de rapina de planto. Creio 
que eu era uma dessas aves predadoras.
At nas teses de mestrado e doutorado os riscos eram 
quase eliminados. Alguns dos meus colegas lutavam contra 
esse formalismo, mas eu os freava. Somente aps seguir esse 
imprevisvel vendedor de sonhos fui compreender que as 
grandes descobertas da cincia foram produzidas na 
juventude, no calor da rebeldia, e no na maturidade dos 
cientistas. Os formais recebem diplomas e aplausos, os 
desvairados produzem as idias que eles utilizam.

O inusitado sonho de Bartolomeu
Um homem branco, de cerca de trinta e cinco anos, 
portando camisa plo bege, de cabelo preto bem aparado, com 
um rosto fechado, quebrou o clima de harmonia e disse 
agressivamente para o mestre:
 Meu grande sonho  estrangular minha esposa.  Ele 
no estava brincando. Parecia que estava realmente prestes a 
cometer um assassinato. O mestre no deu resposta, apenas 
esperou que o agressor continuasse expurgando sua violncia. 
Ele continuou:  O que merece uma mulher que trai o 
marido?
Em vez de abrandar a ira do agressor, parece que colocou 
mais combustvel:
 Voc tambm  um traidor?
O agressor no teve dvida. Deu-lhe um soco que o jogou 
longe e lhe causou sangramento no lado esquerdo do lbio.
Quando muitos tentavam linchar o agressor, o mestre 
conteve a violncia da multido:
 No, no machuquem esse homem. Levantou-se, 
aproximou-se dele e explicou:
 Podemos no trair com os rgos sexuais, mas tramos 
no pensamento, nas intenes. Se no tramos quem amamos, 
tramos a ns mesmos. Tramos nossa sade, nossos sonhos, 
nossa tranqilidade. Voc nunca traiu ou se traiu?
O agressor ficou mudo, apenas meneou a cabea, 
confirmando que tambm era traidor. Diariamente se traa 
com milhares de pensamentos mrbidos. Sua agressividade era 
a ponta do iceberg de um traidor. Quando abaixou a guarda, o 
mestre o bombardeou mais intensamente:
 Por acaso sua esposa  sua propriedade? Se no , por 
que quer destru-la ou se destruir por causa dela? Quem disse 
que, por tra-lo, ela diminuiu sua condio de ser humano, que 
teve uma histria, chorou, amou, irou-se, frustrou-se? Se no 
 capaz de perdo-la e reconquist-la, por que no diz 
simplesmente Sinto muito, voc me perdeu?
O homem saiu de cena completamente atordoado. Era 
difcil saber se ele conseguiria conquistar sua esposa ou 
deixar-se conquistar por ela, mas no mais a assassinaria. 
Fiquei impressionado com sua reao. Ser que ele provocara 
o agressor para que ele o esmurrasse e, assim, abrisse uma 
janela na sua mente homicida e pensasse em outras 
alternativas? No  possvel! As pessoas que estavam prximas 
o fitavam como se estivessem assistindo a um emocionante 
filme de ao.
No bastasse esse incidente, chegou a vez de o mestre 
perguntar a Bartolomeu qual seu grande sonho. Creio que no 
era o momento nem uma boa idia fazer tal pergunta. 
Boquinha de Mel tinha uma irresistvel atrao pela 
irreverncia.
Olhou para ele e falou entusiasmadamente, quase caindo 
ao cho:
 Meu grande sonho, chefinho? Vodca russa! E... e... e 
tomar banho...  Quando todos pareciam felizes com o banho 
que desejava tomar, desapontou-os:  Tomar banho num... 
tonel de usque escocs.  Nesse momento, caiu sentado. 
Vivia duro, e estava em estado de xtase ao pensar nesse 
incomum banho.
No me agentei. Comecei a dar risada do miservel e da 
cara do sbio que eu comeara a seguir. Mas fiquei surpreso 
com meu sarcasmo. Nunca imaginei que na minha mente 
houvesse uni prazer sublimado pela desgraa alheia. Pensei 
comigo: Dessa vez ele embarcou num bote que estava indo a 
pique.
Antes que ele desse alguma resposta, dona Jurema 
apareceu e ameaou dar outra bengalada em Bartolomeu. Ela 
tambm ouviu qual era seu grande sonho e ficou indignada. 
Agora, no o chamou de tarado, mas de outros adjetivos:
 Prepotente! Presunoso! Alcolatra inveterado! 
Estrume social!
O Boca de Mel, que aparentemente no tinha cultura 
acadmica, gostou dos adjetivos. Emendou:
 Obrigado pelos elogios. Mas serve tambm um barril de 
cachaa brasileira ou de tequila mexicana.
O cara era incorrigvel. Bebia h mais de vinte anos sem 
controle. H dez anos andava de bar em bar, de rua em rua, no 
puro alcoolismo. Eu tinha a convico de que o vendedor de 
sonhos jamais conseguiria dar uma lio a esse miservel 
fedido. At porque nenhum pensamento lcido entraria na sua 
mente infestada de extraterrestres. Talvez meu mestre optasse 
por dar lhe uma bronca sem grandes pretenses educacionais, 
apenas para vomitar sua raiva, ou ento o enviasse para algum 
grupo dos Alcolatras Annimos, e se livrasse dele 
rapidamente. Mas para meu espanto, ele elogiou a sinceridade 
do moribundo:
 Muito bem! Parabns pela sua honestidade.
Tentei mexer nos ouvidos para ver se estava ouvindo 
direito. No era possvel que ele tivesse enchido a bola do 
bbado. O lcool na cabea, somado ao elogio que recebeu, 
multiplicaram a euforia do miservel. Revestido de um estado 
de auto-estima que fazia anos no sentia, olhou 
orgulhosamente para algumas pessoas que h pouco o tinham 
empurrado. Soltou um estridente grito de guerra: Hurruuu!. 
E teve a ousadia de dizer:
 Preservo a natureza. Sou movido a lcool.  Em 
seguida, esfregou o dedo indicador direito no esquerdo e 
completou:  Sou assim com o homem. Esse  o cara. Posso 
dar um passeio na sua aeronave, chefinho?  Aps se convidar 
para um vo extraterrestre, tropeou em duas pessoas e quase 
caiu.
Eu, que sempre fui intolerante, pensei: Mande esse cara 
para um manicmio. O mestre olhou para mim. Pensei que 
estivesse lendo meu pensamento e seguindo minha 
recomendao. Mas, para meu assombro, disse algo que quase 
me fez desmaiar. Tocou o ombro esquerdo do moribundo e 
disse-lhe com uma voz firme:
 Venha e siga-me! E eu o farei embriagar-se com uma 
bebida que voc no conhece.
Fiquei atnito. Tentava mexer com a cabea para ver se 
tinha entendido direito o que havia ouvido. O bbado, que 
estava fraco tanto porque havia danado como porque h anos 
era turbinado pelo lcool, mergulhou no seu tonel de usque 
sem beber. Imediatamente retrucou:
 Bebida que no conheo? Duvido!  vodca das bravas?
Fiquei constrangido com a santa irreverncia do 
alcolatra. Mas o vendedor de sonhos achou graa, sorriu. 
Conseguia relaxar em situaes tensas. Olhou para mim e 
parecia querer dizer: no se preocupe, eu vim para os 
complicados.
Meus neurnios entraram em estado de choque. Pensei 
em debandar. Seguir uma pessoa excntrica, um estranho no 
ninho social ainda vai, mas seguir lado a lado de um bbado 
gozador era demais. Riscos inimaginveis se sucederiam.

Minha casa  o mundo
O mestre, eu e Bartolomeu samos do meio da multido. 
Enquanto saamos, a multido nos aplaudiu. Algumas pessoas 
tiravam fotos. Eu virava o rosto, procurava a discrio, mas o 
infeliz do Boquinha de Mel fazia poses. Como o mestre no 
agia, eu tentava pux-lo para no dar bandeira. A ltima coisa 
que merecia era ser bab de um bbado. Alguns jornalistas 
estavam presentes e tomavam nota dos eventos.
Trs quadras  frente, os conflitos comearam. Comecei a 
pensar: O que estou fazendo aqui? Para onde vamos?, mas 
meu companheiro no pensava. Estava feliz em fazer parte do 
pequeno bando; eu, apreensivo.
Olhava para cima e tentava me relaxar. Ele olhava para 
mim com um meio sorriso; parecia que ouvia minhas dvidas. 
Imaginava que iramos para os seus humildes aposentos. Pelas 
roupas, parecia ser muito pobre, mas devia ter uma casa ou 
apartamento alugado. Talvez sua residncia no tivesse muitos 
quartos, mas pela veemncia do seu convite certamente seria 
um bom anfitrio, teria pelo menos um quarto para mim e um 
para o Bartolomeu. At porque dormir no mesmo quarto com 
esse bbado seria uma afronta ao bom senso.
Talvez o quarto em que me ele hospedaria fosse simples 
mas confortvel. Talvez a cama no fosse de molas, mas 
tivesse espuma com uma densidade que no arrebentaria as 
costas. Talvez no tivesse lenis novos, mas pelo menos 
seriam limpos. Talvez sua geladeira no tivesse alimentos 
caros, mas teria alguma coisa saudvel para comer; afinal de 
contas, eu estava faminto e extenuado. Talvez, talvez, talvez, 
pensava, mas nenhuma certeza havia.
No trajeto, ele abanava as mos para as crianas, 
cumprimentava os adultos nas ruas, ajudava algumas pessoas 
a carregar sacolas pesadas. Bartolomeu embarcou nas 
saudaes. Abanava as mos para todo mundo, at para as 
rvores e postes. Eu resisti, mas, para no ficar chato, acenava 
as mos sem exageros quando elas me cumprimentavam.
A grande maioria das pessoas respondia com um sorriso. 
Eu ficava imaginando: de onde o vendedor de sonhos conhece 
tantas pessoas? No conhecia. Ele era assim. Qualquer 
estranho era um ser humano, e qualquer ser humano era seu 
semelhante, e qualquer semelhante no era um desconhecido. 
Saudava-os pelo prazer de saudar. Jamais vi uma pessoa to 
animada, bem humorada e socivel. No apenas vendia sonhos, 
vivia-os.
Andamos muitas quadras, caminhamos alguns 
quilmetros, mas sua residncia no chegava. Tempos depois, 
quando eu j no conseguia mais caminhar, ele parou num 
cruzamento. Eu respirei. Ufa! Chegamos, pensei comigo. Para 
meu alvio, confirmou que havamos chegado.
Olhei para o lado esquerdo. Vi um conjunto de casas 
populares iguais, pintadas de cor branca, com uma 
pequenssima varanda. Cocei a cabea e imaginei: As casas 
so pequenas. No devem ter trs quartos.
Mas o homem que me fez o chamado felizmente olhou 
para o lado direito da rua. Levantou levemente a cabea e, 
seguindo seu olhar, vi um enorme edifcio atrs de um viaduto. 
Parece que havia oito apartamentos por andar. Parecia um 
pombal. Aparentemente os apartamentos tinham menos 
espao do que as casas populares. Estava apinhado de gente.
Lembrando-me dos meus alunos, disse para mim mesmo: 
No vou segurar essa onda. Vai ser uma noite muito difcil. O 
mestre se adiantou e disse mais uma vez:
 No se preocupe. H muito espao.
Tentando disfarar minha ansiedade, perguntei 
gentilmente:
 Em que andar  seu apartamento?
 Meu apartamento? Meu apartamento  o mundo  
disse com tranqilidade.
 Very good, gostei desse apartamento  disse 
Bartolomeu, que amava gastar seu pssimo ingls.
Assustado, indaguei:
 Como assim, mestre?
Ele explicou:
 As raposas tm seus covis, as aves do cu tm seu 
ninho, mas o vendedor de sonhos no tem residncia fixa onde 
reclinar a cabea.
No acreditava no que ouvia. Fiquei paralisado. Ele citou 
a famosa frase de Cristo. Ser que esse homem est pensando 
que  Cristo? No  possvel! Ser que ele est tendo um surto 
psictico? Ou poderia vir a ter? Mas ele parece 
intelectualmente superdotado, inteligente. Fala de Deus de 
forma no-religiosa. Quem  esse homem? Onde estou 
enfiando minha vida? Mas antes que minha cabea fervesse de 
dvida, ele jogou gua fria na minha mente, pelo menos por 
enquanto. Disse-me:
 No se preocupe. Eu no o sou. S procuro entend-lo.
 No  quem?  indaguei sem entend-lo.
 No sou o Mestre dos Mestres. Sou o menor dos que 
tentam entend-lo  reagiu calmamente.
Aliviei-me por alguns instantes.
 Mas quem  voc?  rebati ansiosamente, querendo 
mais explicaes, explicaes que nunca vinham.
Ele falou enfaticamente:
 J lhe disse quem sou. No cr em mim? Bartolomeu 
deveria ter ficado quieto naquele momento, mas era 
impossvel silenci-lo. Tentou corrigir-me dizendo:
 Voc no cr que ele  o chefe dos E.T.s.
Dessa vez no agentei, fui rspido com ele. Gritei:
 Cale-se, Boca de Lixo!
Retrucando, ele me ameaou:
 Boca de Lixo no! Boquinha de Mel. No me rebaixe, 
seu intelectual de segunda.  E fez uma pose de briga, 
imitando um especialista em artes marciais. Esse foi o 
primeiro dos vrios atritos que surgiram entre seus discpulos.
O mestre dirigiu-se a mim e corrigiu-me com delicadeza. 
No invadia a privacidade. Expunha nossa nudez sem punir. 
Suas atitudes machucavam mais do que uma punio:
 Jlio Csar, voc  to inteligente, por isso sabe que 
nenhum artista  dono da sua obra, mas sim o interpretador. 
Aquele que interpreta lhe d cores e sabores. Se Bartolomeu 
acha que sou o chefe dos E.T.s, por que voc se angustia? 
Generosidade quero, e no obedincia. Seja generoso consigo 
mesmo!
Quando me corrigiu, pensei que sua ltima frase, seja 
generoso consigo mesmo!, fora elaborada erradamente. Pensei 
que deveria ter dito seja generoso com o Bartolomeu. Mas 
durante a caminhada fui descobrir que quem no  generoso 
consigo mesmo jamais o ser com os outros. Quem cobra 
muito de si mesmo  um carrasco dos outros.
A generosidade era um dos maiores sonhos que ele 
desejava difundir no grande hospcio social. Os normais viviam 
em seus currais, ilhados em seu mundo, tinham perdido o 
sabor indecifrvel de se doar, abraar, dar uma nova chance. 
Generosidade era uma palavra que habitava os dicionrios, 
mas raramente o corao psquico. Eu sabia competir, mas no 
sabia ser generoso. Sabia apontar as falhas e ignorncias dos 
meus colegas, mas no sabia acolher. A desgraa dos outros 
me excitava mais do que seus sucessos. No era diferente dos 
polticos da oposio, que torciam pela autodestruio de 
partidos que governavam.
Aps a lio delicada me aquietei. Mas onde estava o 
apartamento e a casa em que iramos nos acomodar? De 
repente, ele apontou para debaixo do viaduto que estava  
nossa frente e que eu no enxergara e nos disse:
Eis nosso lar.
Tive vertigens. Comecei a ter saudade do Edifcio San 
Pablo. Havia uns colchonetes velhos e rasgados. No havia 
lenol, mas panos envelhecidos e tambm rasgados para nos 
cobrir. Um garrafo de gua era a nossa bebida. Tnhamos que 
tomar no bico. Nunca vi algum to pobre. Mas  esse o 
homem que me livrou do suicdio?, pensei.
A coisa era to ruim, que at o Bartolomeu refugou. 
Comecei a gostar do sujeito. Cocou a cabea, esfregou as mos 
nos olhos para constatar que no estava tendo alucinaes e 
expressou:
 Chefinho, tem certeza que essa  a sua casa? 
Bartolomeu comeara a cair na realidade. Comeara a ter a 
intuio de que entrara numa aeronave errada. Dormia em 
lugares melhores. Dormia em edculas de amigos, no fundo de 
bares e at em albergues municipais, mas debaixo de um 
viaduto era a primeira vez.
 Sim, Bartolomeu, essa  a minha casa! E teremos uma 
longa noite pela frente.
Como tudo o que o mestre dizia tinha significado, a longa 
noite no se referia a dormir mal, arrebentar as costas sobre o 
colchonete, mas ao clima de terror que a noite prometia.
Para jantar havia uns pes amanhecidos e uns biscoitos 
com data vencida, mas no embolorados. Eu detestava 
hambrgueres, mas comecei a pensar que eles seriam o paraso 
diante da comida disponvel. Aps dar umas poucas mordidas 
nas bolachas, resolvi deitar. Quem sabe no outro dia acordaria 
e descobriria que tudo no passara de um pesadelo. Coloquei a 
cabea no colchonete, enrolei uma folha de papelo como 
travesseiro e repousei a cabea, mas no a mente. Ela virou 
um caldeiro de ansiedade.
Procurando relaxar, dizia para mim mesmo: Fique 
tranqilo. Acalme-se. Voc no gosta de estudar grupos 
excntricos? Agora voc faz parte de um deles. Vai ser bom 
para sua carreira acadmica. No mnimo, ter uma experincia 
sociolgica interessante. Lembre-se de que sonhos sem riscos 
produzem conquistas sem mritos.
No imaginava onde estava entrando. S sabia que sara 
do microcosmo da sala de aula para um cosmo do submundo 
social, um ambiente completamente desconhecido. Era um 
socilogo terico. No consegui dormir.
Momentos depois, procurei outra tcnica. Comecei a 
recordar as lies que aprendera, a rememorar cada 
experincia. Tentava pensar em tudo o que acontecera horas 
antes. A experincia de seguir esse estranho homem era to 
forte que eu pensava menos no topo do edifcio e mais na casa 
debaixo da ponte, menos no suicdio e mais na caminhada.
Ento uma luz brilhou mais uma vez; tive mais um 
insight. Pensei que todas as pessoas deveriam sair por a sem 
rumo, pelo menos por um dia, para poder achar o elo perdido 
em seu interior. Pensar desse modo me relaxou. A inquietude 
que estava  flor da pele cedeu um pouco, o que me levou, 
afinal, a diminuir a agitao cerebral.
Relaxei; o sono comeou a vir. Entendi que quem 
determina a maciez da cama  o nvel de ansiedade da nossa 
mente. S dorme bem quem aprende primeiramente a repousar 
dentro de si. Estava comeando a filosofar como o mestre. No 
sabia o terror que estava por vir. O colchonete se tornou o 
melhor de todos os colches.

Um bando de malucos
Eram quatro horas da madrugada. Estava frio e ventava 
muito. De repente, acordei com gritos desesperados.
 A ponte vai cair! Vai cair!  gritava Bartolomeu. 
Estava ofegante e assustadssimo.
Meu corao palpitava. Jamais senti tanto medo. 
Levantei num sobressalto, querendo afastar-me do grande 
viaduto. O mestre segurou-me pelo brao e me pediu calma.
 Como, calma?! Podemos morrer!  disse eu, 
observando as construes e vendo antigas rachaduras, no 
meio da escurido, como se fossem novas.
Calmamente ele me disse:
 Bartolomeu est tendo a sndrome de abstinncia do 
lcool.
O instinto de vida pulsava em mim, embora poucas horas 
antes eu quisesse findar a vida. Meu companheiro bbado e 
atabalhoado levou-me a uma das maiores descobertas da 
minha vida: os suicidas, mesmo os que planejam a morte, no 
querem se matar, mas matar a sua dor. Respirei fundo, tentei 
relaxar, mas ainda estava taquicrdico e apreensivo. Olhei para 
Bartolomeu, e ele continuava num clima de terror.
Estava tendo delirium tremens. Por ser ele dependente, a 
falta do lcool na corrente sangnea levou seu organismo a 
um estado sofrvel caracterizado por falta de ar, aumento da 
freqncia cardaca, suor excessivo, entre outras coisas. O pior 
era que sua mente, que j estava confusa, entrou em colapso, 
comeou a ter alucinaes e vises irreais, mas que ele jurava 
que eram verdadeiras.
Depois do desespero pela queda da ponte, ele comeou a 
ter outras alucinaes. Viu aranhas e ratos gigantes, do 
tamanho de automveis, caminhando pelo teto e ameaando 
com-lo. Seu rosto pingava de suor, tremiam-lhe as mos. Seu 
corpo estava quente, parecia febril. Como o mestre sempre 
dizia,  possvel fugir dos monstros de fora, mas no dos de 
dentro. E  incrvel como a mente humana tem facilidade em 
criar fantasmas para assombr-la. Em plena era digital, os 
sentimentos primitivos continuavam vivos.
Bartolomeu tentava lutar contra as feras que queriam 
devor-lo. Gritava, agoniado:
 Chefinho, me ajude! Socorro!
Tentvamos acalm-lo e faz-lo sentar num caixote de 
madeira que outrora armazenara tomates. Mas em seguida ele 
se levantava e tinha novas crises. Teve um momento em que 
se levantou e saiu correndo pelas ruas. Havia cinco milhes de 
alcolatras no pas. Nunca imaginei que a turma movida a 
lcool sofresse tanto. Pareciam bbados felizes. Temendo que 
ele fosse atropelado, o mestre sugeriu lev-lo a um hospital 
pblico a trs quarteires do viaduto. Estava preocupado com 
sua integridade. E assim o fizemos.
Comecei, ento, a dar um pouco da minha energia para os 
outros sem pedir nada em troca. Claro, sempre h interesses 
em tudo o que fazemos, mas, como o mestre dizia, h 
interesses legtimos que extrapolam o ganho financeiro, o 
reconhecimento pblico, tais como os que esto ligados ao 
prazer de contribuir para o bem-estar e a sade do outro. Era 
um sistema de troca no previsto no capitalismo nem no 
socialismo. Era um mundo estranho  academia.
Comecei a entender que os egostas vivem no calabouo 
das suas angstias, mas os que atuam na dor dos outros 
aliviam a prpria dor. No sei se me arrependerei de tomar 
esse caminho, no sei o que me aguarda, mas vender sonhos, 
ainda que tenha seus riscos, talvez seja um excelente 
negcio no mercado da emoo. A angstia de meu 
companheiro era to grande, que diminuiu, pelo menos por 
enquanto, a percepo que eu tinha da minha misria psquica 
e das inmeras coisas no resolvidas em minha vida.
Imaginei o esforo tremendo que o vendedor de sonhos 
fizera para me resgatar. No me pedira dinheiro, 
reconhecimento nem aplausos, mas recebeu muito, recebeu 
doses elevadas de prazer. Ficou to feliz que danou em 
pblico. Que mercado fantstico! A nica coisa que me pediu 
foi convidar-me para fazer o mesmo.
Ajudar Bartolomeu era a minha primeira experincia de 
contribuir despretensiosamente para o benefcio de algum. 
Uma tarefa difcil para um intelectual egocntrico. Foi uma 
batalha para intern-lo. Tivemos de convencer a equipe de 
planto de que nosso amigo estava correndo risco de morrer. 
No bastavam os escndalos aflitivos que ele dava. Os 
hospitais gerais estavam despreparados para lidar com 
acidentes da mente humana. Sabiam lidar com o corpo, mas 
desconheciam ou negavam o mundo intangvel da psique. 
Eram uma casta de engessados. Quando conseguimos a 
internao, Bartolomeu estava menos agitado. Deram-lhe um 
sossega-leo e o levaram dormindo para o quarto.
Fomos visit-lo  tarde. Bartolomeu estava bem melhor. 
J no tinha alucinaes. Teve alta. Pediu que lhe 
contssemos tudo o que tinha acontecido e como nos 
havamos conhecido. Sua memria estava turva. O mestre 
passou o basto para mim. Tentei explicar o incompreensvel. 
Quando iniciei minha fala, ele saiu de cena. No gostava de ser 
exaltado.
Falei sobre o vendedor de sonhos, como o encontrara, 
como me ajudou, como me chamou, como o encontramos no 
sop do edifcio, a dana, a pergunta sobre o grande sonho, 
como o chamou, o viaduto, o terror noturno, enfim, tudo. 
Bartolomeu prestava muitssima ateno e meneava a cabea, 
balbuciando Hum!. Tudo parecia to irreal que eu me sentia 
um tolo explicando o que nem estava entendendo. O miservel 
era bem-humorado como o mestre. Tentando diminuir minha 
tenso, disse:
 Voc no sabe o nome dele nem quem ele . Hum! 
Cara, s tomando umas para entender essa confuso.  Mas 
quando eu pensava que ele iria desistir do caminho, 
completou:  Eu sempre quis seguir algum mais biruta do 
que eu.
Bom, comecei ento a andar com os dois malucos. A 
experincia sociolgica ganhava corpo. S esperava no 
encontrar conhecidos nas ruas. Melhor que os professores e 
meus alunos pensassem que eu morrera ou mudara de pas. 
Bartolomeu assoviava despreocupadamente. O mestre andava 
ao nosso lado com incontido jbilo. De repente, comeou a 
cantar uma bela e instigante cano que ele mesmo havia 
composto, cuja letra retratava sua bandeira de vida. Tal 
cano se tornou pouco a pouco o tema central de nossa 
histria.

Sou apenas um caminhante
Que perdeu o medo de se perder
Estou seguro de que sou imperfeito
Podem me chamar de louco
Podem zombar das minhas idias
No importa!
O que importa  que sou um caminhante
Que vende sonhos para os passantes
No tenho bssola nem agenda
No tenho nada, mas tenho tudo
Sou apenas um caminhante
A procura de mim mesmo.

Durante a caminhada para a nossa casa, ou melhor, para 
nosso viaduto, deparamo-nos com mais uma figura rarssima. 
Seu nome era Dimas de Melo, apelidado de Mo de Anjo. Seu 
apelido deveria ser mo do Diabo, mas apelido nem sempre  
sinnimo. Nesse caso era um antnimo do seu 
comportamento. O sujeito era um velhaco. Tinha vinte e oito 
anos, cabelos loiros com franja, nariz comprido e achatado, 
traos orientais.
Mo de Anjo foi pego numa loja de departamentos 
roubando um DVD porttil. J havia roubado inmeras outras 
coisas, mais valiosas, e nunca tinha sido pego. Mas agora uma 
cmera o filmara com a boca na botija. Claro, o espertalho 
tinha analisado todas as cmeras quando colocava o aparelho 
em sua larga bolsa, mas no percebeu que havia uma oculta. 
Foi preso.
Na delegacia, pediu para chamar um advogado. Antes de o 
delegado iniciar o inqurito policial, chamou seu advogado  
parte e lhe disse que no tinha dinheiro para pagar a futura 
fiana. O advogado lhe afirmou: Sem dinheiro, xadrez. Voc 
ficar preso. O malandro, quando pressionado, no articulava 
direito as palavras, tinha uma leve gagueira. Argumentou: 
Agenta as pontas... que... que... vou sair dessa sem p... 
pagar nada. S me segue.... O advogado ficou sem entender o 
que ele aprontaria. Ambos entraram na sala do impaciente e 
autoritrio delegado.
O delegado perguntou o nome do ru. Dimas, com ar de 
bobo, passou o dedo indicador direito prximo aos lbios com 
um assovio e em seguida deu trs tapinhas na testa. O 
delegado bronqueou com ele e indagou-lhe novamente o nome. 
Ele repetiu o gesto.
 Voc est brincando comigo, rapaz! Coloco-o em cana 
por desacato  autoridade.
Perguntou endereo e profisso, mas o Mo de Anjo, com 
a maior naturalidade do mundo, repetiu o mesmo ritual, 
passou o dedo prximos aos lbios assoviando e deu trs tapas 
na testa. Queria passar a imagem de que era um psictico, 
mentalmente incapaz, que no sabia onde estava, o que estava 
acontecendo, e no tinha noo do roubo que cometera. Foram 
dez perguntas insistentes sem respostas. O delegado xingou, 
bateu na mesa, ameaou, mas nada. O sujeito era um artista, 
no pior sentido da palavra. O advogado curtia a astcia do seu 
cliente.
 No  possvel! Esse sujeito  maluco!  gritou o 
delegado. O advogado tomou a frente e disse-lhe:
 Doutor, eu no disse que meu cliente era mentalmente 
incapaz porque o senhor no acreditaria em mim. O senhor 
est vendo que ele no tem conscincia dos seus atos.
No querendo perder mais tempo, o delegado dispensou o 
salafrrio. L fora o advogado cumprimentou o Mo de Anjo e 
elogiou sua malandrice.
 Voc  terrvel. Parabns! Nunca vi um trapaceiro to 
esperto.  E rapidamente cobrou seus honorrios, pois tinha 
outros compromissos.
Mo de Anjo olhou bem na menina-dos-olhos do advogado 
e, com a maior naturalidade do mundo, passou as mos na 
boca, assoviando, e bateu trs vezes na testa. O advogado deu 
risada, mas disse que no tinha tempo para brincadeiras. 
Dimas repetiu o mesmo gesto. Ns estvamos do outro lado da 
calada, observando a cena.
 Vamos acertar!  esbravejou o advogado.
Mo de Anjo repetiu mais uma vez o ritual. O advogado se 
irritou. Diante da irritao, Dimas reproduziu o mesmo 
comportamento. Nada dissuadia o malandro. O advogado o 
ameaou de todas as formas. Ameaou at de denunci-lo 
novamente. Mas como podia faz-lo? Ele afirmara ao delegado 
que seu cliente era um doente mental; se desmentisse isso 
poderia se complicar. Foi a primeira vez na histria do direito 
que um espertalho deu um tombo num delegado e num 
advogado de defesa em quinze minutos.
Aps o advogado ir embora, bufando de raiva, Mo de Anjo 
disse para o alto:
 Mais um trouxa.
O mestre prestava ateno detalhadamente no vigarista. 
Eu no entendia direito seu interesse pelo velhaco. Mas pensei 
que talvez quisesse vender o sonho da honestidade para ele. 
Talvez quisesse lhe dar uma bronca, lhe passar um sermo. 
Talvez desejasse nos recomendar que no andssemos com um 
sujeito dessa estirpe, pois poderia estragar nosso projeto.
Ele atravessou a calada e se aproximou do sujeito. Ns, 
apreensivos, o seguimos. Temamos que o malandro estivesse 
armado. Dimas o notou e ficou intrigado com sua presena e 
com o olhar furtivo. Para nosso espanto, o mestre falou com 
uma voz segura:
 Voc tem um sonho de ficar rico, e no se importa com 
os meios para atingi-lo.
Gostei do que ouvi, e achei ousada a introduo do 
mestre. Mas em seguida me abalou, e pirou at Bartolomeu, j 
sem vodca na cabea. Ele disse para o Mo de Anjo:
 Os que furtam so pssimos administradores. Fogem da 
misria, mas ela sempre os alcana.
O vigarista levou um susto. No sabia aplicar o que 
furtava. Vivia na dureza. Detestava a misria, suplicava que ela 
partisse, mas, como companheira fiel, ela insistia em ficar. 
Momentos depois, fez desabar o mundo do golpista:
 O pior esperto no  o que engana os outros, mas o que 
engana a si mesmo.
O vigarista deu dois passos para trs. No era muito de 
pensar, mas o que ouviu tumultuou sua mente. Comeou a se 
questionar: Ser que sou o pior esperto? Sou especialista em 
ludibriar os outros, mas ser que tenho enganado a mim 
mesmo? Quem  esse sujeito que furta minha paz?.
Em seguida o mestre provocou um terremoto no solo em 
que estvamos.
 Venha e siga-me, que eu o farei descobrir um tesouro, 
chamado conhecimento, muito mais valioso do que o ouro e a 
prata.
As suas idias eram incisivas, determinantes, sedutoras. 
O sujeito olhou de cima a baixo o homem que o perturbara, 
analisou suas vestes, viu seus bolsos vazios, deu uma fungada 
no nariz. Pensou no tal de tesouro do conhecimento e no 
entendeu nada. Truncando as palavras, indagou:
 O que... significa esse te... tesouro? Onde est essa... 
gra... grana?  replicou desconfiado.
Sem dar explicao, o mestre apenas comentou com 
segurana:
 Voc saber!
E saiu sem dar maiores explicaes. O malandro nos 
seguiu. Seguiu-o inicialmente mais por curiosidade. Talvez 
pensasse que o mestre era um milionrio excntrico. O fato  
que o vendedor de idias era um plo de atrao fascinante, 
atraa em particular as peas raras da sociedade, ainda que 
elas inicialmente tivessem intenes escusas.
Bartolomeu, h muitos anos, quando tinha algum 
dinheiro, fizera tratamentos psicoteraputicos, mas nenhum 
deles funcionara. Alis, funcionara s avessas. Ele deixou 
malucos alguns dos seus terapeutas, pois tiveram que se tratar 
depois que comearam a atend-lo. O sujeito era irremedivel, 
mas esperto. Descobriu que o orgulho era minha especialidade. 
Quando fizemos a primeira caminhada em direo ao viaduto, 
aps a dana no San Pablo, me apelidou de Superego, pois 
percebeu que eu era um poo de orgulho, tinha um ego 
doentiamente inflado. O ignorante usou errado o termo da 
teoria de Freud. Vendo o chamamento do trapaceiro, me 
chamou de lado e cochichou aos meus ouvidos:
 Superego, agentar voc  difcil, mas esse vigarista  
impossvel.
 V se se enxerga, seu...  comecei a retrucar, mas, 
antes que proferisse meu xingamento, ponderei que ele 
poderia estar certo. O novo membro da famlia poderia ser um 
perigo. Jamais imaginei estar associado a um criminoso, um 
embusteiro.
Tirei a forra dizendo baixinho para Bartolomeu:
 Suportar um alcolatra pirado como voc  
complicado, mas esse malandro no d. Estou fora!
Pensei em debandar pela segunda vez da experincia 
sociolgica. Mas subitamente um filme passou novamente pela 
minha mente. Recordei que estava perdido e fui achado. Olhei 
para o calmo semblante do mestre e resolvi resistir um pouco 
mais. A curiosidade para ver no que ia dar essa experincia me 
animava. Certamente poderia ser tema de muitas teses.
O novo discpulo tinha voz mansa, mas era um perito em 
dar tombo nos outros e levar vantagem em tudo. Sabia 
ludibriar as pessoas, vender bilhetes de loteria falsamente 
premiados. Furtava carto de crdito das mulheres, batia 
carteira de senhoras idosas depois de ajud-las gentilmente a 
atravessar as ruas. O problema  que todo esperto tem excesso 
de autoconfiana. Achava que nunca cairia numa armadilha, 
at que encontrou algum mais esperto do que ele. No sabia 
que ao andar com o mestre entraria na maior emboscada da 
sua vida.
Sentamos numa praa para descansar. O mestre sugeriu 
que eu e Bartolomeu explicssemos o projeto para o Dimas. 
Tarefa difcil. O sujeito parecia que tinha baixa escolaridade. 
Mas era um bom momento para exclu-lo do grupo. Bartolomeu 
dava um tom superlativo a tudo que acontecera.
 Cara, o chefinho  um gemo. Acho que ele  de outro 
mundo. Ele hipnotiza as pessoas. Ele nos chamou para 
incendiar a humanidade com sonhos.
Bartolomeu, bbado, tinha alucinaes com monstros; 
sbrio, tinha delrios de grandeza. Mas infelizmente Dimas 
gostava de ouvi-lo, falavam a mesma linguagem. Os 
desajustados sabem se comunicar. Caindo em mim, pensei: 
Sou um desajustado solitrio. Levei uma vida pior que esses 
miserveis.
Sabia que toda explicao que estvamos dando a Dimas 
no o saciaria, pois estvamos to confusos quanto ele. Mas 
para quem est no deserto, a alucinao do osis  refrescante. 
Torci para que o salafrrio desistisse, mas, infelizmente, ele 
no desanimou de seguir-nos. Assim, o bando de malucos se 
construa.

As pequenas andorinhas
Momentos depois, passamos por uma banca de revistas 
que estava na praa e vimos nossa foto estampada na primeira 
pgina de um grande jornal, com a seguinte manchete: Um 
pequeno bando de malucos agita o centro da cidade. Meu 
mestre estava em primeiro plano; eu e Bartolomeu estvamos 
ao seu lado. Comprei o jornal com as poucas moedas que tinha 
no bolso.
Fiquei abalado, perplexo. Sabia que tinha dado um 
escndalo quando quisera morrer, mas esperava que ficasse 
soterrado, queria esquecer esse assunto, voltar  minha 
discrio de professor universitrio. Agora estava na boca do 
povo. A reportagem descrevia minha tentativa de suicdio e 
meu estranho resgate por um estranho do qual ningum sabia 
o nome.
Dimas e Bartolomeu viram um intelectual descontrolado 
e desconsolado ao ler o jornal. Estavam acostumados  
difamao, eu no. Minha imagem social era meticulosamente 
preservada. Serei ridicularizado publicamente pelos meus 
opositores na universidade, virarei pasto na roda dos 
escarnecedores, pensei comigo.
Fui um tolo; queria morrer sem chamar a ateno, mas fiz 
tudo errado. Tornei-me uma celebridade s avessas. Ferido, 
queria sair pegando todos os jornais e queimando. Queria 
protestar contra minha foto publicada sem autorizao. Queria 
processar o jornalista por essa reportagem caluniosa. A 
matria me diminua, dizia que eu era um depressivo que 
procurava sensacionalismo. Tambm dizia que o psiquiatra que 
estava no topo do edifcio classificara o homem que me 
resgatou como um psictico perigoso, que poderia colocar em 
risco a sociedade. Eu no fora salvo por um heri. Vivera um 
filme de Hollywood ao contrrio.
O mestre se sentou num banco ao lado, junto com seus 
outros seguidores. Respeitando minha dor, apenas me 
observava. Esperava que a temperatura da minha angstia 
diminusse para intervir. Mas no diminua. Minha mente fugia 
ao meu controle. Imaginei todos os meus colegas professores e 
alunos lendo a matria. Eu era o chefe de um departamento de 
sociologia, e nunca abaixara a cabea para nenhum professor 
ou aluno. Parecia imbatvel, detestava mentes estpidas, mas 
no olhava para minha estupidez. Sempre fora timo em 
cultivar inimigos e pssimo em fazer amigos.
E agora, o que pensaro de mim? O que pensaro de um 
suicida salvo por um homem excntrico? E, o que  pior, o que 
pensaro de um suicida que depois de resgatado danou 
alegremente no meio da multido desconhecida? Certamente 
diro que fiquei maluco ao quadrado. Diro que me ps-graduei 
em doidice.
Era tudo o que Mario Vargas, Antnio Freitas e outros 
desafetos sonhavam, surrupiar a minha imagem. Sem 
perceber, acabei por vender o sonho que eles mais desejavam, 
o sonho de pisotear minha imagem. Abatido, conclu que 
estava acabado para o mundo acadmico, estava terminado 
para a universidade. Nunca mais teria o mesmo silncio 
quando tecesse crtica social nem o respeito quando debatesse 
idias ou corrigisse algum. O mal-estar da civilizao 
penetrara as entranhas do meu crebro.
Comecei a ter raiva do jornalista que fizera a matria. 
Num ataque de clera, pensei: Por que os jornalistas, na sua 
formao, no fazem um laboratrio em que simulem a 
execrao pblica de seu nome? Talvez aprendessem a se 
colocar no lugar dos outros e investigassem muitos mais fatos 
antes de jogar no lixo o nome dos outros.
Para o jornalista, era mais uma matria, para mim era 
minha histria, era tudo o que tenho e sou, ainda que fosse 
uma histria doente, complicada, saturada de sobressaltos. 
Poucos minutos mudam uma histria. Como retornar s 
minhas atividades? Se retornar, nunca mais serei o mesmo 
para os outros. S tenho  minha frente um homem que 
props um projeto revolucionrio sem a mnima base de 
segurana intelectual, social, financeira. E, ainda por cima, 
chama para esse projeto pessoas que jamais passariam pelo 
filtro da minha inteligncia, parceiros que eu jamais escolheria 
para fazer qualquer tarefa juntos.
Eu ficara muitos anos protegido na universidade; a 
primeira vez em que deixava a proteo dos meus notveis 
ttulos e me tornava um simples mortal, recebia bordoadas. 
Estava indignado. De repente, enquanto me atolava na lama da 
angstia, minha mente comeou a se iluminar, e tive outro 
insight.
Olhei de relance para o mestre e descobri que a vrgula 
que ele me vendera estava funcionando, embora segui-lo fosse 
um preo muito alto. Percebi que todo o corpo de idias 
pessimistas causadas pela matria tinha por trs algo muito 
positivo. Os vivos sentem frustraes, os mortos, no sei. Eu 
estava vivo.
Quase me arrebentara saltando do topo do edifcio. Devia 
estar festejando a vida, porm os conflitos alojados em meu 
inconsciente estavam combalidos, mas no mortos. Queria ser 
simples, viver suavemente, despreocupar-me com a parania 
da imagem social, mas era um ser humano pesado, rgido, 
controlado pela ansiedade.
Agora entendo por que o pai de um colega professor, um 
senhor de setenta anos, arrogante, agressivo, discriminador, 
que ficara seqestrado por seis meses, no mudara de 
personalidade depois de seu longo seqestro. Quando foi 
libertado, todos pensavam que se tornaria um homem dcil, 
generoso, altrusta, mas depois de resgatado ficou sendo mais 
intragvel ainda.
Meu autoritarismo sempre ficara escondido debaixo do 
manto da minha intelectualidade. No foi extirpado nem 
depois do vendaval que me levou  idia do suicdio. 
Angustiado, senti que essa histria de vender sonhos no 
mudaria facilmente um sujeito egocntrico como eu. No  a 
dor que nos muda, como h milhares de anos pensamos, mas a 
utilizao inteligente dessa dor que fazemos ao longo da vida. 
Percebi que se no a utilizasse, continuaria sendo um ser 
humano doente: um gigante na cultura e um menino na 
emoo.
Quando refletia sobre isso, senti a presena do mestre ao 
meu lado. Ele parecia ter entrado no torvelinho das minhas 
idias. Sua face revelava preocupao. Parecia ler o invisvel. 
Procurando apaziguar as guas da minha emoo, disse-me:
 No tema a difamao exterior. Tema seus prprios 
pensamentos, pois somente eles podem penetrar em sua 
essncia e destru-la.
Fiquei pensativo, e ele continuou:
 Algum pode rasgar-lhe a pele sem que voc permita, 
mas jamais poder invadir sua mente se voc no permitir. 
No se permita ser invadido. Somos o que somos.  Em 
seguida me desafiou mais do que poderia imaginar com estas 
palavras:
 O preo para vender sonhos  alto, mas voc no  
obrigado a pag-lo. Tem liberdade de partir.
Eu fora arrastado para uma encruzilhada. Tinha a 
oportunidade de virar as costas e ir para qualquer lugar do 
mundo. Eu, cair fora? Sempre fui teimoso, obstinado, lutei 
pelo que queria. Nesse momento, minha mente comeou a ser 
invadida por um questionamento sobre o qual jamais havia 
refletido. Comecei a recordar o estudo sociolgico que havia 
sobre as relaes entre Jesus e seus discpulos, que muito 
influenciou a sociedade ocidental. Comecei a entender 
fenmenos psquicos e sociais que nunca havia analisado.
Comecei a pensar no poder indecifrvel das suas palavras 
e gestos do homem Jesus para convencer jovens judeus, na 
flor da idade, malucos por aventuras, com famlias nucleares 
organizadas e negcios estabelecidos, a abandonar tudo para 
segui-lo. Que loucura! Seguiram no escuro um homem sem 
poder poltico notrio e sem identidade visvel. Deixaram 
barcos, amigos, casas e o seguiram sem direo. Ele no lhes 
deu dinheiro, no lhes deu conforto, no lhes prometeu nem 
mesmo um reino terreno. Que experincia arriscada! Que 
conflitos! Que vexames! Que perturbaes viveram!
Perderam tudo, por fim perderam o homem que os 
ensinou a amar crucificado numa trave de madeira. Morreu 
sem herosmo, morreu em silncio, encerrou seu flego 
amando, faleceu perdoando. Aps sua morte, o grupo poderia 
ter se dissipado, mas uma fora incompreensvel os invadiu. 
Tornaram-se mais fortes depois do caos. Difundiram para o 
mundo a mensagem que tinham ouvido.
Deram as lgrimas, a sade, seu tempo, enfim, tudo o que 
tinham para a humanidade. Amaram desconhecidos e se 
entregaram por eles. Sob a mensagem difundida por esses 
jovens toscos e sem cultura clssica, as sociedades europias e 
depois inmeras outras nas Amricas, na frica e na sia 
foram construdas. As bases dos direitos humanos e dos 
valores sociais foram estabelecidas.
Sculos se passaram, e tudo se tornou comum. As igrejas 
se tornaram uma fonte excelente de conformismo. Na 
atualidade, centenas de milhes de pessoas comemoram 
confortavelmente em seus templos o Natal, a Paixo e outras 
datas, sem nunca terem imaginado o que  dormir ao relento, 
o que  receber a pecha de louco, qual o sabor de ter sua 
imagem social estilhaada. Perderam a sensibilidade, no 
entenderam o estresse dramtico que esses jovens viveram ao 
seguirem o enigmtico Mestre dos Mestres.
Vieram-me  mente as desconfortveis camas de palha 
nas quais dormiam ao relento. Fiquei refletindo na angstia 
que sofreram ao tentar explicar o inexplicvel para seus pais e 
amigos da Galilia. No poderiam falar que tinham aprendido a 
amar um homem, pois seriam apedrejados. No poderiam dizer 
que estavam envolvidos num grande projeto, porque esse 
projeto no era palpvel. No podiam comentar que seguiam 
um homem poderoso, o Messias, pois ele amava o anonimato. 
Que coragem para chamar e que coragem para seguir o 
chamado!
Aps essa reflexo, Bartolomeu me fez voltar como um 
raio para nossa realidade. Provocou-me. No sei se me elogiou 
ou me ofendeu.
 Superego, se voc for um banana e cair fora, vamos 
respeit-lo. Mas voc  importante no time.
Respirei profundamente. Pensei no homem que evitara 
meu suicdio e me levara a dormir debaixo do viaduto. Ele no 
 Cristo, no tem vocao messinica. No faz milagres. No 
promete o reino dos cus, nem promete um reino terreno e 
sequer nos d segurana social. No tem onde morar,  pobre, 
no tem carro, no possui plano de sade. Mas nos magnetiza. 
Vive a arte da solidariedade, sonha em abrir a mente das 
pessoas, em combater o vrus do sistema, em confrontar o 
egocentrismo.
No seria menos perigoso deixar a sociedade continuar 
sendo uma fbrica de loucura? No seria melhor deixar as 
pessoas se lambuzarem com o individualismo, no seria mais 
confortvel deix-las serem mentes obtusas que no pensam 
nos mistrios da existncia, mas nos superficiais mistrios dos 
produtos dos shoppings, dos computadores, da moda? Somos 
pequenos demais para fazer alguma coisa contra o poderoso 
sistema. Poderemos ser presos, feridos e mais caluniados 
ainda.
Enquanto o circo pegava fogo na minha mente, o mestre 
ainda estava no picadeiro realizando belssimas performances. 
A pacincia era sua virtude nmero um. Vendo-me aflito, 
chamou Boquinha de Mel e Mo de Anjo, e depois de um longo 
minuto de silncio contou-nos uma parbola simples, quase 
ingnua, mas que tocou as entranhas dos meus medos:
 Certa vez houve uma inundao numa imensa floresta. 
O choro das nuvens que deveriam promover a vida dessa vez 
anunciou a morte. Os grandes animais bateram em retirada 
fugindo do afogamento, deixando at os filhos para trs. 
Devastavam tudo o que estava  frente. Os animais menores 
seguiam seus rastros. De repente uma pequena andorinha, 
toda ensopada, apareceu na contramo procurando a quem 
salvar.
As hienas viram a atitude da andorinha e ficaram 
admiradssimas. Disseram: Voc  louca! O que poder fazer 
com um corpo to frgil?. Os abutres bradaram: Utpica! Veja 
se enxerga a sua pequenez!. Por onde a frgil andorinha 
passava, era ridicularizada. Mas, atenta, procurava algum que 
pudesse resgatar. Suas asas batiam fatigadas, quando viu um 
filhote de beija-flor debatendo-se na gua, quase se 
entregando. Apesar de nunca ter aprendido a mergulhar, ela se 
atirou na gua e com muito esforo pegou o diminuto pssaro 
pela asa esquerda. E bateu em retirada, carregando o filhote no 
bico.
Ao retornar, encontrou outras hienas, que no tardaram 
a declarar: Maluca! Est querendo ser herona!. Mas no 
parou; muito fatigada, s descansou aps deixar o pequeno 
beija-flor em local seguro. Horas depois, encontrou as hienas 
embaixo de uma sombra. Fitando-as nos olhos, deu a sua 
resposta: S me sinto digna das minhas asas se eu as utilizar 
para fazer os outros voarem.
No momento seguinte, aps uma inspirao profunda e 
penetrante, o vendedor de sonhos disse a mim e a meus 
amigos:
 H muitas hienas e abutres na sociedade. No esperem 
muito dos grandes animais. Esperem deles, sim, 
incompreenses, rejeies, calnias e necessidade doentia de 
poder. No os chamo para serem grandes heris, para terem 
seus feitos descritos nos anais da histria, mas para serem 
pequenas andorinhas que sobrevoam anonimamente a 
sociedade amando desconhecidos e fazendo por eles o que est 
ao seu alcance. Sejam dignos das suas asas.  na 
insignificncia que se conquistam os grandes significados,  na 
pequenez que se realizam os grandes atos.
Essa histria, ao mesmo tempo em que animou minha 
emoo, feriu meu intelecto. Pensei comigo: Tenho de 
admitir que agi como hiena e abutre em muitos momentos da 
minha vida; agora preciso aprender a agir como uma 
insignificante e brava andorinha.

Os espaos mais manicmio social
Os normais levantavam sempre do mesmo jeito. 
Reclamavam da mesma maneira. Irritavam-se do mesmo 
modo. Xingavam com as mesmas palavras. Cumprimentavam 
os ntimos da mesma forma. Davam as mesmas respostas para 
os mesmos problemas. Expressavam o mesmo humor em casa 
e no trabalho. Tinham as mesmas reaes diante das mesmas 
circunstncias. Davam presentes nas mesmas datas. Enfim, 
tinham uma rotina estafante e previsvel, que se tornava uma 
fonte excelente para a ansiedade, a angstia, o vazio, o enfado.
O sistema havia enfartado a imaginao das pessoas, 
corroera a sua criatividade. Elas raramente surpreendiam. 
Raramente davam presentes em dias inesperados. Raramente 
reagiam de modo distinto em situaes tensas. Raramente 
libertavam o intelecto para enxergar os fenmenos sociais por 
outros ngulos. Eram prisioneiras e no sabiam.
Os pais normais, quando iam corrigir ou aconselhar os 
filhos, eram interrompidos no meio do caminho. Os filhos no 
agentavam mais os mesmos argumentos. Diziam: Eu j 
sei.... E j sabiam mesmo. Os normais no sabiam encantar.
No sabiam contar suas prprias experincias para 
estimular as idias dos outros.
Sempre fui previsvel ao me relacionar com meus alunos, 
e s descobri isso quando comecei a andar com meu mestre. 
Dava aula no mesmo tom de voz. Fazia crticas e dava broncas 
da mesma maneira. Variava os verbos e substantivos, mas no 
a forma e o contedo. Os alunos estavam com o saco cheio de 
um professor que parecia mais uma mmia do Egito do que um 
ser humano verstil. No agentavam mais ouvir que seriam 
derrotados na vida se no estudassem.
O vendedor de idias vendia continuamente o sonho do 
encantamento. Como pode algum que no tem nada 
exteriormente cativar tanto? Como pode um homem sem 
teoria pedaggica bombear nossa imaginao? Andar com ele 
era um convite  inovao. Navegvamos sem destino traado. 
Ele via por ngulos distintos situaes ordinrias. No 
sabamos qual seria a resposta. Mas, no fundo, ele sabia muito 
bem o que queria e aonde queria chegar. Estava nos treinando 
a encontrar uma liberdade inimaginvel. Cada dia era um 
canteiro de surpresas, umas agradabilssimas, outras 
causticantes.
Na manh seguinte, depois de um perodo de mitigao 
silenciosa das suas preocupaes, o mestre se levantou, 
aspirou algumas vezes longamente o ar poludo do viaduto e 
agradeceu a Deus de um modo inusitado.
 Deus, voc caminha nas reentrncias do tempo, est 
infinitamente distante e infinitamente prximo, mas sei que 
seus olhos me espreitam. Permita-me captar seus sentimentos. 
Obrigado por mais um show nessa surpreendente existncia.
Boca de Mel, que era vidrado em shows country, disse:
 Que show ns iremos ver, chefinho?  E expressou um 
entusiasmo matutino que raramente vivenciava.
O vendedor de sonhos reagiu, deslumbrado:
 Show? Cada dia  um show, cada dia um espetculo. 
S no o descobre quem est mortalmente ferido pelo tdio. O 
drama e a comdia esto em nosso crebro. Basta despert-los.
Bartolomeu precisava estar alcoolizado para libertar-se da 
sua angstia, para esvaziar-se do seu tdio. Agora tanto ele 
como eu e Dimas estvamos descobrindo um outro mundo, um 
outro palco. O mestre saiu, e comeamos a seguir seus passos. 
Subimos uma ladeira. Andamos trs quadras, viramos  direita, 
depois quatro quadras  esquerda. Entreolhvamo-nos, 
indagando uns aos outros, querendo descobrir para onde ele 
estaria indo.
Depois de quarenta minutos de caminhada, Dimas, que 
ainda no havia ficado atnito o suficiente com as palavras do 
mestre, perguntou:
 Para onde vamos?
O mestre interrompeu os passos, fitou seus olhos e lhe 
disse:
 Os que vendem sonhos so como o vento: voc ouve a 
sua voz, mas no sabe de onde ele vem e nem para onde vai. O 
importante no  o mapa, mas a caminhada.
Dimas no entendeu quase nada, mas ficou pensativo, e 
comeou a exercitar a mente enferrujada. E continuamos a 
caminhar. Quinze minutos depois, o mestre parou diante de 
uma aglomerao e foi em sua direo. Reduzimos os passos, e 
ele avanou uns seis metros  nossa frente. Dimas olhou para 
mim e disse, apreensivo:
 Esse lugar  uma fria. No d. Reagindo, confirmei:
 Concordo. Acho que o mestre no sabe onde est 
entrando.
Era um velrio. O nico lugar onde desconhecidos no 
tm clima nem desejo de entrar. Mas o irreverente Boquinha 
de Mel, procurando manter a pose, me provocou, dizendo:
 Superego, desce do cu. Vamos pr velrio.
Tive vontade de lhe dar um sopapo. No sei se ele o 
bajulava ou se o seguia de corao. Mas como estvamos 
prximos do velrio, um lugar de respeito, contive a ira. O 
ambiente estava saturado de dor. Havia uma multido velando 
um homem morto por um cncer de rapidssima evoluo e 
que deixara um nico filho de doze anos.
O espao onde se velavam os mortos era pomposo, 
construdo com vrios arcos arredondados revestidos de 
mrmore em arabescos e iluminado por lustres com dzias de 
lmpadas. Era um lugar fisicamente belo para conter tanta 
tristeza. O medo de um escndalo num lugar que primava pelo 
silncio desacelerou ainda mais nossos passos. Distanciamo-
nos do mestre. Estvamos a doze metros dele. Olhando para 
trs, ele percebeu nossa ansiedade, e aproximando-se dos seus 
tmidos discpulos indagou:
 Qual  o espao mais sbrio do grande manicmio 
social? Sero os fruns? Ou as redaes dos jornais? Ou a 
tribuna dos polticos? As universidades?
Tentei tapar a bocarra do Boca de Mel, mas no deu 
tempo. Ele disse:
 Os botecos, chefinho.  Mas corrigiu em seguida:  
Brincadeira.
Como no sabamos a resposta, o homem que seguamos 
afirmou:
 So os velrios. So eles os espaos mais lcidos da 
sociedade. Neles nos desarmamos, nos despimos das vaidades, 
retiramos a maquiagem. Nesse espao, somos o que somos. Se 
assim no for, seremos mais doentes do que imaginamos. Para 
uma minoria, composta dos ntimos, o velrio  uma fonte de 
desespero. Para uma maioria, composta dos mais distantes, 
uma fonte de reflexo. Para ambos, a verdade  crua: 
tombamos no silncio de um tmulo no como doutores, 
intelectuais, lderes polticos, celebridades, mas como frgeis 
mortais.
Essas palavras me fizeram ver que era nos velrios que 
deixvamos de ser deuses e entrvamos em contato com nossa 
humanidade, deparvamos com nossas loucuras e 
enxergvamos nosso anti-herosmo. Nos velrios, ns, os 
normais, fazamos intuitivamente uma socioterapia.
Uns diziam: Coitado! Morreu to novo!. Esses se 
projetavam no falecido e comeavam a ter um pouco de 
compaixo de si mesmos, e sentiam que deviam viver a vida 
com mais suavidade. Outros falavam: A vida  uma fonte de 
riscos. Basta estar vivo para morrer. Esses viam a urgncia de 
relaxar, diminuir o ritmo. Outros ainda comentavam: Lutou 
tanto e, quando ia desfrutar das suas conquistas, morreu!. 
Esses descobriam que a vida passa como a sombra, que em vo 
se inquietavam e conquistavam fortunas, mas outros, que nem 
sempre as mereciam,  que se deleitavam nelas. Precisavam 
mudar seu insano estilo de vida.
Os participantes dos velrios tentavam desesperadamente 
comprar sonhos, mas o rolo compressor do sistema os furtava 
em poucas horas ou dias. Tudo voltava ao normal. No 
entendiam que os sonhos s poderiam ter durabilidade e 
penetrabilidade se fossem tecidos como linho fino nos lugares 
secretos do intelecto. Eu, em particular, sempre me fixara na 
argila do continusmo. A misria dos outros era um filme, uma 
fico que insistia em criar razes em minha psique, mas esta 
no passava de um solo impermevel.
Aps falar sobre o espao sbrio dos velrios, ele 
acrescentou:
 No esperem contemplar flores onde as sementes no 
morreram. No se inquietem, vamos.  E sorriu.
Para ele, essas palavras foram satisfatrias; para ns, 
diminuram apenas dez graus na fervura da ansiedade em que 
nos encontrvamos. A morte  perturbadora, mas a vida 
tambm o . A primeira extingue o flego humano, a segunda 
pode asfixi-lo. O que ele poderia falar num ambiente em que 
mortos e vivos silenciam a voz? O que poderia discorrer num 
terreno em que todos os discursos esfacelam seu impacto? O 
que poderia dizer num momento em que as pessoas no esto 
inclinadas a ouvir, apenas a beber o clice da angstia diante 
da perda? Que palavras as aliviariam? Ainda mais vindas de 
um estranho.
Sabamos que o mestre no se comportaria como mais um 
nmero no meio da multido. Esse era o problema. Sabamos 
que no se calaria. E esse era um problema maior ainda.

Uma solene homenagem
Eu passei esse drama quando perdi minha me. Os 
psames no me aliviavam, nem, muito menos, os conselhos 
pr-fabricados. Todas as palavras de conforto apenas faziam 
ranhura nas barras de ao que me encarceravam. Teria 
preferido o silncio dos abraos ou apenas algumas lgrimas 
que chorassem comigo.
O mestre foi pedindo espao para a multido. Ns 
seguamos seus passos.  medida que nos aproximvamos do 
caixo, as pessoas pareciam sofrer mais. At que vimos um 
homem jovem, de cerca de quarenta anos, cabelos pretos mas 
ralos, face emagrecida e sofrida, inerte no caixo.
A esposa estava inconsolvel. Os parentes e amigos 
prximos estavam todos enxugando as prprias lgrimas. O 
filho estava desesperado. Eu me vi nele, senti mais do que 
meus companheiros a sua dor. Ele mal comeara a vida, e 
comeara perdendo muito. Eu mal entendia a vida e meu pai 
encerrava a dele, e minha me, posteriormente, fechara os 
olhos. Jantava com a solido e dormia em meu mundo 
fechado, repleto de dvidas que nunca foram respondidas. 
Deus no se importava comigo, pensava. Tive mgoas dele na 
adolescncia. Por fim, na vida adulta, ele se tornou uma 
miragem, e tornei-me ateu. Devia estar brincando, mas me 
tornara um especialista em idias pessimistas. Percebendo o 
vcuo na histria desse jovem, no pude conter as lgrimas.
O mestre, ao ver o desespero do garoto, deu-lhe um 
abrao e perguntou o nome dele e de seu pai. Ento, para 
nosso espanto, olhou para os presentes e, com sua voz grave, 
proferiu algumas palavras que lhes tirou o cho. Palavras que 
poderiam precipitar um tumulto.
 Por que vocs esto desesperados? O senhor Marco 
Aurlio no est morto.
Imediatamente eu, Bartolomeu e Dimas procuramos ficar 
um pouco mais distantes. Era recomendvel no sermos 
reconhecidos como seus discpulos. As pessoas tiveram 
reaes distintas diante da sua atitude ousada. Umas saram 
das lgrimas para o deboche, se bem que contido. Deram 
risadas disfaradas do maluco. Outras estavam imersas num 
clima de curiosidade. Pensavam tratar-se de um excntrico 
lder espiritual, convidado para celebrar o funeral. Outros 
tiveram vontade de expuls-lo da cena com elevada dose de 
raiva pela invaso de privacidade, pelo desrespeito aos 
sentimentos alheios. Dentre esses, alguns o pegaram pelos 
braos para tentar sufocar rapidamente o escndalo.
Mas o mestre no se perturbou. Comeou a indagar com 
voz alta e firme:
 No lhes peo que silenciem sua dor, mas que 
silenciem o desespero. No espero que estanquem suas 
lgrimas, mas estanquem os altos nveis de angstia. A 
saudade nunca  resolvida, mas o desespero deve ser 
aquietado, pois no honra quem partiu.
As pessoas soltaram seus braos e comearam a perceber 
que o homem de vestes estranhas e barba proeminente podia 
ser excntrico, mas era inteligente. O filho do morto, Antnio, 
e a esposa, Sofia, fixaram-se nele.
Em seguida, com ar de serenidade difcil de definir, 
adicionou:
 Marco Aurlio viveu momentos incrveis, chorou, 
amou, se encantou, perdeu, conquistou. Vocs esto aqui 
tristes com sua ausncia, mergulhados num sentimento de 
vcuo existencial, porque o esto deixando morrer no nico 
lugar em que ele tem de continuar vivo. Dentro de vocs.
Vendo as pessoas mais interiorizadas, usou novamente 
seu penetrante mtodo socrtico:
 Que cicatrizes Marco Aurlio deixou em suas emoes? 
Onde ele influenciou seus caminhos? Que reaes marcaram 
sua maneira de ver a vida? Que palavras e gestos perfumaram 
seu intelecto? Onde este homem silencioso ainda grita nos 
recnditos de suas histrias?
Aps proferir essas perguntas seqencialmente, o 
vendedor de idias deu um choque de lucidez em todos os que 
ouviam sua voz, inclusive em ns, que o seguamos. Mais uma 
vez ficamos envergonhados pela nossa falta de sabedoria e 
sensibilidade. Ele refez a pergunta inicial que abalara os 
ouvintes:
 Este homem est vivo ou morto dentro de vocs?
As pessoas disseram que estava vivo. Imediatamente ele 
fez um comentrio que tirou as pessoas do desespero e 
abrandou os nimos:
 Pouco antes de Jesus ser morto, uma mulher, de nome 
Maria, amando-o, derramou sobre ele o mais caro dos 
perfumes. Era tudo o que ela tinha. Ao ungi-lo com seu 
perfume, ela queria elogi-lo por tudo o que ele fez e viveu, e 
ele ficou to emocionado que a elogiou por seu gesto 
magnnimo, enquanto os discpulos a repreendiam porque 
desperdiara um perfume valiosssimo, que poderia ter outras 
finalidades. Censurando os discpulos, ele lhes disse que os 
estava preparando para sua morte, e que onde a sua mensagem 
fosse propagada o gesto dela seria contado como um memorial 
eterno.
As pessoas estavam concentradas nas suas palavras. Os 
que no ouviam direito tentavam se espremer junto aos que 
estavam mais prximos. A seguir, ele arrematou:
 O Mestre dos Mestres quis demonstrar que o velrio 
pode ser um ambiente de lgrimas, mas deve ser acima de 
tudo um ambiente saturado de elogios e recordaes solenes. 
O luto deve ser um ambiente perfumado, uma homenagem 
para quem partiu. Um ambiente para contar seus gestos, 
declarar suas reaes, comentar suas palavras. A maioria dos 
seres humanos tem algo para ser declarado. Por favor, contem-
me os feitos desse homem! Declarem o significado dele na vida 
de vocs. Seu silncio deve alar vo de nossa voz.
Num primeiro momento, as pessoas olharam umas para as 
outras, sem reao. Num segundo momento, foi incrvel o que 
sucedeu. Muitos comearam a contar passagens nicas que 
tinham vivido com ele. Falaram do legado que ele deixara. 
Alguns comentaram sobre sua gentileza. Outros declararam 
sua afetividade. Outros discorreram sobre sua bondade e 
companheirismo. Outros apontaram sua lealdade. Outros 
elogiaram sua capacidade de lidar com fracassos. Outros, mais 
relaxados, falaram sobre seus maneirismos. Houve quem 
dissesse que era apaixonado pela natureza. Um amigo disse:
 Jamais vi algum to teimoso e obstinado.  As 
pessoas sorriram num ambiente em que ningum sorri, 
inclusive Antnio e a esposa, pois sabiam que ele era 
realmente um grande teimoso. E o amigo acrescentou:  Mas 
ele me ensinou que nunca devemos desistir daquilo que 
amamos.
Foram incrveis vinte minutos de homenagens. As 
pessoas no sabiam descrever a fascinante experincia 
emocional que haviam tido. Marco Aurlio estava vivo, pelo 
menos dentro das pessoas que o velavam. Nesse momento, o 
mestre olhou para ns, seus discpulos, e brincou, ou nos disse 
uma verdade, no sei. Comentou:
 Quando eu morrer, no se desesperem. Homenageiem-
me. Falem dos meus sonhos, falem das minhas loucuras.
Algumas pessoas deram risada do estranho e divertido 
homem que as arrebatara do vale do desespero e as introduzira 
no topo da serenidade. Por incrvel que parea, at o jovem 
Antnio sorriu. Em seguida, nesse ambiente perfumado pela 
homenagem pstuma, o mestre vendeu mais esse sonho para o 
jovem que perdera o pai. Foi um fenmeno sociolgico que eu 
jamais imaginei estar vivo para ver.
 Antnio, veja como seu pai foi um ser humano 
brilhante, apesar dos defeitos dele. No refreie as lgrimas; 
chore tantas vezes quantas desejar, mas no lamente 
desesperadamente sua perda. Ao contrrio, honre-o vivendo 
com maturidade. Honre-o enfrentando seus temores. Elogie-o 
sendo generoso, criativo, afetivo, sincero. Viva com sabedoria. 
Creio que, se seu pai pudesse usar minha voz neste momento 
para lhe falar algo, ele daria gritos para encoraj-lo a viver: 
Filho, v em frente! No tenha medo do caminho, tenha medo 
de no caminhar!
Antnio ficou profundamente aliviado. Era tudo o que ele 
precisava ouvir. Ainda choraria muito, a saudade lhe bateria 
no peito sem d, mas saberia colocar vrgulas na sua histria 
ao encontrar a solido, ao se deparar com a angstia. Sua vida 
ganharia outros contornos.
O vendedor de sonhos preparava-se para sair, mas antes 
deixou a platia perplexa com seus questionamentos finais, os 
mesmos questionamentos que me haviam abalado no topo do 
Edifcio San Pablo:
 Somos tomos vivos que se desintegram para nunca 
mais voltarem a ser o que eram? O que  a existncia ou 
inexistncia? Que mortal o sabe? Quem dissecou as entranhas 
da morte para expor sua essncia? A morte  o fim ou o 
comeo?
Extasiadas, as pessoas se encostavam em mim e 
perguntavam: Quem  o cara? De onde procede o sujeito?. O 
que eu poderia responder? Tambm no sabia. Aproximaram-
se do Bartolomeu e infelizmente fizeram a mesma indagao. 
Boquinha de Mel gostava de tecer teses sobre o que no 
conhecia. Estufando o peito, respondeu:
 Quem  meu chefinho? Ele  de outro mundo. E, se 
precisar de alguma coisa, sou assessor dele para assuntos 
internacionais.
Dimas, o mais novo da turma, que estava atordoado com 
tudo que ouvira, respondeu com honestidade:
 No sei quem ele . S sei que se veste como um 
miservel, mas parece ser muito rico, ter muita grana.
Sofia, me de Antnio, profundamente agradecida, assim 
como eu, explodia de curiosidade. Ao v-lo virar as costas para 
partir sem mais nada dizer, perguntou:
 Quem  o senhor? De que religio procede? Que 
corrente de pensamento o alimenta?
Ele olhou para ela e calmamente respondeu:
 Eu no sou religioso, no sou telogo, no sou filsofo. 
Sou um caminhante que procura entender quem . Sou um 
caminhante que outrora colocou Deus debaixo da planta dos 
ps, mas depois de atravessar um grande deserto descobriu 
que Ele  o arteso da existncia.
Ao ouvi-lo, mais uma vez fiquei reflexivo. No sabia que o 
mestre fora ateu como eu. Mas algo fizera mudar sua mente. 
Sua relao com Deus me perturbava; no era religiosa, 
formalista, coitadista, mas carregada de uma amizade 
incompreensvel. Quem  ele, ento? Que deserto atravessara? 
Teria ele chorado mais do que todas as pessoas desse velrio? 
Onde vivera, onde nascera? Antes que borbulhassem mais 
perguntas no cerne da minha mente, ele foi saindo. Sofia 
estendeu-lhe as duas mos e declarou seu agradecimento sem 
dizer palavras. Antnio no se conteve. Deu-lhe um abrao 
prolongado que comoveu a todos.
E perguntou:
 Onde posso encontr-lo novamente? Onde voc mora?
Ele respondeu:
 Minha casa  o mundo. Voc poder me encontrar em 
alguma avenida da existncia.
E saiu, deixando todos boquiabertos. Eu e meus dois 
amigos estvamos sem fala com suas reaes. Ele nos cativou 
muitssimo e aquietou, pelo menos momentaneamente, nossas 
inseguranas. Comevamos a acreditar que valia a pena segui-
lo, sem saber das tempestades que ainda nos sobreviriam.
Passamos lentamente pela multido. As pessoas queriam 
conhec-lo, falar com ele, abrir alguns captulos da vida delas, 
mas ele passava por elas como um passante comum. No 
amava o assdio. Ns comevamos a nos sentir importantes. 
Dimas e Bartolomeu, que sempre haviam vivido  margem da 
sociedade, comearam a inflar o prprio ego, atingidos por um 
vrus que eu conhecia muito bem.

Um milagreiro que amava seu ego
O dia pareceria perfeito se no fosse mais uma surpresa 
que nos abarcaria. O velrio central era grande. Havia vrias 
salas enormes, separadas uma das outras para que as pessoas 
pudessem velar com privacidade vrios mortos ao mesmo 
tempo. Quando samos da sala do velrio do senhor Marco 
Aurlio, passamos por outro velrio, o de uma senhora de 
setenta e cinco anos.
O mestre, em vez de continuar se retirando, se fixou em 
uma pessoa desconhecida que acabara de passar por ele. Era 
um jovem de uns trinta anos, cabelo enrolado, curto, palet 
azul-marinho, cala da mesma cor, camisa branca. O sujeito 
era bem-apessoado, impostado, imponente. O vendedor de 
idias seguiu sutilmente seus passos.
O jovem aproximou-se do caixo da senhora com 
segurana. Era um pregador. Parecia bem sbrio, pelo menos 
aos meus olhos, embora no o parecesse aos olhos do vendedor 
de sonhos. O jovem se posicionou aos ps da falecida e fez um 
gesto de reverncia. E pouco a pouco revelou sua face. 
Ficamos impressionados com suas reais intenes.
Seu nome era Edson, e seu apelido era o Milagreiro. O 
apelido de Edson se justificava porque ele tinha uma atrao 
fatal por fazer milagres. Queria ajudar os outros, mas sempre 
existia uma inteno subjacente: amava se autopromover. 
Edson no era o lder espiritual oficial encarregado de proferir 
palavras de consolo no funeral. Estava l por interesse prprio.
Por incrvel que parea, o Milagreiro desejava ressuscitar 
a velhota. Queria dar um deslumbrante espetculo capaz de 
fazer as pessoas se dobrarem aos seus ps; ambicionava 
despertar a senhora da morte para ser reconhecido como 
portador de um dom sobrenatural. Assim como o imperador 
Calgula queria ser reconhecido como deus e usou seu poder 
para isso, Edson usava textos bblicos e o poder que acreditava 
ter para ser reconhecido como um semideus, embora nunca 
admitisse isso.
Como socilogo, eu j havia estudado que nenhum poder 
 to penetrante como o poder religioso. Ditadores, polticos, 
intelectuais, psiquiatras e psiclogos no conseguem penetrar 
nos espaos psquicos dos outros como determinados lderes 
espirituais. Por representarem a divindade, esses homens 
podem conquistar no inconsciente coletivo da sua comunidade 
um status jamais atingido por Napoleo, Hitler, Kennedy, 
Freud, Karl Marx, Max Weber, Einstein.
Ao longo da caminhada, o mestre nos alertava que os 
lderes espirituais que representavam um Deus altrusta, 
solidrio, generoso, contribuam para o bem da humanidade, 
mas os que representavam um deus centralizador, controlador, 
castrador, enfim, um deus criado  imagem e semelhana 
deles, causavam desastres, destruam a liberdade e 
controlavam as pessoas. O mestre sempre nos alertava dizendo 
que, devido  fertilidade do nosso imaginrio,  muito fcil 
construir um deus em nosso psiquismo, um deus manipulador. 
Parece que queria nos vacinar, nos humanizar.
O sujeito que encontramos no velrio tinha uma mistura 
de intenes. Em determinados momentos, queria contribuir 
para o bem das pessoas, era sincero e afetivo. Em outros, tinha 
rompantes de soberba. Desejava ser entronizado em glria 
imarcescvel, como um deus.
Nosso Milagreiro de planto era ambicioso, mas no era 
tolo. Queria dar um espetculo, mas no um escndalo. Queria 
ressuscitar a velhota, mas se preservava para no dar vexame. 
Muitos pensamentos turvavam sua mente: Vai que a velha 
no ressuscita? Vai que lhe peo para se levantar e ela 
continua esticada. Minha reputao vai para o ralo.
O mestre o focalizava como se fosse um leopardo 
espreitando as cenas da paisagem. Sabamos que ele tinha 
prazer em lidar com pessoas complicadssimas, mas no 
entendamos suas reais intenes nesse cenrio. Pouco a 
pouco, vislumbramos o show que o Milagreiro esperto queria 
dar.
Aps um momento de reverncia, o Milagreiro chegou 
para a defunta e disse-lhe num tom quase inaudvel:
 Ressuscita!  O motivo de falar baixinho era para se 
garantir da possvel falha da sua f.
A velhota no deu sinal de vida. Insistente, ele disse em 
voz baixa novamente:
 Ressuscita!  Se a senhora manifestasse algum 
movimento, Edson elevaria o tom de voz, declarando que era o 
autor do feito extraordinrio. Seria seu dia de glria. Inmeras 
pessoas famintas de atos sobre-humanos o seguiriam.
Mas nada. A falecida permanecia inerte. Eu, Bartolomeu e 
Dimas, que no ramos flores que se cheirassem, ficamos 
indignados com a artimanha do Milagreiro. Que sujeito 
petulante!, pensamos.
E o sujeito no desistia. Estufou os pulmes e, com uma 
voz mais impostada, mas falando entre dentes para ningum 
entender muito bem o que dizia, declarou:
 Ressuscita, mulher, eu te ordeno!
Nesse meio tempo, o improvvel aconteceu. A mulher se 
mexeu, mas por outros motivos. Apareceu um senhor curtido 
no lcool, como Bartolomeu no dia em que o encontrei. O 
Milagreiro, concentrado em seu ego e nos movimentos da 
senhora, no percebeu a aproximao desse sobrinho.
Tranando as pernas, o velho chegou at a cabeceira do 
caixo, do lado oposto do Milagreiro. No conseguindo 
controlar seus movimentos, deu um esbarro no caixo. 
Abalou-o e fez tremular vigorosamente o corpo da senhora, 
fazendo com que suas mos, sobrepostas suavemente uma na 
outra, sassem dessa posio.
A emoo do Milagreiro foi para as nuvens. Sentiu que era 
seu grande dia. Excitadssimo, dominado por um xtase 
incontrolvel, pensou que finalmente seus poderes 
sobrenaturais tinham funcionado. Para que todos soubessem 
que ele era o autor da faanha, imediatamente alou a voz e, 
altissonante, proferiu estas palavras para toda a platia:
 Ressuscita, mulher! Eu te ordeno!
Dessa vez, todos ouviram, e ficaram assustados com seus 
brados. Da senhora, ele esperava que ficasse sentada no 
caixo, e da multido, esperava reverncia pelo seu tremendo 
poder. Mas a velhota no deu mais sinais de vida.
Abalado, achou que faltava um pouco mais de f para 
fazer o caixo tremer. Dessa vez, deu a ordem ao corpo, mas 
olhando subliminarmente a multido:
 Levanta, mulher!  suplicou ao corpo, que no 
respondia ao seu notrio apelo.
 medida que a mulher permanecia inerte, suas pernas 
foram bambeando, e ele comeou a suar frio, a ficar com a 
boca seca e a ter taquicardia. Atordoado, viu o bbado 
tentando se equilibrar apoiando-se no caixo. Percebeu que 
cometera a maior gafe da sua vida. Sentiu-se uma frgil presa 
diante de predadores. Mas o sujeito era espertssimo. Num 
malabarismo surpreendente, fez mais do que um milagre. 
Levantou novamente a voz e disse com firmeza:
 Mulher! Se no queres levantar para viver neste mundo 
mau, descansa em paz!
Muitos normais disseram em coro:
 Amm!
Aps suas ltimas palavras, o Milagreiro pegou um leno 
e comeou a chorar e a dizer:
 Coitada! Era uma mulher to boa!

Um discpulo ora l de complicado
Tudo indicava que esse era apenas um dos eventos em 
que o Milagreiro usava sua espiritualidade para se aproveitar 
da ingenuidade das pessoas. Os normais tm uma forte 
tendncia de ouvir lderes sem question-los. C com meus 
botes, ao observar as reaes do Milagreiro, olhei para Dimas 
e pensei: Nem o Mo de Anjo seria to safado. Por sua vez, o 
Mo de Anjo, conhecendo um pouco minha natureza por meio 
do Bartolomeu, pensou: Nem este arrogante intelectual 
manipularia tanto os outros. Bartolomeu, mais honesto que 
ns dois, verbalizou:
 S com duas garrafas de vodca na cabea cheguei a ter 
tantas alucinaes como esse cara.
Logo que eu e meus amigos fizemos essa crtica ao 
Milagreiro, trememos nas pernas. Olhamos uns para os outros 
e tivemos o mesmo pensamento: Por que nosso mestre est 
observando esse sujeito? Ser que tem interesse em cham-lo 
para o time? Esse pensamento nos incomodou tanto que nos 
fez dizer simultaneamente estas palavras:
 Eu deserto!
Ficamos aflitos por um momento. Observamos os passos 
do mestre. Torcamos para ele lhe dar as costas, mas ele foi se 
aproximando do homem que cativara sua retina. Nosso corao 
palpitava. O Milagreiro encontrou o olhar do mestre e, para o 
bem geral do grupo, no falou nada, apenas meneou a cabea, 
desaprovando-o.
O vendedor de sonhos admitia erros e mais erros, mas 
nunca admitia o erro de controlar as pessoas. Para ele, a 
conscincia de uma pessoa era inviolvel. A liberdade de 
escolha no deveria sofrer um arranho. Sua maior crtica 
contra o sistema social era que ele vendia sorrateiramente 
uma liberdade inexistente, uma liberdade que estava nas 
pginas da democracia, mas no nas pginas da histria dos 
seres humanos. Havia muitos escravos algemados pelos seus 
pensamentos perturbadores e suas preocupaes.
Aps desaprov-lo silenciosamente, sem exp-lo 
publicamente, o mestre lhe fez duas afirmaes e lhe 
apresentou duas concluses chocantes:
 Milagres no convencem. Se convencessem, Judas no 
trairia Jesus. Milagres podem mudar o corpo, mas no mudam 
a psique. Se mudassem, Jesus impediria Pedro de neg-lo.
Edson ficou mudo. No sabia o que responder, pois nunca 
tinha pensado nisso. Ento veio uma concluso bombstica 
que me abalou como professor. O mestre lhe disse:
 O homem que voc diz seguir jamais usou seu poder 
para controlar as pessoas. O homem de Nazar jamais usou seu 
poder para seduzir platias e conquistar seguidores. Por isso, 
contrariando o marketing poltico, dizia aos que ajudava: no 
conte para ningum! Se no o seguissem pela loucura 
espontnea de um amor insondvel, no queria seguidores. 
Pois no queria servos, mas amigos.
Essas palavras me induziram a um passeio reflexivo pela 
histria. Lembrei-me de que os europeus, nos sculos 
passados, cometeram atrocidades em nome de Cristo: 
mataram, torturaram, guerrearam, dominaram, feriram, 
excluram. Jogaram no lixo a doura do homem que no 
controlava ningum, que no admitia servos. Foram sculos de 
lutas infernais, milhes de mortes, em nome de algum que 
inventaram. Foram sculos de rancor e inimizades contra 
mulumanos, uma animosidade cujas razes at hoje teima em 
se perpetuar. Ao andar com o mestre, eu comeara a 
desconfiar que no era um ateu convicto como imaginava. No 
fundo, eu tinha asco da religiosidade atroz.
O Milagreiro ficou impassvel; jamais algum o corrigira 
sem critic-lo. Aps esse breve dilogo, o mestre saiu de cena, 
deixando vrias pessoas emudecidas, sem saber direito o que 
acontecera. Ficamos por demais aliviados. At quando? No 
sabamos.
No dia seguinte, saiu uma matria sobre os ltimos fatos 
no jornal Informao Urgente, com a seguinte manchete: Um 
estranho transforma um velrio num jardim. Uma foto tirada 
s escondidas, quando saamos do velrio, estava estampada 
na primeira pgina de um dos cadernos. A reportagem no era 
caluniosa, continha fatos interessantes. Dizia que um homem 
desconhecido e audacioso queria mudar a dinmica dos 
velrios, queria transform-los de patrimnio histrico do 
desespero em patrimnio da homenagem.
O jornalista entrevistara pessoas que o tinham ouvido. 
Algumas disseram que iriam escrever urna carta aos seus 
familiares dizendo que, quando elas morressem, no fizessem 
um cortejo fnebre pautado pelo desespero, pela penria e 
pelo coitadismo, mas contassem seus feitos. Lembrassem seus 
atos de amor, suas palavras, seus gestos, seus sonhos, suas 
amizades, bem como sua estupidez. Queriam que, no meio da 
dor, uma aura de alegria pudesse pautar a mente dos que delas 
se despediam.
A matria comentava que o personagem era o mesmo que 
causara uma balbrdia nos arredores do Edifcio San Pablo. E 
terminava com duas perguntas: estamos diante um dos 
maiores ateus de que se tem notcia ou do portador de uma 
incompreensvel espiritualidade? Estamos diante de um 
profeta do mundo moderno ou de um maluco?
Na manh seguinte, logo que despertamos, vimos o 
mestre isolado, conversando consigo mesmo. Era a segunda 
vez que o vamos tendo um autodilogo. Fazia gestos como se 
estivesse tendo alucinaes ou como se questionasse suas 
prprias razes. Dez minutos depois ele se aproximou, 
relaxado; parecia que havia lavado sua psique do lixo que se 
acumulara no dia-a-dia.
O tempo estava fechado, ameaava cair chuva pesada. 
Relampeava muito. Dimas no tinha medo de policiais, no 
temia passar alguns dias na cadeia, mas tinha verdadeiro 
pavor de troves. Estvamos andando por uma larga avenida 
quando os troves abalaram a estrutura do nosso esperto 
amigo.
Tentando acalm-lo, eu lhe afirmava que quando ouvimos 
o ribombar dos troves o perigo j passara, o raio j se 
dissipara. Porm a mente  cheia de artimanhas; ele entendia 
minhas palavras, mas sua emoo ilgica no se abrandava. Eu 
no podia critic-lo, pois no era diferente dele. Sempre 
valorizei a lgica da cincia, mas nunca deixei de sofrer pelo 
que no existe, em especial pelo meu passado. Ele me 
perseguia.
A chuva no tardou a chegar. Rapidamente procuramos 
abrigo. Entramos num grande shopping. No saguo de entrada 
havia uma grande loja de departamentos. Enquanto 
entrvamos na loja, ouvimos um grande estrondo. Dimas 
entrou debaixo da primeira mesa que encontrou. Parecia um 
menino diante de um fantasma. Pensei comigo: O mestre est 
certo. No h heris Todo gigante encontra obstculos que o 
transformam em criana. Basta esperar.
O estrondo deveu-se  queda de um raio. O pra-raios do 
shopping no suportou a sobrecarga. Havia dois pintores 
mudando a pintura da loja. Ambos eram primos. Um deles, que 
tinha uma gagueira mais intensa que a de Dimas, pintava as 
paredes. Quando estava nervoso, bloqueava o aparelho fonador 
e no conseguia articular uma palavra. O outro estava no topo 
de uma escada de dois metros retocando as janelas de ferro 
alegremente.
O raio, ao cair abruptamente, correu pelas paredes e 
resvalou na janela, atingindo aquele que estava retocando 
pintura. O barulho foi ensurdecedor. O pintor caiu da escada e 
se contorcia de dor. Seu primo, aterrorizado, foi socorr-lo. 
Tentamos nos aproximar do local. Mas, antes que 
chegssemos, apareceu algum com ar de herosmo querendo 
socorr-lo. No sei de onde saiu aquele homem, mas parecia 
algum que conhecamos. Era o Milagreiro que havamos 
encontrado no velrio no dia anterior.
Edson viu o pintor deitado, gemendo de dor e com as 
mos no tornozelo direito. Viu que o p do pintor estava 
deformado. Concluiu imediatamente que fora a descarga 
eltrica. Sem perder tempo, disse para o outro pintor, que 
assistia o ferido:
 Deixe-o, eu cuido dele. Sou especialista nisso. Juntou-
se ao homem cado e tentou endireitar o p dele, mas no 
conseguiu. Sentou sobre a perna dele e passou a dar-lhe 
ordens, tentando exercitar seus dons sobrenaturais.
 Conserta! Endireita! Alinha os ossos!
Mas o tornozelo no endireitava. O pintor, agoniado, 
gemia mais. O Milagreiro fazia mais fora ainda. No era 
possvel deixar de resolver um caso to simples. No era 
possvel que seu moral com Deus estivesse to baixo, deve ter 
pensado. O pintor urrava de dor. A platia foi aumentando, e 
isso excitava o Milagreiro samaritano, estimulando-o a 
mostrar sua benevolncia sobrenatural.
Muitos dos que viam a valentia e os prstimos do 
Milagreiro pensavam que ele fosse um mdico que estava 
fazendo algum procedimento para aliviar as dores do pobre 
pintor. O primo gago emitia grunhidos incompreensveis, 
parecia querer dizer algo a Edson, mas este sentia que o 
desespero dele atrapalhava sua concentrao. Perdendo a 
pacincia, disse para o pintor que estava em p:
 Fique calmo! Eu endireitarei a perna deste homem!
E endireitou mesmo. Dois longos minutos depois, o 
milagreiro cumpriu sua misso. Limpando o suor da testa, 
disse para a platia:
 O tornozelo est bom novamente  embora a dor do 
pintor estivesse pior.
Este olhava para seu tornozelo e parecia mais 
desesperado. Pensvamos que ainda estava em estado de 
choque.
Quando a platia ensaiava as primeiras palmas a Edson 
pelo socorro  vtima, a lngua do pintor gago se soltou. 
Querendo dar uma bofetada no Milagreiro, ele bradou:
 Miservel! Cachorro! Aougueiro!
Ningum entendeu nada, nem meu mestre. Parecia que o 
pintor gago estava sendo ingrato. Em seguida, explicou, 
gaguejando:
 Meu primo  manquitola... Tem um defeito no 
tornozelo h trinta anos, mas nunca o corrigiu por medo da 
cirurgia. Agora vem esse desgraado e o conserta... e sem 
anestesia.
As pessoas ficaram condodas do pintor. Poucos segundos 
antes estavam animadas para aplaudir o Milagreiro, mas agora 
mudavam de nimo: tinham vontade de ench-lo de bolachas, 
desejavam executar a vontade do pintor gago, mas foram 
impedidas pelo mestre. Com uma pergunta memorvel, ele 
conteve a revolta da platia e resgatou o homem que amava o 
poder:
 Esperem! Por que vocs querem feri-lo? O que vale 
mais: o sentido literal da reao ou a inteno do agente?
Fisgadas em seus pensamentos, as pessoas diminuram a 
temperatura da emoo e comearam a se dispersar. 
Bartolomeu, um pouco constrangido, falou:
 Chefinho, explica o pensamento, please!
Nosso bbado recentemente regenerado e sujeito a 
recadas gostava de esnobar, proferindo algumas palavras em 
ingls.
Calmamente e na presena do Milagreiro, o mestre 
explicou-lhe:
 Os gestos exteriores de um ser humano podem ser 
condenveis, suas reaes literais podem ser criticadas, mas o 
que deve ser analisado em primeiro lugar so seus reais 
desejos.
Edson pela primeira vez fazia um milagre, e quase fora 
linchado. Condenvamos outra vez suas atitudes, olhvamos 
para a reao exterior. No vamos, como o mestre, nenhuma 
inteno altrusta em seus gestos. Queramos que ele estivesse 
a quilmetros de distncia de nosso projeto. Mas, sem dar 
tempo para que respirssemos, o mestre acabou fazendo o que 
mais temamos. Olhou para o Milagreiro e, com naturalidade, 
disse-lhe:
 Venha e siga-me, que lhe mostrarei milagres que 
desconhece, aqueles que talvez tenham alguma possibilidade 
de iluminar um pouco este asfixiante sistema social.
Quando ouvimos o seu chamado, eu e meus dois amigos 
nos abraamos. Alguns pensavam que estvamos emocionados, 
mas estvamos decepcionados. Ah, como  fcil contrair o 
vrus do preconceito! Tnhamos feito uma pequena panelinha. 
Aceitvamos no time malandros, bbados e pessoas 
estupidamente orgulhosas, mas discriminvamos religiosos, 
ainda mais milagreiros. Tivemos de assimilar a sua vontade 
com elevada dose de pacincia e tolerncia. O grupo ganhou 
um colorido que no queramos.
Edson ficou animadssimo com o chamado. No o 
compreendeu, mas entendeu que o homem que o chamara, 
embora extico, tinha alto poder de persuaso. Se aprendesse 
as tcnicas de sua oratria, poderia ir longe, pensou ele. No 
sabia em que barco estava entrando. No imaginava que 
passaria por um amargo processo de desintoxicao da 
compulso pelo poder. No fundo, era um viciado, tal como o 
Boquinha de Mel no lcool, eu em meu ego e o Mo de Anjo em 
malandrice. ramos todos drogados.

Um obsessivo no ninho
No defendamos uma seita, faco ou partido poltico. 
No fazamos parte de uma fundao nem constituamos uma 
organizao oficial. No tnhamos assistncia social, no 
sabamos onde dormiramos nem o que comeramos. 
Dependamos das ddivas espontneas das pessoas, e s vezes 
tomvamos banho em albergues coletivos. ramos um bando 
de sonhadores que queriam mudar o mundo, pelo menos o 
nosso mundo. Todavia, no tnhamos nenhuma garantia se 
mudaramos alguma coisa ou se causaramos mais confuso. 
Mas eu estava comeando a achar a vida adorvel, uma 
experincia sociolgica agradvel, embora saturada de 
incgnitas.
Algumas pessoas comeavam a reconhecer o mestre por 
meio do noticirio da mdia. Elas interrompiam sua caminhada 
e sentiam necessidade de contar-lhe seus problemas. Ele as 
ouvia com prazer. Depois de minutos ou horas escutando-as, 
encorajava-as e animava-as a fazer escolhas, e entender que 
toda escolha traz frustraes e no apenas ganhos.
Aos poucos, foi acrescentando mais discpulos. Cada 
personagem era mais interessante que o outro. As andorinhas 
estavam aprendendo a bailar num sistema que queria tosar 
suas asas. Mas aprendamos a no fazer grandes planos para o 
futuro. O futuro no nos pertencia. A vida era uma festa, 
embora o vinho sempre acabasse.
Aprendamos a beijar pessoas idosas e sentir as marcas do 
tempo. Aprendamos a prestar ateno nas crianas e nos 
deliciar com sua ingenuidade. Aprendamos a conversar com 
mendigos e percorrer seus incrveis mundos. Padres, freiras, 
pastores, islamitas, budistas, suicidas, depressivos, fbicos, 
havia tantas pessoas belas e interessantes ao nosso redor, mas 
elas estavam apenas nas estatsticas sociolgicas.
Uma sensibilidade que nunca fora trabalhada em minha 
personalidade comeava a me invadir, embora meu egosmo 
dormitasse, mas no estivesse morto. Lembrei-me dos filmes 
de ao a que assistira. Neles sempre morriam inmeros 
annimos, mseros figurantes, pelas armas dos policiais, sem 
que nos dssemos conta de que cada annimo na vida real 
possui um mundo indecifrvel, com temores e amores, 
ousadias e covardias. Para o mestre, no havia figurantes na 
sociedade real. Ele exaltava os miserveis, chamava-os para 
serem seus amigos ntimos. Os que viviam  margem do 
sistema ganharam notoriedade.
Quando pensava que minha sensibilidade estava em alta, 
um figurante passou por minha vida e me fez ver que ela era 
ainda incipiente, precisava de muito combustvel. Estvamos 
na Avenida Presidente Kennedy e de repente vimos um jovem 
de pouco mais de vinte anos, um metro e oitenta de altura, 
cabelo crespo, pele escura. Seu nome era Salomo Salles. 
Tinha gestos estranhos, capaz de cativar a ateno at das 
crianas. Mexia o pescoo agitadamente, flexionando os 
msculos trapzios para o lado esquerdo e para o alto. Piscava 
o olho vrias vezes. Antes de entrar por uma porta, dava trs 
pulos, pois se no o fizesse acreditava que algum da sua 
famlia morreria. Era portador de um grave TOC (transtorno 
obsessivo-compulsivo).
Alm de todos esses bizarros rituais compulsivos, o mais 
engraado e mais estranho  que Salomo no podia ver um 
buraco, uma salincia, fosse nas paredes, muros, solo, mveis, 
que tinha o desejo de enfiar neles o dedo indicador direito. No 
exato momento em que o observamos, estava agachado, 
colocando o dedo em vrios pequenos orifcios da calada.
Os passantes debochavam dele. Sinceramente, no nos 
contivemos tambm. Tentvamos disfarar nossas risadas. 
Pensvamos ter encontrado algum com mais transtorno que 
todos ns. Mas o mestre no gostou da nossa reao. Virando a 
face, ele nos questionou:
 Esse jovem  mais frgil ou mais forte que ns? Qual o 
preo que paga por expressar seus rituais em pblico?  um 
fraco ou  dotado de notvel coragem? No sei quanto a vocs, 
mas sem dvida ele  mais forte que eu.
Calamo-nos, mas ele continuou:
 Quantas vezes vocs acham que esse jovem se sentiu 
no centro de um circo que no construiu, como agora? 
Quantas noites de insnia no teve, pensando nas gargalhadas 
dos andantes? Em quantas situaes no foi aprisionado nos 
currais inumanos do preconceito?  E para nos fazer sentir 
ainda mais o odor ftido da nossa discriminao, concluiu:  
A crtica fere uma pessoa, o preconceito anula-a.
Sempre que analisava a psique dos outros, tirava nossa 
roupa, deixava-nos nus. Descobri que mesmo pessoas como 
eu, que sempre defenderam os direitos humanos, so 
grosseiramente preconceituosas em algumas reas, ainda que 
essa barbrie se manifeste sutilmente, num sorriso disfarado 
ou numa silenciosa reao de indiferena. Somos piores que os 
vampiros. Matamos sem extrair o sangue.
 Se quiserem vender o sonho da solidariedade, tero de 
aprender a enxergar as lgrimas nunca choradas, as angstias 
nunca verbalizadas, os temores que nunca contraram os 
msculos da face. Os que no desenvolvem tal caracterstica 
tero traos de psicopatia ainda que vivam em ambientes 
insuspeitos, como os templos das universidades, ou os templos 
empresariais, polticos e religiosos. Pressionaro, feriro, 
constrangero, sem sentir a dor dos outros. Vocs fazem parte 
dessa estirpe?  nos indagou.
Tentei puxar o ar profundamente para ver se oxigenava 
meu intelecto. Teria eu traos de psicopatia? Os psicopatas 
clssicos so facilmente perceptveis, mas os que tm traos 
sutis de psicopatia podem disfarar sua insensibilidade at por 
trs de seus ttulos acadmicos, sua tica ou sua 
espiritualidade. Eu disfarava.
Nunca procurei meu filho e lhe perguntei quais eram seus 
temores ou suas mais marcantes frustraes. Impus regras 
para Joo Marcos, lhe apontei erros, mas jamais vendi sonhos 
de que sou um ser humano que precisa conhec-lo e precisa 
ser amado por ele. Nunca procurei um aluno que expressasse 
um ar de tristeza, irritabilidade ou indiferena. Jamais dei o 
ombro para um professor desabafar. Para mim, os professores 
eram tcnicos e no pessoas. Eles tiravam licena mdica, e eu 
nunca os procurava. Meu dbil estilo de vida se voltou contra 
mim como um bumerangue.
Quando eu pensava em desistir da vida, meu clice 
emocional tambm se tornou invisvel para meus colegas e 
alunos. Um intelectual como eu no podia declarar sua dor. 
Para eles, depresso era coisa de gente frgil. Ningum 
enxergou a minha angstia desenhada clandestinamente no 
quadro de pintura do meu rosto. Estariam eles cegos ou era eu 
que no sabia demonstrar sentimentos? No sei.
Como o mestre sempre nos alertou, ningum  cem por 
cento vilo nem cem por cento vtima. Eu era insensvel e 
estava rodeado de pessoas com baixo nvel de sensibilidade. 
No precisava de aplausos, louvor acadmico, congratulaes, 
precisava apenas de um ombro onde chorar, apenas sentir o 
cheiro de gente ao meu lado que me dissesse: Estou aqui. 
Conte comigo.
Quando o mestre nos levou a enxergar a coragem e 
grandeza do jovem com TOC, ele nos fez um desafio.
 Vo vender sonhos para aquele jovem?  disse isso e 
se calou, esperando nossa reao.
Ficamos emudecidos. Depois de eternos segundos com 
um n na garganta, sentamos que estvamos perdidos. Era 
uma reao estranha para um bando de pessoas supostamente 
experientes. No sabamos o que dizer. No sabamos o que ele 
pensaria de ns. Havia alguns minutos ns o taxramos de 
maluco, agora tnhamos medo de ser taxados de malucos por 
ele. No  isso insanidade? Balanamos nos extremos com 
incrvel freqncia.
O mestre continuou calado. Seu silncio nos 
desassossegava. Sabamos debochar da desgraa dos outros, 
mas no alivi-la. ramos criativos em excluir, mas inbeis em 
incluir. Se algum pedisse para o Milagreiro fazer uma longa e 
bombstica orao para o jovem, seria uma tarefa fcil, mas 
pedir para lhe vender sonhos o deixara sem ao. Se 
Bartolomeu estivesse alcoolizado e lhe pedissem para fazer 
amizade com o estranho, seria tranqilo, mas sbrio era 
complicado. Se algum pedisse para o Mo de Anjo bater sua 
carteira e depois devolv-la para causar-lhe admirao, no 
haveria nenhuma dificuldade, mas cativ-lo com suas palavras 
era uma tarefa quase impossvel.
Se me pedissem para dar uma aula a ele para mostrar 
minha cultura, eu no teria grande trabalho, mas conquistar 
um estranho, que  meu semelhante, sem usar o poder da 
informao, era-me uma tarefa dantesca. Eu sabia falar para 
grandes platias, mas no sabia encantar um ser humano com 
o que sou. Fora treinado para falar de Kant, Hegel, Auguste 
Comte, Marx, mas no sobre mim. O sistema havia 
achincalhado nossa humanidade. E eu o alimentara.
Como no havia manual sobre a melhor maneira de 
vender sonhos para um obsessivo e como o mestre se recusou 
a dar orientaes, l fomos ns, inibidos. Eu, o mais culto da 
equipe, era o mais engessado. O Boquinha de Mel, mais 
surrado pela vida, agachou-se tambm e tentou enfiar as mos 
nos buracos para tentar o primeiro contato. O sujeito deu 
risada dele. Bartolomeu se sentiu um tolo, e o jovem 
continuou seu ritual.
Edson no se agentou, virou-se de costas e ps as mos 
na boca, fazendo um esforo tremendo para sufocar as 
gargalhadas. De repente, o obsessivo se levantou e viu o 
orifcio no centro da orelha de abano direita do Milagreiro. 
Num mpeto ansioso, enfiou o dedo no ouvido dele. A reao 
do outro foi imediata. Deu um grito estridente, dizendo:
 Sai, demnio, que este corpo no te pertence!
Suas palavras assombraram Salomo. A indelicadeza foi 
grande. Caindo em si, ps as mos na cabea e percebeu que 
mais uma vez mostrava sua viciada atitude de partir para o 
lado sobrenatural. Dessa vez, porm, ele fora longe demais. 
Queria expulsar do crebro do jovem uma doena psquica que 
estava incrustada no inconsciente e no metabolismo cerebral.
Salomo, consternado, disse com sensibilidade para a 
platia de insensveis:
 J fui chamado de louco, psictico, doido, demente, 
insano, maluco, pirado, mas de endemoninhado  a primeira 
vez.
Vendo que machucara o jovem com a mais alta ofensa, 
percebendo que no fundo no aceitava os diferentes e que 
escondendo pesadelos e no sonhos, Edson olhou para ele e 
disse-lhe, sem meias palavras:
 Desculpe-me. Realmente, desculpe-me. Fui 
profundamente indelicado, injusto, tolo e superficial. Acho que 
voc  muito mais forte do que eu. Suporta o deboche pblico, 
enquanto eu procuro os aplausos.
Ficamos fascinados com as palavras honestas e corajosas 
do Edson. Enfim, comeara a realizar um dos mais difceis 
milagres, o da humildade. Eu, como ele, jamais pedira 
desculpas para algum, fosse quem fosse. ramos pequenos 
deuses, eu no templo do conhecimento, ele no templo da 
espiritualidade. Comevamos a entender que, quando somos 
frgeis, a  que nos tornamos fortes.
A partir desse momento nos desinibimos, nos 
apresentamos ao jovem e comeamos a entrar nos captulos da 
sua vida. Ele tentara cursar psicologia, mas teve de desistir, 
pois seus professores disseram que um obsessivo no poderia 
tratar de doentes mentais. Tentara a faculdade de direito, mas 
teve de desistir, pois seus professores disseram que um 
obsessivo com rituais to histrinicos no poderia ser levado a 
srio por seus clientes, e muito menos fazer debates nos 
tribunais.
No durava um trimestre em cada emprego. Ningum 
queria dar oportunidade para algum que parecia no controlar 
seu comportamento. No conseguia namorar. Ningum se 
interessava por um homem que era uma fonte de deboche. A 
excluso tecia as vestes da sua existncia. Todavia, era um ser 
humano fortssimo, como o mestre previa. Apesar de enfrentar 
todo esse colar de dificuldades inexprimveis, no se deprimia 
e muito menos pensara em tirar a prpria vida, como eu. 
Tinha importantes conflitos, mas, excetuando os momentos 
em que se angustiava pelo sentimento de rejeio, aprendera a 
viver com alegria, curtia a vida. Vivia melhor que os 
discpulos. Ns  que precisvamos comprar seus sonhos, e ele 
sabia disso.
Entrar no mundo desse jovem foi uma viagem 
maravilhosa. Descobrimos um ser humano fantstico por trs 
de algum socialmente ridicularizado. Aps nossa viagem de 
descobrimento desse fascinante continente chamado Salomo, 
o mestre o chamou para vender sonhos.
Em seguida nos conduziu para um lugar aberto. No era 
uma praa, mas tinha algumas rvores; o ar ali era menos 
poludo. Nesse lugar nos falou de outro Salomo, o grande rei 
de Israel. Comentou que ele fora um jovem que tivera um 
excelente incio de vida. No queria ouro, prata nem poder 
poltico; queria o mais excelente tesouro, a sabedoria. 
Diariamente bebia e respirava sabedoria, e seu reino progrediu 
sobremaneira, tornando-se um dos primeiros imprios antigos. 
E a relao com as naes vizinhas era regada de paz.
Mas o tempo passou, e o poder o embriagou. Ele 
abandonou a sabedoria e comeou a se envolver em 
inumerveis atividades. Alm disso, de tudo o que seus olhos 
pediam ele se fartava, mas no se saciava. Por fim, deprimiu-se 
intensamente e teve a honestidade de dizer que tudo havia se 
tornado para ele uma fonte de tdio. Tudo era vaidade, nada 
nessa deslumbrante existncia o animava. Aps esse relato, o 
mestre completou seu ensinamento:
 O grande rei teve centenas de mulheres, carros, 
palcios, serviais, exrcitos, vestes de ouro, honras e vitrias 
como raramente algum outro rei o fez, mas se esqueceu de 
amar uma mulher, e de prestar ateno nos pequenos lrios 
dos campos, que representam a amizade e tantas outras coisas 
fundamentais.
Quando ia discorrer sobre a ltima lio, entrou meu 
imprevisvel companheiro e mais uma vez fez todo mundo se 
esborrachar de rir.
 Chefinho, d licena?  disse Boquinha de Mel.
 Diga, Bartolomeu  falou ele pacientemente.
 Ser que Salomo no se deprimiu porque teve 
centenas de sogras?
Rindo da espontaneidade de Bartolomeu, o mestre 
respondeu dando-lhe uma fina espetada:
 No sei, mas sei que h sogras mais amveis que 
muitas mes.  E arrematou com esta lio:  O sucesso  
mais difcil de trabalhar que o fracasso. Como ocorreu com 
Salomo, o risco do sucesso  a pessoa se tornar uma mquina 
de atividades, esquecer o sabor das diminutas coisas e 
abandonar aquilo que s os sonhos podem alcanar. A 
paisagem de uma fazenda, de um jardim, de um quadro, pode 
excitar mais a emoo de observador do que a de seu 
proprietrio. Deus democratizou o acesso aos melhores 
prazeres da existncia. Ricos so os que procuram esse 
tesouro, miserveis so os que pensavam possu-lo.
E colocando as mos em Salomo, o mais novo discpulo, 
ele o exaltou:
 Os grandes seres humanos esto  margem da 
sociedade. Aqui est algum que tem muito pouco, mas tem 
tudo. Obrigado por nos vender seus sonhos.

Colocando de pernas para o ar um asilo
No outro dia, o sol despontava no horizonte, incidia sobre 
nossa cama improvisada e nos convidava a despertar. Mais 
uma jornada, mais um dia excitante, mais descobertas. Como 
sempre, Bartolomeu era o ltimo a se levantar. Imagino que, 
se repousasse numa cama confortvel, vararia o dia dormindo.
Antes de sairmos sem direo na geografia social, o 
mestre nos fez um convite incomum, mas que ao longo da 
caminhada se tornou parte integrante de nossa histria. 
Convidou-nos para uma das mais importantes tarefas da 
psique: no fazer nada, apenas vivenciar a arte de observar.
Levou-nos para uma avenida movimentada, com rvores 
enfileiradas. L nos entregou uma folha de papel em branco 
amassada, deu-nos uma caneta simples e nos pediu para 
observar e anotar todos os sons e imagens do ambiente que 
nos excitassem. No valia anotar nada que fosse construdo 
pelo homem. O som do trnsito era ensurdecedor, o ar estava 
poludo, a agitao era intensa. O que poderia nos excitar a 
no ser o colorido das lojas, o estilo dos carros, a anatomia dos 
viandantes?
E o que tem isso a ver com mudar o pensamento 
humano? O que a arte de observar tem a ver com vender 
sonhos? Para mim, esse exerccio parecia banal, sem apelo 
intelectual. No tardou muito para o mestre nos provocar.
 Quem no desenvolve a arte de observar tem uma 
inteligncia superficial e uma humanidade rasteira. Pode vir a 
ser um depsito de informaes, mas nunca construir 
grandes idias.
Lembrei-me de que no dia anterior eu no enxergara o 
complexo ser humano que estava por trs dos rituais de 
Salomo. Meu senso de observao estava empobrecido. Via o 
que todo normal acusava. Edson e Dimas tambm no 
sabiam o que fazer com o papel. Bartolomeu cantarolava para 
conseguir inspirao, mas nada. Olhava para cima e para os 
lados, e continuava inerte. Os minutos se passavam, e no 
observvamos nada de interessante. Salomo era a nica 
exceo. Diminuiu sua ansiedade obsessiva e comeou a 
escrever sem parar. Estava entusiasmado. Dizia 
freqentemente:
 Hum! Hum! Que especial! Fantstico!
Enquanto ele escrevia, eu estava bloqueado, O vendedor 
de sonhos me deu um empurro.
 S desenvolvero a arte de observar se aprenderem a 
mais difcil arte do intelecto humano.  E no deu a resposta.
Qual?, pensei eu. Momentos depois, ele comentou:
 A arte de aquietar a mente. Mentes que outrora foram 
brilhantes viveram uma vida medocre porque no aquietaram 
seus pensamentos. Grandes escritores, notveis cientistas, 
magnficos artistas plsticos dilaceraram sua inspirao 
porque tiveram uma mente agitada. Os pensamentos, as 
imagens mentais e as fantasias que podem alar vo da 
criatividade tambm podem, quando excessivos, lhe cortar as 
asas, furtar a intuio e a engenhosidade.
Esse  o meu problema, imaginei. Minha mente era um 
trevo de agitao. Pensar, inclusive bobagens, era a minha 
especialidade. Sempre fui inimigo do silncio. Mas sob sua 
palavra tentei me silenciar. No foi fcil, pois era inundado por 
imagens que me cruzavam a mente numa velocidade mais 
rpida do que os carros transitavam na avenida em que 
estvamos. A poluio intelectual era o meu algoz.
Meus amigos tambm estavam perdidos. Mas, pouco a 
pouco, entramos no infinito mundo do silncio. A partir desse 
momento, nossa perceptividade se aguou. Comecei a 
distinguir os sons agudos de um pssaro. Ele repicava uma 
belssima melodia com inacreditvel flego. Anotei-a. Em 
seguida, outro pssaro cantou uma chorosa melodia. 
Momentos depois, um pombo macho fazia um ritual de cortejo 
para uma fmea.
Observei mais de dez cantos extraordinrios de pssaros. 
Eles no tinham muitos motivos para se animar nesse frio 
canteiro de concreto, mas, diferentemente de mim, 
festejavam. Observei e anotei a valentia dos troncos 
carcomidos das rvores, que, apesar da impermeabilidade do 
solo e da escassez hdrica, sobreviviam no inspito ambiente, 
uma valentia que nunca tive. Mais de dez milhes de pessoas 
passaram por essas rvores desde que foram plantadas e talvez 
no mximo dez as observaram detalhadamente. Comeava a 
me sentir um privilegiado no deserto social.
Bartolomeu, que no conseguia nem observar um elefante 
 sua frente, tambm comeou a ter xito nessa empreitada. 
Contemplou cinco borboletas multicoloridas que danavam 
espontaneamente usando apenas as asas. Anotou que, 
diferentemente delas, s bailava bbado. Edson anotou 
diversos tipos de sons produzidos pelos estalidos das folhas ao 
sabor do vento. Elas aplaudiam despretensiosamente os 
caminhantes, diferentemente dele, que procurava os aplausos. 
Dimas analisou insetos que trabalhavam sem parar, 
preparando-se para o inverno, coisa que ele nunca fizera. Ele 
furtava e, como todo ladro, era um pssimo administrador; 
acreditava que a vida era uma eterna primavera.
Aps esse exerccio prazeroso, dissemos uma das nossas 
frases favoritas: Eu adoro essa vida! Nunca fazer to pouco 
fez tanta diferena! No imaginava que a natureza estivesse 
presente de maneira marcante no centro da cidade. Como 
pode um especialista em sociedade nunca ter feito esse 
exerccio? Pela primeira vez, amei o silncio, e na atmosfera 
do silncio descobri que no tive infncia.
No me lembro de experincias agradveis quando 
criana. Talvez tenha sido um homem rgido porque no me 
relaxava quando menino. Talvez tenha tido idias de 
perseguio, achando que os outros queriam me tesourar por 
trs, porque no conheci a ingenuidade quando criana. Talvez 
fosse um adulto depressivo crnico e mal-humorado porque 
no vivi _ com alegria meus primeiros anos de vida. As perdas 
me tornaram adulto muito cedo, um jovem que pensava muito, 
mas sentia pouco.
Enquanto eu recordava a minha infncia, o mestre 
parecia me perscrutar. Puxando o flego com vigor, comentou 
sobre o assassinato da infncia na atualidade, uma das coisas 
que mais o perturbavam:
 Internet, jogos de videogame, computadores, so teis, 
mas tm destrudo algo inviolvel: a infncia. Onde est o 
prazer do silncio? Onde est a arte da observao? Onde est 
a inocncia? Angustia-me que o sistema esteja gerando 
crianas insatisfeitas e ansiosas. Fortes candidatas a serem 
pacientes psiquitricas e no seres humanos felizes e livres.
De repente, teve uma reao que eu nunca havia 
presenciado. Vrios pais passaram por ns levando os filhos, 
entre sete e nove anos, para as compras. Eles estavam 
muitssimo bem-trajados, no rigor da moda, todas as peas 
combinando. Tinham celular na mo. Mas revelavam evidente 
insatisfao. Alguns comeavam a impor o que queriam 
consumir. Para no se perturbarem com seus gritos e atritos, 
os pais cediam.
O vendedor de sonhos reagiu. Perdendo a pacincia, 
parecendo fora de si, enfrentou esses pais.
 O que vocs esto fazendo com seus filhos? Levem-nos 
para os bosques! Tirem seus sapatos, deixem-nos andar 
descalos na terra! Levem-nos para subir nas rvores, 
estimulem-nos a inventar suas brincadeiras. A espcie humana 
se fechou numa redoma artificial de egosmo e consumismo. 
Deixem-na envolver-se com outras espcies, com outros 
comportamentos.  E parafraseou uma frase de Jesus Cristo: 
 No s de shoppings vivero as crianas, mas de todas as 
aventuras da infncia.
Fiquei impressionado com sua ousadia diante de 
estranhos. Alguns pais ficaram pensativos. Outros reagiram 
mal. Um disse:
 No  esse o louco dos jornais?
Outro, que era intelectual e provavelmente do time da 
soberba, como eu, foi mais contundente:
 Eu sou professor doutor em psicologia. No admito 
essa invaso de privacidade. Dos meus filhos cuido eu.  E 
observando nossa aparncia, disse para seus amigos:   um 
bando de ignorantes.
Boquinha de Mel ouviu a ofensa e no conteve sua 
sndrome compulsiva de falar. Referendou o mestre, dessa vez 
com propriedade:
 My friend, no sou doutor de merda nenhuma.  E 
olhando para as crianas lhes disse:  Desculpe pela merda, 
meninos.  Em seguida, dirigindo-se aos pais, completou sua 
idia com exageros:  Deixem seus filhos se lambuzarem com 
a natureza. Assim, nenhum deles ter chance de ser um 
maluco, um bbado e um sem-vergonha como eu.  E caindo 
em si, fez um gesto e pediu pacincia:  Mas estou 
melhorando, chefinho.
Em seguida, voltou-se novamente para as crianas e 
tentou fazer uma brincadeira:
 Quem quer voar como uma borboleta levante as mos. 
Trs crianas levantaram as mos, duas ficaram indiferentes e 
trs se esconderam atrs de seus pais e responderam:
 Tenho medo de borboletas.
Os pais sentiram-se ofendidos com a petulncia dos 
intrusos. Chamaram os seguranas que estavam na porta de 
entrada da grande loja de departamentos do Grupo Megasoft, 
na qual estavam prestes a entrar. Estes no tardaram a nos 
expulsar de l.
 Saiam daqui, seus malandros.
Mas, antes de sair, o mestre voltou-se para os pais que o 
contestavam e comentou:
 Peo desculpas pelos meus gestos, e espero que um dia, 
diante de seus filhos, no precisem pedir desculpas pelos seus.
As idias que o mestre semeou no foram estreis na 
mente de todos os pais. Alguns, mesmo enraivecidos, 
comearam a perceber que precisavam fazer uma cirurgia na 
relao com seus filhos. Davam a melhor educao para eles 
dentro do sistema vigente, eles se tornavam especialistas em 
consumir produtos e operar computadores, mas eram 
cronicamente insatisfeitos, no sabiam observar, intuir, 
induzir. Perceberam que a natureza no era importante para a 
sobrevivncia fsica da espcie humana, mas para a 
sobrevivncia emocional dela. Os estmulos da natureza 
tinham uma pedagogia insubstituvel, superior a todas as 
teorias educacionais, para expandir os horizontes da psique. 
Comearam a freqentar bosques, zoolgicos, jardins 
botnicos.
Fiquei emocionado ao ver o cuidado do mestre e de 
Bartolomeu com as crianas. Nunca me preocupei muito com 
elas. Estava ocupado demais em criticar o sistema de classes 
sociais em sala de aula. No entendia que o verdadeiro 
material da educao era o aluno e no as informaes que eu 
transmitia. Preocupava-me que fizessem silncio e prestassem 
ateno nas aulas, mas no me preocupava, em primeiro lugar, 
se estava formando seres humanos.
Na tarde desse dia, passamos por um bairro residencial. 
Deparamo-nos com uma grande e ttrica construo. A grama 
do jardim era mal aparada. As rvores enormes faziam um 
sombreamento exagerado, impedindo que as plantas rasteiras 
florissem. O velho prdio em arcos, embora belo, tinha uma 
pintura desbotada. As janelas eram de madeira mal conservada 
e pintada de verde-musgo. As paredes brancas estavam 
imundas e descolando a massa corrida. Era um asilo, mas, 
definitivamente, esse asilo no era um lugar agradvel onde 
viver os ltimos anos de vida.
Muitos idosos iam para esse lugar no porque suas 
famlias os tivessem abandonado, mas porque simplesmente 
no tinham parentes prximos. A maioria das famlias tinha 
apenas um filho ou no mximo dois. Quando um filho nico 
falecia ou morava em cidade distinta, ou no tinha condies 
fsicas ou financeiras de ajudar os pais idosos, eles eram 
impelidos para essas instituies para receberem cuidados 
mnimos de medicina, enfermagem e higiene. Fugiam das 
tramas asfixiantes da solido. Essas instituies proliferavam 
nas sociedades atuais.
O mestre, ao olhar o asilo, disse-nos:
 Eis um bom ambiente para os sonhos. Vo at l e 
alegrem os que l habitam.
Em nosso santo preconceito, pensamos: Sonhos? Num 
asilo? Essas pessoas esto apticas, deprimidas! O que mais 
pode anim-las?. Estvamos no mundo das crianas, e agora 
entrvamos no mundo dos idosos. Mundos to distantes, mas 
to iguais! O problema  que o mestre retirou a sua retaguarda. 
Aguardvamos pelo menos suas orientaes, mas elas no 
vieram. Quis dizer se vierem. Disse que iria dar uma volta, 
mas, antes que sasse, Dimas, gaguejando e piscando os olhos, 
expressou o seguinte:
 Alegrar... os v... velhinhos? Como, mestre? Essa tu... 
turma est com um p na cova.  Sabia bater carteira de 
idosos, deix-los sob ataque de nervos, mas nunca conversara 
profundamente ou animara um deles.
 Dimas, o preconceito envelhece mais que os anos. Voc 
est mais idoso que muitos deles  comentou o vendedor de 
sonhos. Em seguida ouviu uma bobagem de Bartolomeu:
 Se for do meu jeito, resolvo o problema em dois 
minutos  disse ele, insinuando uma soluo mgica.  
Cachaa neles, e o circo pega fogo.
Depois que falou impulsivamente, pediu desculpas pela 
recada. Edson no sabia realizar o milagre da alegria. Salomo 
no tinha tambm esse expediente. Estvamos perdidos.
Quando nos demos conta, o mestre j tinha partido, 
estava a dez metros do grupo. Ia para algum lugar que 
desconhecamos. O grupo se reuniu, cada um exps suas 
idias, traamos uma estratgia, fomos em busca de materiais 
e, depois de duas horas, voltamos.
Boquinha estava com uma longa peruca, mascava chiclete 
e usava culos escuros. Animado, nos disse:
 Gente! Vamos fingir que somos normais.  Camos na 
risada.
Procuramos a direo do asilo. Antes que eu falasse 
qualquer coisa, mais uma vez Bartolomeu tomou a frente. 
Contou uma mentira que aprovamos.
 O seguinte, meu. Somos uma banda profissional de 
msicos e estamos querendo fazer show para a galera do 
pedao.  de graa. No precisamos de dinheiro, mas servem 
uns donativos.
Quando falou em donativos, eu o cutuquei. Isso no 
estava no script. Dimas usava um chapu vermelho e culos 
escuros tipo rayban. Eu coloquei uma peruca de cabelos 
longos e trancas. Salomo colocou pestanas gigantes, imitando 
Elvis Presley. Edson usava uma fita vermelha na cabea e uma 
camiseta longa sem gola. Foi uma batalha, mas conseguimos 
esses materiais dizendo que iramos fazer um espetculo 
beneficente, com o compromisso de devolv-los 
posteriormente.
O pessoal da direo ficou alarmado com o nosso figurino, 
mas como raramente os jovens se importavam com a 
existncia dos idosos, eles queriam ver o que iramos aprontar. 
Perguntava-
O que estou fazendo aqui? Isso no vai dar certo. Foi 
montada uma platia improvisada. Mais de cem velhinhos e 
velhinhas sentaram-se comportadamente em frente da banda 
dos terrores.
Levamos duas guitarras surradas. Uma estava com o 
Milagreiro, que dizia que aprendera a tocar na banda da sua 
igreja. Mas era desafinado. Salomo estava com a outra, mas 
tocava muito mal tambm. Eu estava com o saxofone, 
tentando me lembrar de algumas notas que aprendera nas 
poucas aulas que tive com meu av materno. Dimas estava 
com um contrabaixo e no sabia o que fazer com ele. Boquinha 
de Mel era o vocalista. S podia ser, mas garantiu-nos que era 
afinado e que cantava em boates no tempo em que era mais ou 
menos sbrio.
Tocamos a primeira msica, um roque romntico. 
Estvamos inibidos, contrados. A voz de Boquinha de Mel era 
um desastre, ele devia ficar de boca fechada, pois no 
conseguia acompanhar os instrumentos, embora pensasse que 
estivesse abafando. Os velhinhos no reagiam. Pensamos que 
deveria haver mais animao. Interrompemos a primeira 
msica e introduzimos um roque agitado. Fizemos aquele som! 
Estvamos entusiasmados, balanvamos o quadril, 
pulvamos, mas os idosos nada. Boquinha de Mel fazia 
ginstica com sua voz desafinada, mas os velhinhos no se 
alegravam.
Pensei: Estamos fritos. Em vez de servirmos como 
antidepressivo, pioramos a depresso desses idosos. 
Bartolomeu apelou, cantou seu hino nacional, um samba. Ns 
tentamos acompanh-lo:
 Eu bebo, sim, estou vivendo, tem gente que no bebe e 
est morrendo; eu bebo, sim...  e repetia o refro olhando 
para os velhinhos, achando que s com lcool na cabea se 
animariam.
Mas ningum sorria. Ningum mexia o corpo. Ningum 
batia palmas. Ningum cantava. No primeiro dia em que 
tentamos vender sonhos, na verdade vendemos vexame. 
Olhamos para o corpo de enfermagem e assistentes do asilo e 
vimos que eles no se abalaram. Como ns, tambm pensavam 
que os velhinhos estavam com o p na cova, esperando a 
morte chegar. Quando a tarde parecia uma das piores que j 
havamos tido desde que passramos a seguir o mestre, ele 
apareceu. Ao v-lo, vrias velhinhas e velhinhos vieram ao seu 
encontro e o abraaram com entusiasmo. Ento descobrimos 
que ele freqentava esse lugar.
De repente, ele pegou nossos instrumentos e os distribuiu 
entre os idosos. Eles mal conseguiam segur-los. Pensvamos 
que nem sabiam o que era guitarra, contrabaixo ou saxofone. 
Para a nossa surpresa, os velhinhos sr. Lauro, sr. Michel e sr. 
Lcio, que pegaram as guitarras e o contrabaixo, as 
posicionaram corretamente e comearam a afinar as cordas. 
Em seguida, tiraram um som de arrepiar. No acreditvamos 
no que ouvamos.
Do mesmo modo, uma senhora pegou o saxofone e deu 
um show. Fiquei pasmo. Mas esse asilo no parecia um 
depsito de idosos?, indaguei. Na realidade descobri, 
envergonhado, junto com meus amigos e as pessoas que 
assistiam, que no. O asilo era um celeiro de seres humanos 
experientes, com potenciais represados.
O mestre se deliciava em ouvi-los. Em seguida, pegou o 
microfone de Bartolomeu, foi at um senhor bem avanado em 
idade, que quase no conseguia andar, e o entregou. Babamos 
com sua voz inigualvel. Ela era vibrante como a de Frank 
Sinatra.
Momentos depois, o mestre chamou os idosos e idosas 
que conseguiam se locomover para a pista e comeou a danar 
com eles. Entrei mais uma vez na dana. Foi uma algazarra. Os 
prprios velhinhos colocaram o asilo de pernas pr ar. O 
sorriso jorrou ao se sentirem gente. No se alegraram de incio 
porque os desrespeitamos, lhes demos o pior, achvamos que, 
por terem avanada idade, uma memria comprometida e uma 
musculatura flcida, seus ouvidos e suas emoes poderiam 
engolir qualquer coisa.
Muitos deles haviam tido uma infncia maravilhosa, 
muito melhor que a minha. A criana que estava dentro deles 
despertou do sono. Mais tarde, o mestre disse que nos enviara 
aos idosos no com a inteno de que lhes vendssemos 
sonhos, mas que comprssemos deles. Mostrou-nos que no h 
pessoas imprestveis, mas pessoas mal valorizadas, mal 
utilizadas, mal exploradas.
Ao ouvir essas palavras, percebi mais um erro que 
cometera. Meu av materno, Paulo, era extrovertido e socivel. 
Morreu quinze anos depois de minha me. Mas nunca entrei 
em seu mundo. Sentia-me rejeitado pelos meus tios e primos, 
e acabei por rejeitar meu av. Por trs de inocentes vtimas, 
existem cicatrizes de um ru. Eu admirava sua habilidade em 
tocar instrumentos, mas nunca indaguei sobre suas lgrimas e 
seus medos. Nunca valorizei seu bom humor e suas 
experincias. Perdi muito por deixar de explorar um ser 
humano surpreendente.
Para finalizar o dia, o mestre teceu alguns pensamentos 
que ecoaram na minha mente e se tornaram inesquecveis:
 O intervalo de tempo entre a juventude e a velhice  
mais breve do que se imagina. Quem no tem prazer de 
penetrar no mundo dos idosos no  digno da sua juventude. 
No se enganem, o ser humano morre no quando seu corao 
deixa de pulsar, mas quando de alguma forma deixa de se 
sentir importante.
Achamos muitos mortos que estavam vivos pelo 
caminho. Praticamos uma eutansia psicolgica. Sepultamos 
admirveis seres humanos at quando damos suportes para 
que eles sobrevivam.

O templo da informtica
O acontecimento ocorrido no asilo ganhou destaque no 
porque estivesse presente algum jornalista, mas porque um 
enfermeiro fotografou o evento e passou as informaes para 
um jornal. Muitos outros tumultos e shows ocorreram depois 
que estivemos no asilo, dos quais destacarei apenas alguns.  
medida que os dias passavam, o grupo se fortalecia cada vez 
mais. Construamos laos fraternos, apesar das intrigas. 
Fazamos agradveis mesas-redondas ao ar livre para discutir 
nossa histria e a histria social.
Pelo menos uma vez por semana o mestre convidava 
alguns annimos, como pedreiros, pintores, escultores, 
frentistas de postos de gasolina, mecnicos, lixeiros, para irem 
 nossa ampla casa, sentar-se em caixotes de frutas e 
descortinar alguns captulos da vida deles. Eles se sentiam 
maravilhados pelo convite. Nunca tivemos tanto prazer em 
ouvir as reais dificuldades, expectativas, sonhos, pesadelos, 
paixes, desiluses de seres humanos to distantes e to 
prximos. Era uma experincia sociolgica nica, um 
aprendizado mgico.
A fama do mestre aumentava. Pouco a pouco se tornara 
uma figura folclrica da cidade. Algumas pessoas de carro 
apontavam o dedo para o mestre e falavam umas para as 
outras: No  o sujeito que parou o trnsito prximo ao 
Edifcio San Pablo?; No  o mesmo que fez tremer um asilo 
e agitou um velrio?. Do jeito que os normais gostam de 
espetculos, daqui a pouco diro que ele ressuscitou o morto.
Um senhor de sessenta anos de idade, de face angustiada 
e compenetrada, o reconheceu. Apressou os passos, nos 
alcanou e interrompeu nossa caminhada. Chamou-o tambm 
de mestre e disse-lhe:
 Mestre, durante trinta anos trabalhei na mesma 
empresa, e nos ltimos anos me tornei um gerente criativo. 
Quando comecei a me destacar entre meus pares, o diretor-
presidente iniciou uma perseguio injusta e implacvel. 
Foram longos anos de humilhao. At que, por fim, me 
despediu. Dei o sangue para a empresa, mas fui descartado 
como copo plstico que se usa e depois se atira no lixo. Fiquei 
deprimido, me senti trado e sem coragem para comear tudo 
de novo numa nova empresa, at porque elas preferem jovens 
que se sujeitam a menores salrios. Odeio dia e noite meu ex-
diretor. O que fao?
Os lbios do ex-gerente tremiam. Ele parecia procurar no 
pice da agonia um pouco de alvio. O mestre olhou para ns e 
depois para ele e comentou:
 A inveja e a vingana so fenmenos exclusivos da 
espcie humana. Nenhuma outra espcie os tem. Ele teve 
inveja de voc porque voc tinha o que ele no possua. 
Vingue-se dele.
Fiquei confuso com suas palavras. Que homem  esse 
que sigo?, pensei. No  ele o mestre da reconciliao? 
Bartolomeu gostou da atitude do mestre. Fazendo eco s suas 
palavras, comentou impetuosamente:
  isso a. Olho por olho, pancada por pancada. D uma 
boa bolacha no sujeito.
Sob a palavra do mestre, estufou o peito e reforou a 
atitude de Bartolomeu:
 Se quiser um companheiro para resolver a parada, 
achou.
E comeou a fazer gestos de que era um ninja.
Boquinha inspirou-se. Comeou a soltar gritos e fazer 
gestos desengonados, querendo mostrar era um perito em 
artes marciais. Os dois, por incrvel que parea, esqueceram o 
ambiente e comearam a brincar como se estivessem lutando. 
Dimas sem querer deu-lhe um golpe na cabea. Boquinha caiu 
duro como uma abbora. Ficou atordoado. Socorremo-lo. 
Recuperando a conscincia, ele falou para Dimas:
 T com raiva de mim.
Bartolomeu comeou a entender que pancada por 
pancada era um negcio perigoso. O sujeito, ao ver a estirpe, 
no sabia se chorava ou se sorria. De qualquer forma, cresceu 
diante das palavras do vendedor de sonhos.
 Como, vingar-me, mestre?
 Matando-o  respondeu sem titubear.
Minhas pernas bambearam. Jamais pensei que ele 
dissesse isso. Ameacei cair fora, meu corao comeou a 
palpitar. Destilando dio, o homem desnudou a sua real 
inteno.
  isso que estou indo fazer. Esse miservel no merece 
viver.  Mas, antes que sasse de cena, o mestre tocou nos 
fundamentos do seu dio:
 A maior vingana contra um inimigo  perdo-lo. Mate-
o dentro de si.
 Como assim?  indagou surpreso o homem.
 Os fracos matam o corpo dos seus inimigos, os fortes 
matam o significado deles dentro de si. Os que matam o corpo 
so assassinos, os que matam o que eles representam so 
sbios.
O homem desfaleceu, comeou a ter vertigem. Tivemos 
que segur-lo e recost-lo na parede mais prxima. O mestre se 
aproximou dele novamente, olhou bem nos seus olhos e 
completou:
 Vingue-se dele resgatando sua tranqilidade e 
brilhando ainda mais no prximo emprego. Caso contrrio, ele 
o assombrar pelo resto de sua vida.
O homem ficou paralisado por alguns segundos. Depois se 
recomps e percebeu que no poderia se comportar como 
vtima, como coitado que infla sua ira. Deveria reagir, s que 
de outro modo. Abraou o mestre longamente, como um filho 
abraa o pai, embora fosse bem mais velho. E partiu por um 
caminho diferente daquele que traara.
De repente, vi um volume debaixo da sua camisa; era um 
revlver. Fiquei embasbacado. O sujeito realmente estava 
prestes a cometer um assassinato. Somente ento entendi a 
atitude chocante do mestre. Nenhum conselho vazio 
dissuadiria aquele homem, como nada me faria desistir de 
desistir da vida. O mestre no anulara seu desejo de vingana, 
apenas o redirecionara. Que tcnica teraputica  essa?, 
indaguei.
Dias depois, estava ocorrendo a CSM (Consumer 
Electronic Show), a maior feira de eletrnica de consumo do 
mundo, na parte mais rica da grande megalpole, na Avenida 
12 de Julho. Havia mais de 2.500 empresas participantes, e 
esperava-se receber 140 mil visitantes de mais de 130 pases. 
Sob um estado de euforia, os visitantes, tanto consumidores 
finais como donos de distribuidoras e de lojas de informtica, 
atestavam a robustez de uma indstria que mesmo em tempo 
de crise econmica tinha um crescimento ininterrupto.
O mestre direcionou a face para o megaevento; queria 
estar presente no templo da informtica. No entendamos seu 
desejo ais mquinas, pois nos parecia que nunca operara 
computador. Sem dar nenhuma explicao, disse apenas:
 Vamos at a feira.
Ns o seguamos, ressabiados. O evento era muito 
requintado para gente da nossa laia. Afinal de contas, ramos 
um bando de descabelados, usando camisas rotas e jeans 
esgarados, com alguns remendos. No participvamos de 
nenhuma empresa e nem muito menos tnhamos convites. 
Parecamos teletransportados da zona rural do incio do sculo 
XX para o apogeu de nosso sculo XXI. No dava nem para 
fingir que fssemos da equipe da limpeza ou dos carregadores 
braais.
Bartolomeu, tentando descontrair-nos, disse mais uma 
vez sua famosa frase:
 Gente! Vamos fingir que somos normais.  
Imediatamente melhoramos a postura, tentamos arrumar os 
cabelos e firmar nosso andar desleixado.
Ao se aproximar do local, Dimas colocou a mo direita 
sobre o ombro esquerdo de Salomo e comeou a andar 
abraado com ele. Em seguida, comeou a apoiar seu pescoo, 
para que se movimentasse menos. Escapando-se dele, Salomo 
brincou, dizendo:
 Sai para l, mozinha leve. Aqui tem macho!  J 
estava enturmado.
 Mozinha leve, no! Mo de Anjo ou Mo Santa  
afirmou Dimas.
Bartolomeu emendou:
 Mo do demo.
Dimas no gostou da brincadeira. Bartolomeu olhou para 
o cu e, para acalm-lo, acrescentou:
 Antigamente, Dimas. H muitas horas atrs.  E saiu 
apressado, com receio de receber um safano.
A turma era impossvel. Mas nosso bom humor comeou a 
esfriar logo que colocamos os ps no espao da feira. 
Percebendo que estvamos apreensivos diante de tanta pompa, 
o mestre falou-nos:
 A rejeio ainda os amedronta? Os ambientes tensos 
ainda os ameaam? No aprenderam que uma pessoa pode 
ferir seu corpo, mas jamais poder ferir sua emoo, a no ser 
que voc permita?
Suas palavras colocaram mais combustvel em nossa 
ansiedade. Sentimos que o ambiente poderia ser instvel, 
sujeito a chuvas e trovoadas. Ficamos intimidados com o hall 
de entrada. Um belssimo ptio, com uma fonte multicolorida 
de gua. Dezenas de vasos com rosas, hibiscos, margaridas, 
tulipas enfeitavam o ambiente.
Painis e mais painis luminosos de propagandas dos 
principais participantes da feira reluziam na entrada. Um 
tapete vermelho introduzia os visitantes at a grande feira. 
Para entrar no evento, alm de apresentar convite e 
identificao, os participantes deveriam ser escaneados por 
um raio X, e seus pertences tambm deveriam passar por outra 
sofisticada mquina detectora de metais. Era um mundo 
inseguro. A palavra valia muito pouco no hospcio global.
De repente percebi que eu, o intelectual da turma, era o 
mais inseguro. Fiquei atrs de todos. O mestre na realidade 
no queria entrar dentro da feira, queria ficar no hall de 
entrada observando as pessoas. Mas Bartolomeu, mostrando 
uma fora incomum, tentou entrar e foi barrado. Logo vieram 
dois seguranas ao seu encontro. Um deles pediu-lhe para abrir 
os braos e com um aparelho comeou a toc-lo em todas as 
partes do corpo. Quando comeou a tocar suas partes ntimas, 
ele reagiu:
 Calma, meu irmo! A no!
Fomos ao seu encontro. O mestre tentou acalm-lo e 
pediu que ficssemos do lado de fora. Outros seguranas se 
aproximaram. Deram uma longa olhada na paisagem do grupo 
e comearam a pedir convites. Como no tnhamos, 
comearam a nos escanear com seus aparelhos e a nos 
revistar, como fizeram com Bartolomeu. Salomo tinha 
ccegas, no se permitia ser vistoriado. Os seguranas ficaram 
irritados. Comeamos a ser expulsos do lugar que sabidamente 
era pblico.
Um deles reconheceu o Mo de Anjo de outros ares. 
Subitamente o empurrou e disse:
 Caia fora, malandro.
Num momento de recada, ele furtou a carteira do 
segurana que lhe dera um safano. Mas ao ir ao cho caiu em 
si. Levantou-se e devolveu a carteira dele. O mestre gostou. 
Mas os seguranas ficaram mais desconfiados ainda.
Edson ficou irado. Percebi que, se tivesse poder 
sobrenatural, teria feito uma orao para fazer descer fogo do 
cu e consumir os que nos maltratavam. O mestre revelava 
uma calma inquietante, parecia que tinha preparado toda essa 
situao. Alm de nos enxotar, os seguranas comearam a 
zombar de ns. Um deles disse:
 Ser que no  o grupo de palhaos contratado para 
animar a feira?  E davam risadas. De fato, parecamos sair de 
um filme de humor ou de terror. Outro segurana deu um 
empurro no mestre, que quase caiu. Ele se recomps e disse:
 Por que me agride se no o agredi? O que fiz para 
alimentar sua violncia?
Um deles confirmou o que os seguranas pensavam:
 Caiam fora, seu bando de golpistas.
Subitamente, soltei algo que nunca imaginaria falar:  
Como eu gostaria de ser milionrio para enfiar o p na bunda 
desses miserveis.
Quando percebi, j tinha falado. Pela primeira vez, eu, um 
socialista convicto, expressei que amava o dinheiro. O poder 
do dinheiro me seduzia sutilmente, mas nunca o confessei, 
nem para mim mesmo. Amava carros de luxo, cruzeiros e casas 
de veraneio. Era um amor secreto. Criticava os burguesinhos 
que iam de primeira classe nos avies, mas no fundo tinha 
inveja deles. Detestava a classe econmica, que nos apertava 
como sardinhas.
Como no podamos entrar, ficamos do lado de fora do 
hall de recepo. Sem perder o nimo, o mestre disse-nos:
 Vamos abordar as pessoas que entram e saem do 
evento. Afinal de contas, nosso palco  o mundo.
Abordar as pessoas? Mas pensei que tivssemos vindo ao 
evento para ver computadores!, pensei comigo. Mo de Anjo, 
que gostava de fazer suas malandragens discretas, verbalizou 
baixinho para o grupo:
 Hum! Acho que estamos fritos.  Sentiu que o 
ambiente era imprprio para vender sonhos.
Logo aps a assertiva do Mo de Anjo, vi algo estranho. 
Passou por ns um homem muito bem-vestido, parecendo um 
importante lder empresarial. Olhou-nos de cima a baixo e 
entrou no evento. Possua um crach do Grupo Megasoft, uma 
das maiores empresas de computadores da atualidade. Olhei 
de relance e vi l na frente esse lder parar e comear a 
conversar com outras pessoas, que mais tarde ficamos sabendo 
serem agentes disfarados de um grupo antiterrorista. 
Enquanto conversava, apontava a mo direita em nossa 
direo.
Os agentes rapidamente se aproximaram, e um deles 
pediu novamente que o mestre se identificasse. No pediu 
nada para ns. Como ele no tinha documentos, os agentes 
agiram rpido. Um deles deu-lhe uma bofetada inesperada que 
produziu um grande estalido e o atirou no cho. Gritando 
terrorista!, eles o contiveram. Foi tudo to rpido que 
ficamos por alguns segundos sem ao. Tentamos proteger o 
mestre e fomos agredidos tambm.
Boquinha de Mel mais uma vez fez uma pose de lutador 
de artes marciais e levou um murro que o fez desmaiar. Nunca 
vi tanta violncia. Sociologicamente falando, em terra de 
cegos quem tem um olho no  rei,  alvo de espancamento. 
Mal meus olhos comeavam a ser abertos por um estranho, eu 
percebia que em alguns momentos era mais seguro ser cego.
No tumulto, um dos agentes sacou a arma, disposto a 
atirar no mestre. Se no fosse por trs policiais que passavam 
de carro e pararam para verificar o porqu da aglomerao, 
talvez ele tivesse sido morto. Observando fixamente o suposto 
terrorista, um dos policiais, tambm de arma em punho, gritou 
para os agentes:
 Parem! Eu sou chefe da polcia deste distrito.  Os 
agentes se arrefeceram. Em seguida ele afirmou:  Conheo 
esse homem. Ele no  um terrorista.
O lder dos agentes, esbravejando, disse:
 Esse homem no porta documentos. Quem ele ?
E titubeando, sem conseguir dar resposta plausvel, 
comentou:
 Bom, ele ... Ele  um vendedor. Um vendedor 
ambulante...
Para desbaratar os agentes, o chefe da polcia os 
ameaou:
 Se no o deixar em paz, vou abrir um inqurito pela 
violncia de vocs.
O policial que protegera o mestre era o mesmo que estava 
presente no topo do Edifcio San Pablo. O vendedor de sonhos 
tornara-se inesquecvel para ele, tinha lhe tirado o sono por 
algumas noites ao comentar a relao dele com o filho. O 
policial acompanhava seus passos pelos jornais.
Fiquei feliz da vida. Comecei a dar crdito  polcia. 
Apesar de estar sangrando, o mestre colocou um pano quente 
na situao.
 So bons homens, houve um engano. Nisso Bartolomeu 
acordou e perguntou:
 Onde estou?
Recordando que fora nocauteado e percebendo que a 
situao j estava controlada, resolveu mais uma vez mostrar 
sua coragem:
 To ficando nervoso. Sou faixa-preta de jud, carat, 
capoeira e outros bichos mais. Me segurem que a coisa vai 
ficar feia.
Em vez de segur-lo, ns o soltamos. Boquinha de Mel se 
levantou num salto e, vendo que os agentes o encaravam 
novamente, lhes disse:
 Agora j estou calmo.
Os agentes se foram. Segundos depois, o chefe da polcia 
tambm se foi. Mas antes de partir agradeceu ao mestre pelas 
poucas frases que dirigira a ele quando o conhecera:
 Meu filho gostaria de conhec-lo.
 Um dia. Diga a ele para ter muitos sonhos e lutar por 
eles. Meus colegas mexeram os ombros, tentando perguntar a 
mim o que significava aquilo. Mais tarde tentei lhes explicar o 
incompreensvel.
O olho direito do mestre estava edemaciado, e do canto 
esquerdo dos lbios escorria sangue, mas ele no reclamava.
Sabamos que segui-lo significava sofrer risco de 
zombarias e escrnios, mas foi a primeira vez que tivemos 
cincia de que tambm havia risco de vida.
Fiquei alarmado em perceber que as pessoas poderiam 
sair com facilidade de um estado de tranqilidade para o da 
brutalidade. O que mais me abalava  que o fantasma da 
agressividade tambm estava em mim. Conhecia minha 
soberba, mas no o potencial de violncia latente.
Estava sendo contaminado com o vrus da solidariedade, 
mas tive vontade de agredir violentamente quem ferira o 
mestre. Nunca imaginei que o amor ao prximo e a 
agressividade morassem na mesma casa. Nunca pensei que a 
paz e a guerra habitavam no mesmo ser humano. Pessoas 
brandas tambm alojam monstros nos recnditos de sua 
psique.

Descortinando a fbrica de estresse
Os acontecimentos no templo da informtica foram 
intensos. Sentamos que o mestre precisava tratar suas feridas 
em algum ambulatrio mdico e depois descansar em algum 
viaduto ou praa. Ns o pegamos pelos braos e o estvamos 
levando para fora. Todavia, em vez de se calar, ele subiu na 
mureta da fonte multicolorida de gua e, com uma coragem 
incomum, comeou a convidar as pessoas para ouvir as 
ltimas novidades da grande feira.
No acreditvamos no que estvamos ouvindo. Algumas 
comearam a se aproximar de ns. J reconheciam o 
amotinador descrito nos jornais. Polmico, continuou a 
provocar os participantes e expositores da CSM.
 A mais abandonada das crianas tem um psiquismo 
mais complexo do que todos os computadores interligados em 
conjunto. Mas onde se investem mais pesquisas e mais 
dinheiro, nas crianas ou nas mquinas?
Prestando ateno apenas na primeira parte da pergunta, 
um cientista interpelou o mestre:
 Voc  um leigo em inteligncia artificial. Em poucos 
anos teremos mquinas que superaro o crebro humano. Elas 
tero a programao da mente humana, com a vantagem de 
possurem uma memria superior. Ser a mais fantstica 
construo. Espere e ver!
O mestre aceitou o debate:
 Discordo! Os computadores estaro eternamente 
condenados ao sono da inconscincia. Nunca tero conflitos. 
Jamais se inquietaro com a procura de suas origens e de seu 
fim. No produziro filosofia nem religio. Sero sempre 
escravos de programas.
Fiquei pensando: Onde o mestre aprendeu essas 
informaes? Como consegue discutir com segurana assuntos 
polmicos?. De outro lado, os engenheiros de computao e 
programadores que o ouviram ficaram embaraados.
 Ser que o sono da inconscincia jamais ser 
despertado pela inteligncia artificial? Ser que os 
computadores jamais sabero que existem?
 Nossos conflitos denunciam nossa complexidade. Se 
no conseguimos ficar felizes por t-los, pelo menos 
deveramos admir-los como frutos de nossa grandeza 
psquica.
Olhei para alguns membros da famlia e percebi que no 
estavam entendendo nada. Bartolomeu, em especial, estava 
perdido. Mas engoli minha silenciosa lngua; ele, pois, me 
surpreendeu dizendo-me baixinho.
 Superego, eu sempre fui uma pessoa maravilhosamente 
complexa, mas voc  insuportavelmente certinho e chato.
Bartolomeu sempre me socava o fgado em situaes nas 
quais sabia muito bem que eu no podia lhe dar resposta. 
Queria golpe-lo com minha cultura, mas tinha que cultivar o 
que nunca tive: pacincia. Eu, que nunca fui religioso, pedi: 
Dai-me pacincia para no perder as estribeiras com esse 
complicado personagem.
Enquanto isso, o mestre, depois de criticar o ufanismo 
diante das mquinas, virou sua artilharia contra a internet.
 O sistema produziu a internet e os celulares, gerando 
uma revoluo na comunicao e no acesso s informaes 
jamais vista na histria. As pessoas tornaram-se desinibidas 
diante de aparelhos, mas no perante faces concretas. No 
dialogar com os outros  um ato tolervel, mas no dialogar 
consigo mesmo  um ato insuportvel.
Agora eu entendia por que o mestre se isolava. Quando eu 
o via falando sozinho, achava estranhssimo. Para mim, esse 
gesto sempre foi um sintoma de loucura, mas ele invertera o 
conceito, julgava-o um sintoma de sanidade. Nunca falei 
comigo mesmo, a no ser coisas prosaicas. Estava mais doente 
que alguns psicticos; no foi  toa que cheguei ao ponto de 
me abandonar por completo.
As pessoas se ajuntavam cada vez mais, obrigando-o a 
elevar o tom de voz. Elas tinham vindo para a magnfica feira 
para ver as ltimas novidades da informtica e descobriram 
uma das ltimas novidades do seu computador cerebral. 
Bombeando mais lucidez para a mente da platia, o mestre fez 
uma afirmao apoiada em nmeros que eu desconhecia:
 Mais de quatro bilhes de asiticos, europeus e 
americanos jamais tiveram um encontro com seu prprio ser. 
Silenciaro sua voz num pequeno espao de um tmulo como 
estrangeiros que nunca encontraram sua verdadeira casa.
As pessoas meditaram sobre essas palavras como se 
fossem uma orao. Nesse momento, nosso amigo Boquinha de 
Mel levantou as mos. O clima filosfico exigia que ele 
continuasse com a boca fechada para no estrag-lo. Mas era 
mais dependente da sua lngua do que do lcool. Perguntou:
 Chefinho, acho que estamos mais enrolados que esses 
caras.
 Por que, Bartolomeu?  perguntou pacientemente ao 
aluno especialista em interromper a aula no seu pice.
 Porque nem endereo de casa temos. Moramos debaixo 
da ponte.
Muitos deram risadas. Logo ele percebeu o fora que dera. 
O mestre no o repreendeu, tambm sorriu e admirou sua 
espontaneidade. Boquinha era uma criana hiperativa e 
peralta. Para o mestre, a liberdade cresce no terreno da 
espontaneidade. Muitos mataram sua espontaneidade nas 
escolas, igrejas, empresas, inclusive as pessoas da grande feira; 
so robs admirando mquinas. No falam o que pensam. 
Nesse instante, me interiorizei e percebi que no ficara para 
trs. Em nome da discrio, era formal, ponderado, recatado. 
No me conhecia nem deixava os outros me conhecerem. Era 
um intelectual perito em dissimular que estava tudo bem. Era 
difcil admitir que o Boquinha tinha vantagens sobre mim.
Calmo, o mestre lhe disse:
 Sim, Bartolomeu. No temos casa, mas procuramos a 
melhor delas. Lembre-se de nossa cano.
E mais uma vez assombrou seus ouvintes com sua 
excentricidade. Interrompeu o discurso e cantou sua cano, e 
ainda fez os gestos de um maestro. Ns o acompanhamos. Nas 
primeiras frases, eu estava engessado. Boquinha e Dimas se 
esbaldavam. Samos dos altos montes da reflexo para tomar 
um banho relaxante na cachoeira do prazer.

Sou apenas um caminhante
Que perdeu o medo de se perder
Estou seguro de que sou imperfeito
Podem me chamar de louco
Podem zombar das minhas idias
No importa!
O que importa  que sou um caminhante
Que vende sonhos para os passantes
No tenho bssola nem agenda
No tenho nada, mas tenho tudo
Sou apenas um caminhante
 procura de mim mesmo

Ao nos ouvir cantar essa cano, alguns ouvintes ficaram 
completamente atordoados. Perguntavam: Que grupo  esse? 
De onde saiu? Quem  esse maestro? Ser que  um 
palestrante de alguma corporao que est disfarado para 
excitar a mente dos convidados?. Outros se soltaram, 
entraram no ritmo e comearam a nos acompanhar; perderam 
o medo de se perder, perderam o medo de se soltar; 
descobriram, por alguns instantes, que no so pesquisadores, 
engenheiros ou empresrios, so apenas caminhantes. E ainda 
outros saram da platia dizendo: Esse cara  louco varrido!. 
Apesar das interpretaes destoantes, era impossvel ficar 
indiferente  irreverncia do homem malvestido. Ele penetrava 
nos espaos mais ntimos da solido.
Olhamos ao nosso redor e vimos algumas pessoas 
comovidas, em especial duas executivas muito bem-trajadas. 
Sentiam-se intensamente abandonadas, embora rodeadas de 
pessoas. Tinham sucesso profissional, mas eram infelizes. 
Todo o cenrio mexia com meu imaginrio.
Vendo as pessoas interiorizadas, o vendedor de idias 
tocou em outro assunto. Perguntou algo aparentemente bvio:
 A vida mdia  maior hoje ou no passado? Uma pessoa, 
tomando a frente, respondeu:
 Hoje, sem sombra de dvida!
Mas o mestre, olhando para seus discpulos, em especial 
para mim, e depois para a massa que o ouvia, nos provocou 
indo contra a resposta:
 No! Morremos mais cedo hoje que no passado! Muitos 
zombaram do mestre. Imaginei que dessa vez ele tinha metido 
os ps pelas mos. Um cientista no se agentou. Dando 
risadas, confrontou:
 Tolice! Qualquer pssimo estudante sabe que a vida 
mdia se expandiu com as novas medidas sanitrias e vacinas.
O vendedor de sonhos no era tolo, sabia o que estava 
dizendo. Fixando-se nele, comentou:
 No tempo dos romanos, a vida mdia no passava dos 
quarenta anos. Na Idade Mdia, no passava dos quarenta e 
cinco. Hoje nos aproximamos dos oitenta, mas me refiro  vida 
mdia psquica. Morremos psiquicamente mais cedo. No 
parece que dormiram e acordaram com essa idade, senhores?
E, aumentando o tom de voz, afirmou:
 O sistema tem um lado bonssimo. Produziu vacinas, 
antibiticos, tratamento de gua e esgotos, tcnicas agrcolas, 
conservao de alimentos, gerando, assim, a expanso da vida 
mdia fsica. Todavia, o mesmo sistema que nos colocou ao ar 
livre retirou oxignio com seus excessos. Entenderam?
No entendemos, pelo menos no completamente. Muitas 
vezes ele era econmico nas palavras, falava quase por 
cdigos. No sabamos o que queria dizer sobre os excessos 
do sistema. Para iluminar nossa mente, mais uma vez fez o 
que sempre amava fazer. Contou uma histria:
 O simptico bacteriologista escocs Alexander Fleming 
estava analisando uma temvel bactria em seu laboratrio em 
1928. Distrado como um bom cientista, e golpeado pelo 
excesso de atividades, esqueceu a porta aberta ao sair. Um 
fungo invadiu as placas de cultivo das bactrias, produzindo 
um bolor. Aquilo que parecia um desastre gerou uma notvel 
descoberta: as bactrias morreram. A partir dessa descoberta, 
extraiu-se o primeiro antibitico, a penicilina. Milhes de 
vidas foram salvas. Todavia, a penicilina passou a ser usada 
excessiva e indiscriminadamente. O resultado? Agora, sim, 
desastroso. O uso excessivo de antibiticos tem produzido 
bactrias resistentes a eles e, portanto, perigosssimas. A 
penicilina, que foi um dos maiores presentes da medicina para 
a humanidade,  hoje acusada de criar supermicrbios capazes 
de destru-la ou afet-la. Do mesmo modo, o sistema que 
expandiu a vida mdia fsica, por meio de seus excessos, est 
nos sepultando psiquicamente mais cedo do que nos tempos 
da varola.
Fazendo uma pausa para respirar, completou sua histria:
 Vivemos mais tempo fisicamente do que no passado, 
mas a percepo do tempo  muito mais rpida. Os meses 
correm, os anos voam. Muitos esto no pice da juventude 
psquica, mas olham para si e descobrem que tm setenta ou 
oitenta anos. Atualmente, oitenta anos so percebidos como 
vinte. Quais os excessos que os tm afetado?  indagou dos 
ouvintes.
Atordoados e honestos, os ouvintes olharam para a 
prpria histria e declararam aquilo que os asfixiava. Uns 
responderam:
 Excesso de compromissos. Outros:
 Excesso de informaes. E ainda outros:
 Excesso de presses sociais, competio, metas, 
cobranas, necessidade de nos atualizarmos.
ramos a sociedade de excessos, at excesso de loucuras.
Bartolomeu no ficou atrs. Felizmente deu uma nota 
dentro:
 Excesso de porre.  E como nunca deixava ningum 
quieto, olhou para ns nos e disse:  Excesso de ego, de 
malandragem, de religiosidade.
Demos-lhe uns belisces sutis.
As pessoas comearam a descobrir que os excessos 
tinham invadido nosso estilo de vida. Precisavam comprar 
sonhos. O homem de lbios e olhos inchados queria vend-los, 
pelo menos um pouco.
 O que fazer para reverter essa vida excntrica, saturada 
de tenses?  perguntou, angustiado, um senhor de sessenta 
anos.
O mestre foi lacnico e direto:
 Cortem os excessos, ainda que percam dinheiro e 
diminuam o status. Se no quiserem ser idosos reclamando 
uma juventude que j passou, tm de ter coragem para fazer 
cortes. No h corte sem dor.
Eu fiquei pensando. Ser que o mestre tinha tido coragem 
de fazer tais cortes na sua histria ou era um daqueles 
tericos que discorrem sobre o que no viveram? Pode uma 
pessoa sem experincia abrir a mente de outras pessoas? Ele 
me fez enxergar que o tempo voara para mim. Eu estava 
atolado at pescoo na lama dos excessos. Excesso de aulas, 
de preocupaes, de pensamentos, de pessimismo, de 
reclamaes, de dvidas. Eu criara superbactrias que 
infectavam minha psique.
Alm de falar dos cortes no estilo de vida, vendeu o 
famoso exerccio da arte da observao, que semanalmente 
fazamos. E finalizou suas idias dizendo:
 A vida se extingue rapidamente no parntese do tempo. 
Viv-la lenta e deslumbradamente  o grande desafio dos 
mortais.
Essas palavras me fizeram recordar que no passado os 
dias corriam to rpido que eu no percebia. Agora, com essa 
incomum famlia, os dias duravam. Vivamos intensamente.
Aps dizer tais palavras, comeou a sentir vertigem. O 
estresse pelo espancamento e o desgaste do discurso o haviam 
esgotado. Seguramo-lo para que no casse. Salomo e Dimas o 
pegaram pelos braos e o conduziam para fora.
Saiu sob aplausos calorosos. Foi descansar debaixo do 
viaduto da Avenida Europa, a duzentos metros do local.
Uma pessoa se aproximou dele e disse agressivamente:
 Nunca ouvi tanta loucura num s dia. Voc  uma 
fraude! Ficamos mordidos de raiva do sujeito. O mestre nos 
aquietou e reagiu:
 Toro para que minhas idias sejam de um louco e as 
suas de um sbio.  E foi saindo.
As pessoas prestavam ateno no estranho homem 
enquanto ele saa. Comentavam: Ser que no quer fundar 
uma nova sociedade?. Abismadas, diziam entre si: Como 
reunirei foras para fazer os cortes necessrios em meus 
excessos?. Algumas queriam morar no campo, cultivar 
orqudeas, criar animais ou fazer uma segunda jornada na 
sociedade, mudar de emprego ou ser voluntrias em 
instituies filantrpicas, como hospitais de cncer ou de 
crianas, mas seus excessos adiavam seus projetos. Porm, 
dessa vez retornavam para casa pensativas. No dormiam 
direito, entenderam que deveriam perder o medo de se perder. 
Pouco a pouco, descobri que o mestre no apenas era um 
vendedor de sonhos, mas uma fonte de insnia.
Enquanto samos do templo da informtica, mais um fato 
tocante aconteceu. Uma mulher bem-vestida, mesmo vendo o 
mestre conduzido para fora fragilizado, abordou-o. Dissemos a 
ela que no era o momento. Mas o mestre, esquecendo sua 
vertigem, lhe deu ouvidos. Deprimida, comentou:
 Minha adorvel filha Joana, de seis anos, est com 
cncer. Os mdicos disseram que provavelmente s ter mais 
trs meses de vida. Meu mundo desabou. Queria morrer em 
seu lugar. No consigo ficar em casa. Estou aqui porque, 
quando olho para ela, entro em desespero, e ela  to especial 
que em alguns momentos tenta me consolar.
Ficamos comovidos e, mais uma vez, envergonhados com 
nossa sensibilidade. Emocionado, ele disse.
 Filha! No tenho poder sobrenatural para ajudar a 
pequena Joana. Mas posso dizer que trs meses mal vividos 
so como segundos, ao passo que trs meses vividos na 
plenitude so como uma eternidade. No enterre sua filha no 
tmulo do seu medo. V para casa, descubra-a e deixe-a 
descobri-la. Viva intensamente com ela, com o mximo de 
alegria, pelo tempo que ela tiver.
Ela partiu animada, sedenta de fazer de cada minuto um 
momento nico. No sabamos se a sobrevida da pequena 
Joana aumentaria. Mas tnhamos a certeza de que em trs 
meses elas poderiam destilar uma histria mais rica e mais 
intensa do que nos trinta anos que a maioria dos pais viviam 
com seus filhos.
Lembrei-me da minha histria como pai. Tive vontade de 
sair correndo atrs do Joo Marcos e lhe pedir desculpas pelo 
meu superficialismo e intelectualismo.

O veneno do assdio social
Enquanto levvamos nosso mestre para o Viaduto Europa, 
Bartolomeu se desgarrou do grupo. Um reprter queria fazer 
uma entrevista sobre ns e em especial queria especular sobre 
a identidade e as intenes do mestre. Vendo que durante o 
seu discurso Bartolomeu fez uma pergunta, chamou-o  parte e 
props-lhe uma entrevista. Ele ficou excitado, sem saber que 
estava entrando numa zona de perigo.
O jornalista foi direto nas perguntas:
  verdade que o homem que ouvimos os chamou para o 
seguirem, sem lhes prometer dinheiro e lhes dar o mnimo de 
segurana?
 Sim - respondeu com simplicidade.
  verdade que vocs realmente moram debaixo de uma 
ponte?
 No de uma  respondeu ele.  Moramos debaixo de 
muitas pontes e viadutos.
 Como assim? Quem so vocs? A quem vocs seguem? 
Constrangido pela dificuldade de dar respostas precisas, sem 
pensar muito, Bartolomeu disse:  Ns? Ns somos um grupo 
de artistas.
 Artistas? So artistas plsticos, escultores, grupo 
teatral?  indagou o jornalista, curioso, pensando se tratar de 
um grupo bizarro de artistas. Mas decepcionou-se.
Bem-humorado, o terrvel Boquinha de Mel respondeu:
 No. Somos artistas em complicar a vida.  E deu sua 
famosa gargalhada, que se ouvia a cinqenta metros.
O jornalista se sentiu menosprezado. Mas meu amigo fora 
sincero e espontneo. Em seguida, tentando explicar melhor 
seu pensamento, acrescentou:
 Durante toda a nossa histria, complicamos a vida, 
mas agora estamos passando por um complicado processo de 
descomplicao. No  fcil, mas chegaremos l.
Boquinha de Mel estava entusiasmado, pois era a primeira 
entrevista que dava em sua vida. Sentia-se atrado  pelo 
menos um pouco  pelo veneno do assdio social.
 Mas quem  o lder do grupo? O que ele faz?  
perguntou o entrevistador, curioso.
 No sei quem ele . Mas sei que ele vende sonhos  
disse com ingenuidade.
 Vende sonhos, como assim? Esse sujeito no  uma 
pessoa perigosa? No  um louco?
O discpulo olhou em derredor e, apontando para o 
ambiente, disse:
 Se ele  louco eu no sei, mas sei que ele diz que todos 
ns estamos num manicmio global. O chefinho quer mudar o 
mundo  falou, dando uma dimenso fantasiosa s metas do 
mestre. Na realidade, o mestre queria estimular as pessoas a 
terem sede e fome de mudanas, pois somente elas seriam 
responsveis por suas transformaes.
Perplexo, o entrevistador indagou:
 O qu? Aquele maltrapilho diz que vivemos num 
hospcio global? E deseja mudar o mundo? E vocs acreditam 
nisso?
 No sei se ele vai mudar o mundo, mas est mudando o 
meu mundo  disse com sinceridade.
 Vocs so anarquistas?
Bartolomeu desconhecia o movimento anarquista. No 
sabia que Pierre Joseph Proudhon, o inspirador desse 
movimento surgido no sculo XIX, defendia a tese da 
construo de uma nova sociedade, capaz de expandir a 
liberdade individual e libertar o trabalho da explorao do 
capitalismo industrial. Nessa nova ordem social, constituda 
pela organizao dos trabalhadores, as pessoas tratariam com 
justia seus pares e desenvolveriam seu potencial. Os 
anarquistas no reconheciam o governo vigente, suas leis e 
instituies. Viviam debaixo do seu prprio controle. Sem a 
tutela do Estado, o ser humano, pensavam os anarquistas, 
seria livre.
O mestre no compactuava com a idia central dos 
anarquistas. Para ele, sem Constituio e sem instituies, o 
homem poderia cometer atrocidades, distorcer o direito dos 
outros, assassinar, extorquir, viver em funo de si mesmo e 
mostrar uma selvageria sem precedente. No queria tambm 
reeditar o movimento hippie, que surgira na esteira da guerra 
dos EUA com o Vietn. A frustrao da juventude com a guerra 
gerou o desapontamento com as instituies, e isso se tornou 
o embrio de um movimento de paz e amor, mas sem 
compromissos sociais.
O projeto de vender sonhos do mestre, ao contrrio, era 
saturado de compromissos com a sociedade, em especial com 
os direitos humanos, a liberdade e a sade psquica. Por isso, 
ele recomendava, para os que queriam segui-lo, que no 
deixassem suas atividades sociais. Apenas alguns, talvez os 
mais bizarros, eram chamados para o seu treinamento.
Bartolomeu no sabia que no ramos anarquistas. 
Embora no entendesse o contedo da pergunta, o bizarro 
discpulo cocou a cabea e respondeu com singeleza filosfica:
 Olha, meu amigo, no sei se somos anarquistas. O que 
sei  que at h pouco tempo eu no sabia dizer quem eu era.
 E agora, sabe?  perguntou o entrevistador curioso. 
Mas nosso amigo deu um n na mente dele.
 Agora? Sei menos ainda. No sei quem sou nem o que 
sou, pois o que pensava que era no  o que sou. Estou me 
desintoxicando do que era para ser o que sou. No compreendo 
ainda quem sou, mas estou  procura de mim. T entendendo?
 No!  respondeu o reprter, saturado de dvidas. 
Bartolomeu reagiu aliviado, dizendo:
 Ufa! Que maravilha! Pensei que s eu no entendia. 
Olha, meu amigo, s sei que vivia caindo todos os dias, mas 
agora estou reerguendo alguns.  E fitando os olhos do 
jornalista, fez-lhe um convite afetivo:  Voc no quer fazer 
parte do grupo?
 Eu no! Isso  coisa de maluco  rebateu o outro 
categoricamente.
Percebendo a atitude rspida do jornalista, ele rebateu, 
dessa vez sem ingenuidade:
 U, cara! Como sabe disso? Mas  to bom ser maluco! 
E, irreverente, levantou-se e comeou a andar e a cantar, com 
sua voz estridente e de braos abertos, um trecho de uma 
msica do Raul Seixas de que gostava: Eu vou ficaaar, maluco 
beleza. Saiu sem se despedir do reprter. E gritava: Ah! Eu 
adoro essa vida!. Gingava os quadris e cantava: Eu vou 
ficaaar, maluco beleza. Ficou fora de si.
O jornalista, antes da entrevista com Bartolomeu, j tinha 
desenhado a pauta e o contedo da reportagem. S precisava 
confirmar alguns dados. O preconceito o controlara. 
Bartolomeu ficou to eufrico com a primeira entrevista que 
perdeu a sobriedade. Resolveu comemorar. Foi para um bar e 
encheu a cara. Era a terceira recada desde que fora chamado, 
s que as duas primeiras tinham sido brandas. Dessa vez ele 
entortou o cabo do guarda-chuva e ensopou-se. Ficou jogado 
na calada.
Notando a sua falta, ficamos preocupados. O mestre nos 
encorajou a ir atrs dele. Eu e meus amigos, sem pacincia, 
falamos uns para os outros: De novo! Esse cara no tem 
jeito. Depois de uma hora o achamos quase desmaiado. Ns o 
colocamos de p, mas ele no se firmava. Percebemos que 
fazia um pouco de corpo mole, no queria andar. Pegamos seus 
braos um de cada lado, e o apoiamos. Dimas empurrava por 
detrs.
Bartolomeu, com a voz pastosa, reclamava de Dimas:
 Vai devagar, amigo... O pra-choque  frgil.
De vez em quando, soltava flatos sonoros e ftidos  pior 
que uma vaca velha. E ainda zombava de ns:
 Gente, perdoa o escapamento furado.
Dava vontade de lhe dar uns tabefes. Eu me questionava: 
Sa do mundo das idias da academia para ouvir as idias de 
um bbado.  inacreditvel. Nunca amei o prximo a no ser 
que me desse retorno. Sem retorno, estava fora. Agora estava 
cuidando de algum que, alm de no me dar retorno, me fazia 
sair do srio e me tirava sarro. Chegando perto do viaduto, nos 
ltimos trinta metros, tivemos que carreg-lo; realmente, ele 
no conseguia mais andar. O mais difcil era agentar sua 
declarao de amor por ns num pssimo ingls:
-- I love you, gente. I love you very much, much, much.
Suados e fatigados, falamos em coro:
 Cala a boca, Bartolomeu!  Mas no adiantava. Pedir 
para ele se calar aguava seu vcio inveterado de ser prolixo. 
Falou umas dez vezes, durante o trajeto, que nos amava. 
Talvez estivesse sendo sincero, talvez sua afetividade fosse 
maior que a nossa. Logo que chegamos ao viaduto, o folgado 
tentou nos dar beijos de agradecimento. No agentamos. 
Soltamo-lo no cho, mas procuramos proteger sua cabea. 
Descarado, ele olhou para ns e exagerou:
 My friends,  um privilgio vocs me tomarem nos 
braos. Impacientes, dissemos em tom firme ao mestre:
 Mande esse cara para os Alcolatras Annimos.  Mas 
sem ele faltava graa no grupo.
Dimas falou:
 Mande-o para... para... um hospital psi... psi..., de louco 
mesmo.
O Milagreiro disse:
 Mestre, quantas vezes teremos que suport-lo?
No queramos ouvir a resposta, pois ele endossou as 
palavras de Bartolomeu:
  um privilgio carreg-lo. .
Ouvindo as palavras do mestre, Bartolomeu, mesmo 
embriagado, sentiu-se prestigiado:
 To ouvindo o chefinho! No sou pouca coisa, no!  
falou quase incompreensivelmente, mas claro o suficiente para 
aumentar a temperatura de nossas emoes. Em seguida, o 
vendedor de sonhos adicionou:
  melhor carregar do que ser carregado.  melhor 
suportar do que ser suportado.
E disse-me algo que mais uma vez colidiu frontalmente 
com meu atesmo:
 O deus construdo pelo homem, o deus religioso,  
implacvel, intolerante, exclusivista, preconceituoso. Mas o 
Deus que se oculta nos bastidores do teatro da existncia  
generoso. Sua capacidade de perdoar no tem bom senso, nos 
estimula a carregar os que nos frustram tantas vezes quantas 
forem necessrias.
Enquanto o mestre falava, eu duvidava das suas palavras. 
Recordava minha anlise sociolgica dos textos das Antigas
Escrituras, e me vinha  mente um deus rgido, agressivo, 
intolerante. Onde est esse Deus generoso? Onde est o Deus 
tolerante, se aceitava apenas o povo de Israel?, perguntei-me. 
Como se estivesse lendo os meus pensamentos, ele disse:
 Esse Deus generoso foi declarado em prosa e verso na 
boca do Mestre dos Mestres. Foi declarado quando chamou 
Judas de amigo no ato da traio. Foi declarado quando Jesus 
tremia na cruz e clamava: Pai, perdoai-os porque eles no 
sabem o que fazem. Ele protegeu os que o odiaram, amou 
seus inimigos, intercedeu afetivamente pelos seus 
torturadores.
Suas palavras penetraram nos becos da minha 
personalidade, expondo minha falta de generosidade. Eu nunca 
soubera perdoar. Nunca perdoara meu filho por usar drogas. 
Para mim, ele havia negado a minha excelente educao. 
Nunca perdoara minha esposa por ter me abandonado. Para 
mim, ela abandonara um dos melhores homens do mundo. 
Nunca perdoara meu pai por ter se matado. Para mim, ele 
cometera o maior crime em ter me deixado quando menino. 
Nunca perdoara meus colegas professores que me traram 
quando haviam prometido seu apoio no departamento. 
Considerava-os um bando de covardes dominados pela inveja.
Ao caminhar com o mestre, tinha a oportunidade de 
perdoar e carregar um alcolatra gozador, desatinado, 
irresponsvel. Como fazer isso sem reclamar? Difcil, muito 
difcil para mim. Mas eu comeava a amar esse zombeteiro. 
Bartolomeu tinha o que eu sempre quisera: autenticidade e 
auto-estima slida. Sociologicamente falando, os 
irresponsveis so mais felizes do que os responsveis. O 
problema  que os irresponsveis dependem dos responsveis 
para serem carregados.
No dia seguinte, as conseqncias da entrevista de 
Bartolomeu vieram  tona. Estava estampada, na primeira 
pgina do famoso jornal, a foto do mestre com a seguinte 
manchete: Psictico chama o sistema social de manicmio 
global.
O jornalista comentava que havia um maluco que dizia 
que a humanidade caminha pelas avenidas de um gigantesco 
manicmio global. Mas dessa vez  dizia o maluco  esse 
manicmio no era um lugar lgubre, frio, ftido, escuro, como 
os hospitais psiquitricos do passado, e sim um ambiente 
aprazvel, colorido, iluminado e repleto de mquinas 
sofisticadas. Um lugar perfeito para cultivar nossas loucuras 
sem nos perturbarmos com elas.
Ele fazia discursos em todos os lugares pblicos, com o 
objetivo de mudar a mente das pessoas. Ningum sabia suas 
origens, mas para ludibriar as pessoas ele se intitulava com um 
nome atraente, o Vendedor de Sonhos.
A reportagem estampava fotos das pessoas magnetizadas 
por ele e dizia que o sujeito era doido varrido, mas carismtico 
e instigante. Sua capacidade de seduo era grandiosa. At 
executivos caam na sua armadilha. Uma corja de ingnuos 
sem cultura clssica o seguia. Ele comentava que no 
enfatizava milagres nem se julgava messinico, mas, desde que 
o homem Jesus viveu na Judia e na Galilia, no se via um 
demente to ousado querendo reproduzir seus passos.
Nada discorreu sobre as intrigantes idias que o mestre 
proferia. No falou sobre a necessidade vital do autodilogo, o 
sono inconsciente a que os computadores esto eternamente 
condenados, os excessos do sistema que esto nos fazendo 
morrer mais cedo no territrio psquico. Silenciou-se ante a 
reduo drstica da vida mdia psicolgica. Por fim, concluiu a 
matria dizendo que seus seguidores eram um bando de 
anarquistas que colocavam em risco a democracia e que 
poderiam desencadear atos terroristas.
A reportagem atirou nossa histria no cho. A difamao 
foi contundente, no deixou pedra sobre pedra do nosso 
projeto. Ficamos profundamente cabisbaixos, desanimados. 
No havia mais como continuar, pensei. Seria muito melhor 
chafurdar na lama do individualismo. Enquanto afundvamos 
no pntano dessa calnia, mais uma vez o mestre entrou em 
cena e tentou apaziguar nossa mente. Parecia que havia 
sofrido tanto na vida, que essas coisas no o incomodavam.
 Lembre-se das andorinhas. No temos vocao para ser 
mitos.
E tocando na raiz de nossa fragilidade, acrescentou:
 Jamais se esqueam de que no  possvel servir a dois 
senhores: ou vendemos sonhos ou nos preocupamos com nossa 
imagem social; ou somos fiis  nossa conscincia ou 
gravitamos na rbita do que os outros pensam e falam de ns.
E mais uma vez nos deu a opo de partir.
 No se preocupem comigo. Vocs j deram muitas 
alegrias a mim e a muitos outros. Aprendi a am-los e admir-
los do jeito que so. No quero colocar em risco a vida de 
vocs.  melhor partirem.
Mas para onde iramos? No conseguamos mais ser 
mortais normais, servos do sistema anulados pela maante 
rotina social, especialistas em reclamar da vida esperando a 
morte chegar. Havamos nos tornado uma famlia incomum. O 
egosmo do passado ainda estava vivo, mas paulatinamente 
dava lugar ao prazer em servir aos outros.
Optamos por ficar. Afinal de contas, se a pessoa mais 
difamada pela reportagem sentia-se livre, por que ns iramos 
nos acorrentar? Durante o dia, sentimos que o tiro saa pela 
culatra. A reportagem, em vez de acabar com o movimento, 
colocou mais combustvel nele. As pessoas no suportavam 
mais noticias sobre assassinatos, acidentes, estupros, furtos. 
Numa megalpole pautada pela mesmice, entediada pela 
escassez de fatos novos, o mestre se tornou um fenmeno 
social.
As pessoas tinham sede de novidade, ainda que fosse 
travestida de loucura. O vendedor de sonhos se tornou tal 
novidade, virou uma celebridade local, justamente o que ele 
mais temia. A partir da, comeou a ser seguido por paparazzi, 
profissionais de planto em busca de notcias que, s vezes, 
difundem sensacionalismo.
Ao tomar cincia de que estava cada vez mais famoso, ele 
meneava a cabea, insatisfeito. Alertava-nos, dizendo:
 Para criar um deus, basta uma dose de carisma e de 
liderana num ambiente de estresse social. Cuidado, o sistema 
d, mas tira, em especial a nossa humanidade.
Eu entendia o que o mestre queria apontar. O povo mais 
culto da terra, o que mais havia conquistado prmios Nobel no 
comeo do sculo XX, entronizou Hitler num perodo de crise 
social. Os tempos de crise so tempos de mutao para o bem 
ou para o mal. Chamando-nos a ateno contra os riscos do 
poder, o mestre comentou:
 A maioria das pessoas est despreparada para assumir 
o poder. O poder faz despertar fantasmas que esto escondidos 
debaixo do manto da humildade: o fantasma do autoritarismo, 
do controle, da chantagem, da necessidade de aplausos.  E 
nos ensinou:  O poder nas mos de um sbio o torna um 
aprendiz, mas mos de um estulto o torna um ditador. Se um 
dia tiverem muito poder, que fantasmas sairo do calabouo 
do seu inconsciente?  nos indagou.
Sua pergunta nos incomodou. Quando assumi a chefia do 
departamento, alguns fantasmas saram do meu calabouo 
psquico e ganharam corpo. Tornei-me duro, inflexvel, 
exigente.
Entendi que no se conhece um ser humano pela doura 
da voz, pela bondade dos gestos ou pela simplicidade das 
vestes, mas to-somente quando se lhe d poder e dinheiro.
O mestre discorria sobre esses complexos assuntos de um 
modo que me intrigava. Ele se vestia como um miservel, mas 
seu falar indicava que no era um professor que ensina algo 
distante da sua realidade. Parecia que havia tido muito poder. 
Mas que poder pode ter tido algum to pobre, sem conta 
bancria, sem casa nem documentos?
Alguns religiosos comearam a ter grande apreo por suas 
idias, mas outros comearam a ficar preocupados com sua 
ascenso. Deus era propriedade deles. Eles eram telogos, 
peritos em divindade. Um miservel que vivia  margem da 
sociedade e que morava debaixo de pontes no tinha gabarito 
para discorrer sobre ele. Alguns religiosos radicais se 
perguntavam: No seria ele um profeta do mal? No seria o 
anticristo que h sculos foi anunciado?. O fato  que ele se 
tornou uma figura emblemtica. Queria passar despercebido, 
mas era impossvel esconder-se.
Alguns comearam a lhe pedir autgrafos nas ruas e 
avenidas. Mas ele os fitava e os surpreendia:
 Como poderei dar autgrafo a algum to ou mais 
importante que eu? Precisaria de dcadas para conhec-lo um 
pouco, compreender alguns pilares da sua inteligncia e 
desvendar alguns fenmenos que tecem sua construo de 
pensamentos. Eu  que me sinto honrado em conhec-lo. Por 
favor, me d voc um autgrafo.
Eles deixavam sua presena pasmos e reflexivos. Alguns 
compravam o sonho de que no existem celebridades e nem 
annimos, mas seres humanos complexos com funes sociais 
distintas.

A superioridade das mulheres
Nos dias que se seguiram, estvamos vivendo um cu de 
brigadeiro. Nenhuma tempestade no ar. Nenhum percalo 
social. Nenhuma rejeio. Desfrutvamos de prestgio, assdio 
e reconhecimento social. Nada mal para quem desafiava o 
poderoso sistema e morava em lugares inspitos. No 
imaginvamos o que viria pela frente.
Quando tudo transcorria em perfeita harmonia, mais uma 
vez o mestre nos assombrou. Convidou-nos para ir ao mais 
charmoso dos templos, o templo da moda, o mundo fashion. 
Estava havendo no lado sul da cidade um requintado desfile de 
renomados estilistas. O poderoso grupo Megasoft novamente 
estava representado pela sua cadeia mundial de roupas 
femininas, chamada La Femme, que administrava mais de dez 
grifes internacionais e tinha duas mil lojas em vinte pases.
Achamos bizarro o convite do mestre. Era um local 
inapropriado para vender sonhos. Afinal de contas, cramos 
que pelo menos nesse ambiente a auto-estima encontrara seu 
melhor meio de cultura. Pensvamos que a auto-imagem, o 
culto ao corpo e o prazer existencial existiam em outros 
guetos, mas no no gingado das passarelas.
O que o mestre almeja num ambiente desses?, 
pensvamos. Que reaes teria? Que atitudes tomaria? A 
quem abordaria?, continuvamos a refletir. Torcamos para 
que ele fosse discreto, no causasse nenhuma turbulncia, mas 
sabamos que isso era quase impossvel.
Entrar no evento j seria um problema. Afinal de contas, 
se no tnhamos conseguido entrar no templo da informtica, 
como entraramos no templo da moda? Nossos trajes eram 
pitorescos, estvamos fora do rigor da moda. Parecamos um 
grupo de pessoas exticas, antiquadas, notadas no pela graa, 
mas pela estranheza. Seramos indubitavelmente rechaados.
O mestre trajava nesse dia um blazer preto desbotado e 
remendado, que ganhara num brech e cuja numerao era 
maior que a sua. Usava cala preta de corte mal definido e 
bolsos traseiros remendados com pano de cor azul. Vestia 
camisa verde-musgo amassada e com algumas manchas de 
caneta esferogrfica preta. Eu usava camiseta plo e cala 
bege que ganhara de um caminhante que reencontrou seus 
sonhos. Todos estvamos desarrumados, mas as vestes do 
Bartolomeu eram as mais engraadas, e, sob alguns ngulos, 
ridculas. Sua cala amarela estava quatro dedos acima do 
tornozelo. Uma viva que morava prximo do Viaduto Europa 
a presenteara. Pertencera ao seu marido. Ele estava feliz com 
ela, pois vivia o ditado a cavalo dado no se olham os 
dentes. A meia do lado esquerdo era azul-marinho e a do lado 
direito, azul-escura. A camiseta branca tinha dizeres 
eloqentes, que retratavam com fidelidade a sua 
personalidade: No me siga! Estou perdido.
Ao penetrar no imenso hall do salo nobre dos desfiles de 
modas e observar atentamente as pessoas muito bem-trajadas, 
o mestre mexeu com nossa estrutura. No fez discursos nem 
criticou o mundo fashion. Comentou com segurana:
 Estou pensando em chamar algumas mulheres para 
vender sonhos, o que acham?
O ninho dos homens abalou-se. ramos um grupo 
extravagante, excntrico, reconhecidamente esdrxulo, mas 
nos acomodvamos. Havia diferenas, mas estvamos nos 
ajustando. Nossas discusses fora dos olhares do mestre eram 
ardentes, mas passveis de superao. Agora, chamar mulheres 
para a nossa confraria parecia um exagero. No daria certo.
Imediatamente ponderei.
 Mulheres, mestre? Acho que  uma m escolha.
 Por qu?  questionou-me.
Antes de eu responder, o Boquinha de Mel felizmente saiu 
em minha defesa:
 Elas no agentaro o tranco. Como dormiro debaixo 
de pontes?
 Que banheiro usaro? Em que espelho se arrumaro? 
 ponderou Salomo. Mas o mestre retrucou:
 Mas quem disse que elas necessitam deixar o prprio 
lar para nos seguir? Afinal de contas, cada ser humano deveria 
vender sonhos no ambiente em que se encontra, seja para si 
mesmo ou para os outros.
Dessa vez, suas palavras no nos aliviaram. No 
admitamos que uma mulher pudesse participar do grupo, 
ainda que parcialmente. Por mais que o mestre tivesse nos 
alertado, depois das batalhas, rejeies e enfrentamentos 
sociais, estvamos envenenados com certa dose de herosmo. 
Sentamo-nos revolucionrios, protagonistas de uma 
experincia sociolgica fantstica. No queramos dividir 
nossas glrias. Infectados pela discriminao, pensvamos que 
as mulheres diminuiriam nossa audcia.
 Segui-lo, mestre,  para... macho, e dos bons. De mais a 
mais, as mulheres falam demais e agem de menos  disse Mo 
de Anjo com convico, quase sem gaguejar. Em seguida 
percebeu sua arrogncia e tentou se desculpar. Havamos nos 
apossado do mestre e de seu projeto. Queramos dar a ele um 
colorido masculino.
Edson tambm no suportou a proposta do mestre. Usou 
seus conhecimentos sobre teologia para dissuadir-lhe as 
intenes.
 Mestre, Buda chamou aprendizes, Confcio teve 
homens como seguidores, Jesus chamou discpulos. Como 
voc quer chamar mulheres para segui-lo? Olhe para a 
histria! No vai dar certo.
Pela primeira vez, o grupo foi unnime em se derreter de 
elogios para o Milagreiro. Comeamos a pensar que poderia 
trazer contribuies interessantes. Todavia, o vendedor de 
idias perguntou contundentemente ao nosso telogo:
 Quando o Mestre dos Mestres chamou seus discpulos, 
onde os colocou, no centro ou na periferia do seu plano?
 No centro.  claro  respondeu sem titubear.
 E as mulheres?  indagou, testando-o.
Edson pensou, refletiu, ps as mos na testa, pois sabia 
que poderia cair em contradio. E, depois de um prolongado 
momento analtico, respondeu com argcia:
 No posso dizer que na periferia, pois elas lhe davam 
suporte material, mas no estavam no centro do trabalho, pois 
no participaram ativamente do seu projeto.
Pensei comigo: Caramba! Achava que Edson tinha uma 
viso curta, mas mais uma vez mordi a lngua.
O mestre novamente olhou para ele e depois para todos 
ns.
 Errado  disse ele, e permaneceu em silncio.
Por eu ter estudado como socilogo os textos 
considerados sagrados, achava que Edson estava certo. 
Aguardava os argumentos do mestre, desconfiado de que dessa 
vez no nos convencesse.
 Elas sempre estiveram no centro do seu projeto. Em 
primeiro lugar, segundo as Escrituras, Deus no escolheu uma 
casta de fariseus, de sacerdotes ou de filsofos gregos para 
educar o Menino Jesus, mas uma mulher, uma adolescente no 
contaminada com o sistema masculino vigente.
Coamos a cabea diante da bomba.
 Em segundo lugar, a primeira pessoa a anunci-lo na 
palestina foi uma mulher, a mulher samaritana. Ela viveu uma 
vida promscua, teve muitos homens, mas as palavras dele 
saciaram sua sede interior. Determinada, reuniu seu povo e 
falou do homem que a comovera.  Aps dizer essas palavras, 
ele parou para respirar e nos tirou o flego dizendo:  Uma 
prostituta foi mais nobre que os lderes religiosos do seu 
tempo.
Bartolomeu soltou uma frase que quebrou o tenso clima 
que pesava sobre os homens. No sei onde encontrava tanta 
imaginao:
 Chefinho, sempre achei que as mulheres so mais 
inteligentes que os homens, o problema  que inventaram o 
carto de crdito...  E caiu na risada. Dera a entender 
ironicamente que era ele que sustentava as mulheres que j 
tivera. Na realidade, elas o tinham sustentado.
O mestre, no contente com nossa masculinidade 
preconceituosa, investiu ainda mais. Perguntou novamente 
para o nosso telogo de planto:
 Diga-me, Edson. No momento mais importante da vida 
de Jesus, quando seu corpo tremia na cruz e seu corao 
claudicava, onde estavam os homens, no centro ou na periferia 
do seu plano?
Edson, sem cor, demorou a responder. E ns ficamos 
rubros. Diante do silncio, o mestre reagiu:
 Seus discpulos eram heris quando ele abalava o 
mundo, mas foram covardes quando o mundo desabava sobre 
ele: calaram-se, fugiram, negaram, traram. Mas mesmo assim, 
ele os amou. Os homens so mais tmidos do que as mulheres. 
Num mpeto sociolgico, retruquei-lhe:
 Mas eles no fazem guerras? No empunham armas? 
No fazem revolues?
Porm, a resposta veio sem titubear:
 Os fracos usam as armas; os fortes, o dilogo.  Em 
seguida, fez a pergunta que mais temamos:
 Onde estavam as mulheres quando ele morria?
Sem muito entusiasmo, ns, que conhecamos o texto, 
dissemos:
 Prximas da cruz.
 Mais que isso, estavam no epicentro do seu projeto. E 
sabem por qu? Porque as mulheres so mais fortes, 
inteligentes, sensveis, humanas, generosas, altrustas, 
solidrias, tolerantes, companheiras, fiis, sensatas, do que os 
homens. Basta dizer que noventa por cento dos crimes 
violentos so cometidos por homens.
Ficamos abalados com tantos adjetivos a favor delas. O 
mestre no parecia feminista, nem parecia estar querendo 
atirar palavras ao ar tentando compensar milnios de 
discriminao contra as mulheres. Parecia estar convicto do 
que pensava.
Para ele, o sistema que controlava a humanidade foi 
concebido nas entranhas da mente masculina, embora seus 
criadores no imaginassem que um dia se tornariam vtimas 
da sua prpria criatura. As mulheres precisavam entrar em 
cena e, com sua graa e coragem, vender sonhos, muitos 
sonhos.

O templo da moda, um sorriso no caos
Depois de mostrar que o mais culto dos discpulos de 
Jesus, Judas, o traiu, o mais forte deles, Pedro, o negou, e o 
resto do bando,  exceo do Joo, debandou  enfim, depois 
de demonstrar a fragilidade masculina e a grandeza feminina, 
revelou por que estava no templo da moda. Comeou tecendo 
algumas informaes conhecidas nos meios sociolgicos, mas 
desconhecidas de alguns dos membros que o tinham seguido.
Disse que no passado o sistema masculino considerara as 
mulheres uma classe inferior, amordaara-as, queimara-as, 
apedrejara-as. Com o tempo, elas se libertaram, resgataram 
parcialmente seus direitos. Fez uma pausa nas suas idias e 
citou o nmero um. Fiquei inquieto com a citao numrica 
no meio do dilogo. J havia visto esse filme.
O mestre comentou que as mulheres comearam a votar, 
brilhar no mundo acadmico, crescer no mundo corporativo, 
ocupar espaos nos mais diversos territrios sociais; as 
mulheres tornaram-se cada vez mais ousadas. Com eficincia, 
comearam a mudar algumas reas vitais da sociedade, a 
introduzir tolerncia, solidariedade, companheirismo, afeto e 
romantismo. Mas o sistema no as perdoou pela audcia.
Preparou para elas a mais cafajeste e sorrateira das 
armadilhas. Em vez de exaltar sua inteligncia e notria 
sensibilidade, comeou a exaltar o corpo da mulher como 
nunca na histria. Usou-o exaustivamente para vender 
produtos e servios. Aparentemente elas sentiram-se bem-
aventuradas. Parecia que as sociedades modernas estavam 
querendo compensar milnios de rejeio. Ingnuo 
pensamento. O mestre fez uma pausa para respirar.
Fitando o imenso e colorido templo da moda, ele ficou 
indignado e em voz alta comeou a convidar as pessoas para 
falar sobre a ltima moda. Nada poderia ser to estranho para 
algum com suas vestes. Mas, como o mundo fashion  
verstil, pensaram que representssemos um estilista rebelde 
s convenes. Ficamos inibidos em ver pessoas to bem-
vestidas comearem a nos rodear. Algumas delas o 
identificaram.
Rapidamente, ele comeou a discorrer sobre suas 
polmicas idias:
 Quando as mulheres se sentiam no trono do sistema 
masculino, o mundo da moda as aprisionou no mais grave e 
sutil esteretipo!  E citou o nmero dois, profundamente 
triste.
Eu no sabia aonde o semeador de idias queria chegar. 
Sabia que os esteretipos so um problema sociolgico. O 
esteretipo do louco, do drogado, do poltico corrupto, do 
socialista, do burgus, do judeu, do terrorista, do 
homossexual. Usamos os esteretipos como um padro torpe 
para tachar as pessoas com determinados comportamentos. 
No avaliamos o contedo psquico delas: se possuem 
determinados gestos, imediatamente as aprisionamos na 
masmorra do esteretipo, classificando-as como viciadas em 
drogas, corruptas, doentes mentais. Os esteretipos reduzem a 
dimenso humana.
Mas o que o mundo belssimo da moda tem a ver com os 
esteretipos? As mulheres eram livres para vestir o que 
quisessem, comprar as roupas que bem entendessem e ter o 
corpo que desejassem. Eu no entendia por que tamanha 
preocupao do mestre. Entretanto,  medida que ele expunha 
seu pensamento, fiquei impressionado.
O esteretipo do belo, no mundo da moda, comeou a ser 
formado pela exceo gentica. Que desastre! Que injustia!
Bartolomeu estava boiando at esse momento.
 Chefinho,  caro esse esteretipo?  perguntou, 
pensando que era um tipo de roupa. O mestre disse-lhe:
 As implicaes so carssimas.  E explicou: - Para 
maximizar as vendas e gerar uma atrao fatal entre as 
mulheres, o mundo fashion comeou a usar o corpo de jovens 
completamente fora do padro comum como prottipo de 
beleza. Uma entre dez mil jovens de corpo magrrimo e fcies, 
quadris, nariz, busto e pescoo estritamente bem-torneados 
tornou-se ao longo dos anos o esteretipo do belo. Que 
conseqncias no inconsciente coletivo!
As pessoas se aglomeravam cada vez mais. Depois de uma 
breve pausa, ele continuou:
 A exceo gentica virou a regra. As crianas 
transportaram as bonecas Barbies com seu corpo impecvel 
para o teatro da vida, e as adolescentes transformaram as 
modelos em um padro de beleza inalcanvel. Esse processo 
gerou, em centenas de milhes de mulheres, uma busca 
compulsiva do esteretipo, como se fosse uma droga. Elas, que 
sempre foram mais generosas e solidrias que os homens, se 
tornaram, sem perceber, carrascas de si mesmas. At as 
chinesas e japonesas esto mutilando sua anatomia para se 
aproximar da beleza das modelos ocidentais. Sabiam disso?
Eu no tinha essa informao, mas como ele a tinha? 
Como pode algum completamente fora de moda estar to 
informado sobre ela? De repente, ele interrompeu meus 
pensamentos citando, consternado, o nmero trs.
E continuou dizendo que tal modelo penetrara como uma 
bomba silenciosa no inconsciente coletivo, implodindo a 
autoimagem, causando um terrorismo contra a auto-estima, 
algo jamais visto na histria. No passado, os esteretipos no 
tinham graves conseqncias coletivas porque ainda no 
ramos uma aldeia global. Quando as mulheres pensavam que 
estavam voando livremente, o sistema tosou-lhes as asas com 
a sndrome da Barbie.
Um estilista o interpelou tensamente:
 Isso  folclore. Discordo de suas idias.
 Gostaria que fosse. Quem dera minhas idias fossem 
tolas.  E citou o nmero quatro.
Nesse momento, uma jovem perguntou, incomodada:
 Por que cita nmeros enquanto fala?
O mestre olhou para mim e fez quinze segundos de 
silncio. Parecia que estava sendo arrebatado para os recantos 
da sociedade e penetrado como um raio no mago de muitas 
famlias que estavam perdendo seus filhas e filhos. Com os 
olhos embebidos em lgrimas, retornou dessa viagem e disse a 
todos:
 Lcia, uma jovem tmida, mas verstil, criativa, 
excelente aluna, est com 34 quilos, embora tenha 1,66 metro 
de altura. Seus ossos saltam sob a pele, formando uma imagem 
repulsiva, mas ela se recusa a comer com medo de engordar. 
Mrcia, uma jovem sorridente, extrovertida, uma menina 
encantadora, est com 35 quilos e tem 1,60 metro de altura. 
Sua face cadavrica leva seus pais e amigos ao pice do 
desespero, mas ela do mesmo modo se recusa a se alimentar. 
Bernadete est com 43 quilos e mede 1,70 metro de altura. 
Gostava de conversar com todo mundo, mas se isolou do 
namorado, dos amigos e do bate-papo na internet. Rafaela pesa 
48 quilos e mede 1,83 metro. Jogava vlei, gostava de ir  
praia e correr sobre a areia, mas agora est morrendo de 
inanio.
Fez mais uma pausa, olhou atentamente a platia e disse:
 Durante minha fala, quatro jovens desenvolveram 
anorexia nervosa. Algumas superam seus transtornos, outras o 
perpetuam. E se vocs perguntarem a elas por que no comem, 
ouviro: Porque estamos obesas. Bilhes de clulas suplicam 
que se alimentem, mas elas no tm compaixo do seu corpo, 
que no tem fora para fazer exerccios fsicos nem para 
andar. O desespero para alcanar o esteretipo do belo f-las 
adoecer profundamente e estancou o que jamais conseguimos 
estancar naturalmente: o instinto da fome.
E comentou que, se essas pessoas vivessem em tribos 
onde o esteretipo no tivesse um peso intenso, no 
adoeceriam. Mas vivem na sociedade moderna, que no apenas 
difunde a magreza insana, mas supervaloriza determinado tipo 
de olhos, pescoo, busto, quadris, o tamanho do nariz  
enfim, um mundo que exclui e discrimina quem est fora do 
modelo. E o pior  que tudo isso  feito sutilmente. E 
enfatizou:
 No nego que possa haver causas metablicas para os 
transtornos alimentares, mas as causas sociais so inegveis e 
indesculpveis. H cinqenta milhes de pessoas com anorexia 
nervosa no mundo, um nmero que nos remete s propores 
do nmero de mortos da Segunda Guerra Mundial.
De repente, o mestre perdeu a sobriedade, deixou o tom 
ameno e, como se fosse um psictico, subiu em cima de uma 
poltrona que estava ao seu lado e bradou alto e bom som:
 O sistema social  astuto, grita quando precisa se calar 
e se cala quando precisa gritar. Nada contra as modelos e os 
inteligentes e criativos estilistas, mas o sistema se esqueceu 
de gritar que a beleza no pode ser padronizada.
Vrias pessoas, inclusive modelos internacionais e 
estilistas famosos que passavam por ali, tambm eram atrados 
pelo homem excntrico que alardeava suas idias. J havia 
pessoas em diversas sociedades lutando contra essa 
discriminao, mas a luta era tmida perante a 
monstruosidade do sistema. O mestre nem sempre era dcil e 
paciente. Em algumas situaes, mostrava um ar de irritao e 
inconformismo. Embriagado com o clice da indignao, usou 
mais uma vez seu felino mtodo socrtico:
 Onde esto as gordinhas nos desfiles? Onde esto as 
jovens com quadris menos bem-torneados? Onde esto as 
mulheres de nariz saliente? Por que neste templo se escondem 
as jovens com culotes ou estrias? No so elas seres humanos? 
No so elas belas? Por que o mundo as ignora? Por que o que 
surgiu para promover o bem-estar, est destruindo a auto-
estima das mulheres? Essa discriminao socialmente aceita 
no  um estupro da auto-estima? No  to violenta quanto a 
discriminao contra os negros?
Ao ouvir esse questionamento, eu comeara a ter asco do 
sistema. Todavia, quando o mestre havia nos conduzido ao 
auge da reflexo, apareceu Bartolomeu para novamente 
quebrar o clima. Levantou as mos e com a maior 
descaramento tentou referendar o mestre:
 Chefinho, concordo com voc. No discrimino as 
mulheres. J namorei cada assombrao!
A platia no se conteve com sua irreverncia. Mas ns 
estvamos apreensivos, to aflitos que olhamos para o 
incontrolvel discpulo e dissemos uma frase que havia se 
tornado parte do nosso patrimnio cultural:
 Finja que voc  normal, Bartolomeu!
As pessoas ficaram embaraadas com as idias do mestre. 
Algumas, boquiabertas e encantadas, outras, odiando essas 
idias at a ltima fibra do tecido que usavam. Os paparazzi 
comearam a tirar fotos e mais fotos. Estavam ansiosos para 
noticiar o escndalo do ano.
Aps ouvir a platia irromper em sorrisos pela frase do 
discpulo viciado em fazer perguntas e dar opinies, o mestre 
diminui o tom de voz e fez alguns pedidos emocionados:
 Rogo aos inteligentes estilistas que amem as mulheres, 
todas elas, que invistam na sade psquica delas no 
utilizando apenas a exceo gentica para expressar sua arte. 
Podero perder dinheiro, mas tero ganhos insondveis. 
Vendam o sonho de que toda mulher tem uma beleza nica.
Algumas pessoas o aplaudiram, inclusive trs modelos 
internacionais que estavam do meu lado direito. Mais tarde, 
ficamos sabendo que as modelos eram expostas a diversos 
transtornos psquicos. Elas tinham dez vezes mais chances de 
ter anorexia do que a populao em geral. O sistema as 
entronizava e, ao mesmo tempo, as encarcerava. Em pouco 
tempo, eram descartadas.
Trs pessoas o vaiaram. Uma delas jogou uma garrafa 
plstica de gua no seu rosto, abrindo-lhe o superclio 
esquerdo, produzindo um evidente sangramento. Pegamos no 
seu brao e queramos que interrompesse sua fala, mas ele no 
se intimidou. Limpando o sangue com um velho leno, pediu 
silncio e continuou. Pensei comigo: H muitas pessoas que 
escondem o que pensam debaixo do manto da sua imagem 
social; eis que sigo um homem que  fiel a suas idias. Em 
seguida ele fez uma proposta que nos deixou arrepiados:
 Noventa e sete por cento das mulheres, em algumas 
sociedades modernas, no se vem belas. Por isso, em cada 
loja de roupa e em cada etiqueta deveria haver uma tarja 
semelhante  da advertncia contra o cigarro com frases como 
esta: Toda mulher  bela. A beleza no pode ser padronizada.
Essas palavras tiveram grande destaque na mdia. No 
exato momento da proposta, um jornalista o fotografou em um 
ngulo que pegou a metade superior do seu corpo e, no fundo, 
a logomarca da cadeia internacional de roupas do grupo 
Megasoft.
Ao ouvir suas idias, eu no conseguia deixar de fazer a 
velha pergunta para mim mesmo: Quem  esse homem que 
faz propostas revolucionrias? De onde provm seu 
conhecimento?. Em conversas reservadas, ele nos dizia que, 
um sculo aps Abraham Lincoln ter libertado os escravos, 
Martin Luther King estava nas ruas das grandes cidades 
americanas lutando contra a discriminao. A discriminao 
demora horas para ser construda, mas sculos para ser 
destruda.
Foi incisivo ao afirmar para os presentes que os 
fenmenos fundamentais da existncia jamais poderiam ser 
padronizados. Sexo, o sabor dos alimentos, o apetite, a arte, 
bem como a beleza, no poderiam ser classificados.
 Qual  a freqncia normal das relaes sexuais? Todos 
os dias? Uma vez por semana? Uma vez por ms? Qualquer 
classificao geraria graves distores. O que  normal, seno 
aquilo que satisfaz a cada ser humano? O que satisfaz seno 
aquilo que  suficiente?
Uma belssima modelo internacional, chamada Mnica, 
profundamente tocada com seu discurso, o interrompeu e teve 
a ousadia de dizer publicamente:
 Eu s sabia desfilar, desfilar. Meu mundo eram as 
passarelas. Fui fotografada pelos melhores fotgrafos 
internacionais. Meu corpo foi estampado nas principais capas 
de revistas. Fui atirada ao alto pelo mundo fashion, mas o 
mesmo mundo que me exaltou me expeliu quando ganhei 
cinco quilos. Hoje tenho bulimia. Ingiro alimentos 
compulsivamente, em seguida sofro uma descarga de 
sentimento de culpa e ansiedade e, por fim, provoco vmitos. 
Minha vida  um inferno. No consigo sentir o sabor dos 
alimentos. No sei mais quem sou nem o que amo. J tentei 
trs vezes o suicdio.
No havia lgrimas em seus olhos, pois elas tinham se 
esgotado. O mestre, ao observar o sofrimento da modelo, 
respirou profundamente duas vezes. Sentiu que era necessrio 
se calar, percebeu que a experincia de Mnica era mais 
eloqente que as suas palavras. Mas antes queria v-la sorrir. 
Saiu do estado da reflexo para o do humor. Relaxado, 
solicitou:
 Quando as mulheres esto diante do espelho, dizem 
uma famosa frase, ainda que sem conscincia. Qual ?  As 
mulheres responderam coletivamente: Espelho, espelho meu, 
existe algum mais bonita do que eu?. No! Elas dizem assim: 
Espelho, espelho meu, existe algum com mais defeitos do 
que eu?.
A multido sorriu. Mnica deu uma bela gargalhada; fazia 
cinco anos que no ria desse modo. Era o que ele desejava: 
vender-lhe o sonho da alegria. Foi um ensaio sociolgico 
admirvel. Foi a primeira vez que vi o bom humor florir no 
caos.
Bartolomeu se aproximou do mestre e disse:
 Chefinho, no vejo defeito em mim quando me olho no 
espelho. Ser que tenho problema?
 No, Bartolomeu. Voc  lindo. Olhe seus amigos. No 
somos maravilhosos?
Boquinha de Mel deu uma olhada geral no grupo de 
discpulos.
 Chefinho, no force a barra. A famlia  meio 
desarrumada.
Demos risadas e samos. Nunca nos sentimos to belos, 
pelo menos aos nossos olhos.

Chamando uma modelo e uma revolucionria
Durante a sada do mestre, Mnica nos acompanhou, e l 
fora expressou um profundo agradecimento. Deu-lhe um 
abrao afetuoso e um beijo no rosto. Morremos de inveja.
O mestre olhou para ela e inesperadamente tomou a mais 
fantstica atitude:
 Mnica, voc brilhou nas passarelas da moda, mas eu a 
convido para desfilar em outra passarela, mais difcil de 
transitar, mais complexa de se equilibrar, mas mais 
interessante de viver. Eu a convido para vender sonhos 
conosco.
Mnica ficou perplexa, sem saber o que responder. J 
havia lido algumas matrias sobre o enigmtico homem que 
lhe fizera o convite, mas no tinha nenhuma segurana de 
onde estaria pisando. Ao ouvir o chamamento da encantadora 
modelo, ns, que havamos rejeitado a entrada das mulheres 
no time, ficamos animadssimos. Mudamos nossa posio. 
Imediatamente concordamos com o mestre que as mulheres 
no apenas so mais inteligentes que os homens, mas tambm 
muito mais bonitas.
Vendo-nos entusiasmados, o mestre se retirou. Foi 
conversar com uma pessoa que estava a cerca de vinte metros 
do grupo. Coube a ns explicar para a novata o mundo 
fascinante dos sonhos. Sem dvida a convenceremos, 
pensamos. Explicamos, explicamos e demos mais e mais 
explicaes. Parecamos um bando de cachorros vira-latas na 
poca do cio.
Vendo que Mnica no se entusiasmara, o Milagreiro se 
retirou para orar. No queria cair em tentao. Mo de Anjo 
estava eufrico, no conseguia articular as palavras, mas 
tentou fazer uma poesia para atrair a modelo. Disse:
 Uma vida sem.... s... sonhos ... ... como um inverno 
sem... neve, um oceano sem... sem... ondas.  Achou que 
estava abafando, mas a estava sufocando.
Mnica nunca vira um bando de lunticos como aquele, 
sujos, malvestidos, esquisitos, querendo cativ-la a qualquer 
custo. Suas dvidas aumentaram. Afinal de contas, parecamos 
um enxame de abelhas rodeando uma rainha. Enquanto 
falvamos, Mnica olhou levemente de lado e observou vrias 
vezes o mestre ouvindo atentamente a pessoa que com ele 
conversava. Depois de meia hora de conversa, a modelo 
parecia estar querendo cair fora. Infelizmente, o Boquinha de 
Mel entrou em ao:
 Mnica querida, vender sonhos  a experincia mais 
maluca que j vivi. Nem quando estava curtido na vodca 
delirava tanto - falou, assustando a moa e dando mais uma 
vez um tremendo fora. Temendo as conseqncias das suas 
palavras, novamente o repreendemos.
 Finja que voc  normal, Bartolomeu!
Mas ele no sabia dissimular; era o que era. Entretanto, 
algo inesperado aconteceu. Enquanto falvamos das 
maravilhas de vender sonhos, Mnica rejeitou o caminho, mas 
quando Bartolomeu falou da loucura do projeto, ela se animou. 
Queria algo mais excitante que o mundo das passarelas. Ficou 
pensativa, mas no havia ainda decidido fazer a experincia 
sociolgica.
Em seguida o mestre apareceu. Mnica o interpelou:
 Mestre, conheo o homem com quem voc conversava.
 Que bom! Ele  uma pessoa fascinante  disse ele 
efusivamente.
 Ele  surdo-mudo e no sabe a libras  comentou a 
modelo, desconfiando da sabedoria do mestre. Se o surdo no 
sabia a linguagem brasileira dos sinais, no era possvel que se 
comunicasse. Ficamos calados. Depois de sua afirmao, era 
previsvel que no o seguiria.
 Eu sei  respondeu o mestre.  Por isso raramente 
algum d ateno para ele e rompe o claustro da sua solido. 
Eu ouvi o que as palavras no disseram. Voc j gastou tempo 
perscrutando-o?  Ela emudeceu como o surdo. Ele se retirou, 
deixando-a maravilhada.
Mnica foi impelida a percorrer a jornada, a fazer a 
experincia de segui-lo, mas, a pedido do mestre, dormiria em 
casa. No sabia sobre as noites de insnia que a aguardavam.
No dia seguinte, o homem que seguamos estava 
estampado no apenas no jornal do grupo de comunicao 
Megasoft, mas tambm nos principais jornais da cidade. At 
nos noticirios televisivos. Suas idias causavam um enorme 
impacto. Alguns jornais j o chamavam pelo nome de que ele 
gostava: Vendedor de Sonhos. Diziam que ele havia virado de 
cabea para baixo o mundo fashion.
Alguns jornalistas, hiperpreocupados com a imploso da 
auto-imagem na juventude descrita por ele, falaram sobre a 
sndrome de Barbie e concluram coisas que extrapolavam o 
que ele dissera. Disseram que ele bradara aos quatros ventos 
que muitas adolescentes pareciam um bando de maluquinhas 
por estarem sempre insatisfeitas com a anatomia do seu 
corpo, por sempre acharem um defeito na face e por se 
tornarem especialistas em reclamar continuamente que as 
roupas no lhes caam bem.
Jovens que no gostavam de ler jornais sentiram-se 
despertados pela matria. Alguns a levaram para a escola, e ela 
passou de mo em mo. Muitos meninos e meninas, ao lerem o 
texto jornalstico, relaxaram, pois estavam to agoniados com 
os defeitos anatmicos que enxergavam em si mesmos que 
comearam a dar risada da sua parania. Sentiram que a 
matria abordava conflitos quase intocveis na escola. A partir 
da o mpeto brigante de alguns jovens comeou a despertar. 
Comearam a criticar o sistema social e desejaram conhecer 
de perto as idias desse misterioso vendedor de sonhos.
Mnica nos encontrou na tarde desse dia e comentou a 
repercusso da matria em seu meio. Disse que alguns 
estilistas amigos seus e algumas lojas tinham comprado as 
idias do mestre e comeariam a propagandear que a beleza 
no poderia ser padronizada, pelo menos no macia e 
intensamente.
Ao ver a modelo mais entusiasmada, resolvemos contar a 
ela as inmeras aventuras que tivramos nos ltimos meses. 
Ela ficou embasbacada. Nunca vira tanta adrenalina num grupo 
to incomum. Uma semana depois desses fatos, o mestre 
novamente se reuniu conosco e colocou em pauta o desejo de 
chamar mais uma mulher para o projeto.
Considerando a portentosa anatomia de Mnica, 
achvamos que ele poderia chamar no mais uma, mas duas, 
trs ou dez mulheres. Como mudamos de opinio!, pensei. 
Eu, que sempre criticara os polticos que num dia eram 
inimigos ferrenhos uns dos outros e noutro, amigos fraternos, 
comecei a perceber que essa flutuao era uma doena 
inerente ao psiquismo humano, em especial o dos machos. S 
dependia do nvel de interesse em jogo. Nuns a flutuao era 
visvel, noutros, era submersa.
Aps o mestre colocar o seu desejo, olhou para o alto e 
depois para os lados, colocou as mos no queixo e comeou a 
se afastar de ns. Estava pensativo. Perguntava baixinho para 
si mesmo, mas ainda de maneira audvel:
 Que mulher chamarei? Com que caractersticas?
O mestre estava a vinte metros de distncia do grupo, 
andando em crculos no saguo de um shopping em que nos 
encontrvamos. De repente, quando estvamos felicssimos 
com a proposta da entrada de mais mulheres para o grupo, 
apareceu uma senhora idosa e deu uma bengalada suave na 
cabea do Boquinha de Mel. Era dona Jurema.
Ela brincou conosco, dizendo:
 Como esto, filhos?!
 Tudo bem, dona Jurema. Que bom rev-la!  dissemos 
com educao.
Em seguida, o grupo dos homens olhou para o pensativo 
mestre e depois para a velhinha e teve o mesmo e terrvel 
insight:  melhor afastar a velhinha rapidssimo, porque ela 
pode estar na linha de fogo para ser chamada.
De repente, o mestre, com o olhar voltado para a calada 
do lado oposto em que estvamos, soltou a voz, dizendo para 
si mesmo novamente:
 A quem vou chamar?  Sentimos um calafrio na 
espinha. Tentamos esconder dona Jurema. Precisvamos nos 
desfazer dela.
 O sol est... escaldante. A senhora pode se desidratar, 
est suando. V para... casa  disse Dimas, o manipulador de 
coraes, tentando no gaguejar. Mas ela insistia em ficar.
 O tempo est timo, meu filho  disse com segurana. 
Temendo que o mestre se aproximasse, Edson pegou 
delicadamente no brao dela e a afastou da linha de fogo.
 A senhora parece muito cansada. Nessa idade  preciso 
repousar.
 Sinto-me tima, meu filho. Mas obrigada pela sua 
preocupao  agradeceu dona Jurema.
Eu tambm fiz minhas tentativas. Tentei lembr-la de 
algo que pudesse ter esquecido: um compromisso, uma visita 
para fazer, uma conta para pagar. Mas nada. Ela me disse que 
estava tudo em dia.
Monica no entendia nossa preocupao com dona 
Jurema. Achou-nos solidrios demais, um tanto artificiais. 
Bartolomeu, que sempre fora o mais honesto de todos ns, deu 
mais uma derrapada. Vendo que ela no tomava o rumo de 
casa, apelou. Eriou a sobrancelha e lhe disse:
 Querida, linda e maravilhosa Jureminha.  Ao ver o 
carinho do Boquinha de Mel, ela se derreteu. Tremulou os 
clios.
Vendo que a cativara, ele se empolgou. Disse uma asneira: 
 Sinto dizer-lhe que voc est vermelha como um peru. Acho 
que vai enfartar. V urgente para um hospital.
Salomo tentou, como outrora eu fizera, tapar a bocarra 
de Bartolomeu, mas no deu tempo. Porm, dona Jurema fez 
melhor. Puxou o pescoo dele com a bengala e lhe disse uma 
frase que acabou tambm se tornando patrimnio cultural do 
bando:
 Bartolomeu, de boca fechada voc  insubstituvel. 
Morremos de rir. Mas dona Jurema ficou incomodada, 
percebeu que escondamos algo. Para mostrar seu imenso 
vigor, embora tivesse mais de oitenta anos e sua memria 
estivesse um pouco afetada devido ao incio da doena de 
Alzheimer, fez algumas flexes e nos pediu para acompanh-la, 
mas no conseguamos. Deu uns saltos de bale clssico e nos 
pediu para repeti-los. Demos vexames: atabalhoados, quase 
camos. Estvamos enferrujados. Ela afirmou:
 Vocs so uns velhotes. Estou novssima! Minha sade 
 tima! Cad o guru?
Guru? Pensei. O vendedor de sonhos no gostava nem de 
ser chamado de mestre, quanto mais guru. Dissemos que ele 
estava com problemas, tinha um compromisso, no podia 
falar-lhe agora. Tentamos esconder a imagem do mestre, mas 
ela o procurava entre um corpo e outro. Nesse momento, 
Monica j tinha desvendado a farsa. Descobriu que ramos 
uma turma de endiabrados com pequenas possibilidades de 
redeno. Estvamos num rduo processo de transformao.
Dona Jurema gritou mais alto ainda:
 Cad o guru?
De repente, ouvimos o vozeiro do mestre, que fez tremer 
nossa musculatura:
 Que bom rev-la, magnfica senhora.  Em seguida fez 
o que mais temamos:  Eu a convido para vender sonhos!
Monica se esborrachou de rir, e ns nos atolamos de 
apreenso. No sabamos onde enfiar a cara. Entramos numa 
rida zona de desconforto, aprisionados em nossos conceitos. 
Samos de lado e comeamos a cochichar, indagando uns aos 
outros: O que a sociedade ir pensar de ns, um bando de 
excntricos seguido por uma senhora idosa? Vai ser cmico. 
Seremos motivo de piada at nos jornais. Como ser conviver 
com ela? Ela deve ser lenta demais. Esper-la no ser um 
tormento? E o cheiro dela? Ser que ela usa dentadura? E a 
flatulncia, quem suportar? J no bastam os gases do 
Bartolomeu?.
Depois da silenciosa conferncia da confraria, sentimos 
que a experincia sociolgica iria sofrer uma grave decadncia. 
O mestre observava pacientemente nossa insanidade. Dona 
Jurema conversava com Monica. Ela no entendera o 
chamamento do mestre. Monica ensaiava explicar, mas ainda 
era novata, estava confusa. No sabia que com a caminhada 
ficaria mais confusa ainda.
Dona Jurema, honesta, nos chamou  parte e disse-nos:
 Eu nunca vendi nada. Que tipo de produto  esse?
O mestre foi conversar com Mnica e deixou-nos livres 
para explicar para ela o projeto. Tivemos, assim, uma 
oportunidade de ouro para desanimar a velhota. C com meus 
pensamentos, fiquei imaginando se o mestre no tinha visto 
dona Jurema primeiro que ns e no estava mais uma vez nos 
testando, procurando desvendar as artimanhas e sutilezas da 
nossa mente.
Tivramos uma experincia fantstica no asilo, 
descobrramos a grandeza dos idosos, mas insistamos em 
carregar o preconceito contra eles. Estvamos convictos de 
que a velhinha no acompanharia a movimentao do grupo, 
diminuiria seu status, debelaria seu mpeto revolucionrio. 
Pensvamos que, com ela, o mestre teria de ser mais brando, 
conteria a fora das suas idias.
Falamos honestamente com dona Jurema sobre a 
aventura dos sonhos. Afinal de contas, mesmo quando nossos 
interesses eram contrariados, estvamos aprendendo a ser 
transparentes. Mas, para dissuadi-la, enfatizamos os perigos 
que atravessvamos, as calnias, as difamaes, as feridas, o 
espancamento vivido pelo mestre.
Ela nos ouviu atentamente. Respondia sempre: Hum!. 
Arrumava os cabelos brancos, como se quisesse massagear o 
crebro inquieto. Tnhamos certeza de que a estvamos 
deixando mais insegura do que j era. Salomo fazia os rituais 
mais esquisitos que j expressara. Anunciando maus 
pressgios, fazia o sinal-da-cruz vrias vezes. Mergulhava o 
pescoo no ar e dizia:
 To ficando arrepiado de tanto medo dos perigos.
Fiz sinal para que Bartolomeu ficasse quieto dessa vez, 
porque estvamos indo bem. Mas, sem pensar duas vezes, ele 
disse:
  muito arriscado seguir esse homem, Jureminha.  E 
usando uma voz trmula, como nos filmes de terror, 
acrescentou:  Podemos ser presos! H risco de morrermos! 
Podemos ser seqestrados, agredidos, torturados.
Sentimos que dessa vez ele foi mais apropriado, sem 
saber que quanto mais passasse o tempo mais essas palavras 
se tornariam uma espcie de profecia. Dona Jurema arregalou 
o olho direito, fechou o esquerdo, parecendo abismada sob as 
labaredas do pavor. Quando estvamos convictos de que 
desistiria, foi ela que nos assustou:
 Fantstico!  Entreolhamo-nos, sem entender a 
expresso.
 Fantstico o qu, dona Jurema?  perguntei, 
curiosssimo, pensando que devido a algum comprometimento 
cerebral ela no entendera quase nada do que falvamos. Mas, 
para nossa surpresa, ela enfatizou:
 Tudo o que vocs me disseram  fantstico. Eu topo ser 
uma caminhante, aceito entrar no grupo! Sempre fui 
revolucionria como aluna, e depois como professora 
universitria, mas fui castrada, dominada pelo sistema 
educacional. Tinha de seguir uma agenda de que discordava, 
um contedo programtico que no formava pensadores.
Nossa confraria ficou abalada. No conseguamos respirar. 
J no bastava a misteriosa identidade do mestre, agora 
estvamos diante uma senhora carregada de segredos. Alguns 
de ns fungamos, perturbados com a personagem. Eu tentava 
conter o suor do rosto. Ela, mostrando uma lucidez invejvel, 
acrescentou:
 Sempre quis vender sonhos, instigar mentes, mas fui 
silenciada. Aborreo-me diariamente ao constatar que a 
sociedade atual possuiu um rolo compressor que massifica o 
intelecto dos jovens, aborta o pensamento crtico e os torna 
estreis, meros repetidores de dados. O que fizeram com 
nossas crianas? , indagou, indignada.
Perguntei-lhe qual era seu nome inteiro.
 Jurema Alcntara de Mello  disse com simplicidade. 
Aps ouvir seu nome, afastei um pouco, mais chocado ainda 
do que j estava. Descobri, ento, que dona Jurema era uma 
antroploga de renome e fora uma professora universitria de 
altssimo nvel. Fizera inclusive ps-doutorado em Harvard. 
Tinha reconhecimento internacional. Escrevera cinco livros 
em sua rea, que foram publicados em diversas lnguas.
Recostei-me no poste que estava ao meu lado. Recordei 
que j lera diversos artigos que ela escrevera, inclusive todos 
os seus livros. Ela tinha sido muito importante na minha 
formao. Admirava seu raciocnio esquemtico e a sua 
ousadia. Mas minutos atrs eu queria exclu-la do ninho. 
Miservel preconceito! Quem me livrar desse cncer 
intelectual!, pensei intimamente. Sonho em ser uma pessoa 
aberta e desprendida, mas sou incontrolavelmente resistente.
Revelando uma sintonia fina com o mestre, a professora 
Jurema comentou que as sociedades, apesar das excees, 
haviam se tornado canteiros de mentes conformistas, que no 
se inquietam diante da complexidade da existncia, sem 
grandes ideais, que no questionam quem so. E arrematou 
dizendo:
 Precisamos instigar a inteligncia das pessoas.
Meu mestre sorriu, feliz da vida. Deve ter pensado: 
Acertei na mosca. Dona Jurema era mais revolucionria que 
todos ns. Com o avano da idade, ficara mais turbinada. 
Todavia, logo que aceitou caminhar conosco, comearam os 
problemas. Como era idosa e dotada de notvel coragem, no 
tinha papas na lngua. Comeou a ter atitudes que Mnica no 
teve. Chegou diante do mestre e, com a maior segurana, lhe 
deu uma chacoalhada, e alm disso criticou o comportamento 
do grupo:
 Ser um bando de excntricos que vendem sonhos est 
certo, mas ser um bando de imundos e desmazelados  um 
absurdo.
Opa! Ficamos zangados com ela. Mas a professora, vendo 
nossa cara azeda, no afinou. Elevou o tom da presso:
 Chamar um grupo de extravagante para aprender a ser 
solidrio  louvvel, mas no se importar se esse grupo cheira 
mal, no tem asseio nem higiene,  uma afronta ao bom senso.
Depois da bronca dela, o mestre se calou. Mas Dimas no 
suportou ficar calado. Gaguejando, disse:
 Jureminha... pega leve - expressando uma intimidade 
que s Bartolomeu se atrevera a ter.
Ela no deixou por menos. Aproximou-se dele, cheirou 
seu corpo vrias vezes e retrucou:
 Pega leve? Voc cheira a ovo podre.
Bartolomeu tirou-lhe o sarro. Os dois viviam se 
atarracando.
 No disse?! Sou um heri de agentar o cheiro desse 
cara!  e deu uma farta gargalhada. Sorriu tanto que no 
segurou os gases. Soltou uma trovoada sonora.
Dona Jurema o repreendeu:
 Voc no tem vergonha na cara? Saia fora do espao 
pblico para soltar seus flatos. Se no der tempo, pelos menos 
os silencie.
Tentando brincar com fogo, ele lhe disse:
 Qual  a tcnica para silenciar meu escapamento? Ela 
o repreendeu:
 D um tranco nele, seu esdrxulo.
Bartolomeu ficou constrangido. No sabia o significado da 
palavra esdrxulo. Entusiasmado, ele lhe disse:
 Thank you pelo esdrxulo  e mexeu com as mos 
querendo uma dica, sem saber se ela o elogiara ou o ofendera.
Estvamos preocupados. Olhamos para o mestre e 
comeamos a perceber que o novo membro da famlia nos faria 
entrar literalmente numa fria, num banho gelado, inclusive 
ele. Pela primeira vez o vimos cocar a cabea, sem ao. A 
professora era revolucionria, mas equilibrada. Olhou para o 
mestre e fez o que jamais pensamos que algum tivesse a 
ousadia de fazer com ele. Confrontou-o:
 Mestre, no venha com a histria de que Jesus chamou 
de hipcritas os que limpavam o exterior do copo, mas 
esqueciam de limpar o interior. Sim, devemos enfatizar a 
higiene interior, mas sem desprezar a exterior. Seus discpulos 
banhavam-se no Jordo e nas casas onde eram hospedados. 
Mas olhe para voc! Observe o grupo que o segue! H quanto 
tempo no tomam um banho digno? Exticos sim, mas ftidos 
no.
Ns tomvamos banhos em banheiros pblicos, mas no 
na freqncia e na intensidade recomendvel. Cocei as orelhas 
para ver se estava ouvindo direito. O mestre no argumentou 
nada, simplesmente meneou a cabea, concordando com ela. 
Ele nos ensinara muitas lies, e a maior delas era ter 
humildade para aprender.
No bastasse isso, a professora se dirigiu para Edson e 
teve a petulncia de lhe pedir que abrisse a boca. Com um 
sorriso amarelo, ele o fez. Sentimos que o mestre se 
arrependeu da escolha como um relmpago. Ou no! Ser que 
no era uma discpula com essas caractersticas que ele 
procurava?, pensei.
 Meu Deus, que odor! Precisa fazer higiene bucal.
Dei risada, mas com lbios cerrados. Ela percebeu e me 
deu uma alfinetada:
 Por que est sorrindo, seu almofadinha com cara de 
quibe cru?
A professora no poupou ningum, exceto Mnica, que 
viveu seus melhores dias lricos. Sentiu-se que ramos um 
circo ambulante. Dona Jurema no dormiria conosco  nem 
poderia, pela sua idade. Ela e Mnica retornariam para casa e 
se reuniriam conosco pela manh.
Para finalizar o dia do seu chamamento, a senhora nos 
convidou para tomarmos banho na sua casa e depois jantarmos 
juntos. O vrus do preconceito, que estava adormecido, 
novamente despertou. Olhamos uns para os outros e pensamos 
que, pela idade que tinha, pela aposentadoria minguada de 
professora, pelos gastos com remdios e mdicos, a situao 
financeira dela no seria muito melhor que a nossa. Sua casa 
no comportaria a todos. No deveria ter funcionria 
domstica. At sair esse jantar seria meia-noite.
Aps fazer a oferta, a professora deu um assovio.
Perguntamos o porqu do assobio. Ela disse que estava 
chamando o motorista.
Dimas falou, discreto:
 Deve ser o motorista de nibus.
O motorista no deu sinal de vida. Ela deu outro assobio, 
mais alto, e nada.
 Motorista  o nome do cachorro dela  disse 
Bartolomeu. Como no sabia falar baixo, Jurema escutou. 
Olhou a meio mastro para ele, coou o nariz com sua bengala, 
mas, em vez de cutuc-lo, parece que se divertiu com sua 
cachorrice.
 J pensou todo mundo lotando um fordinho que 
acabou de sair de um museu?  falou Edson, que era o mais 
espiritual, mas no dispensava mordomias.
O grupo era engraadssimo. Em poucos meses eu me 
divertia mais do que em toda a minha vida, mesmo quando 
apanhvamos. O mestre nos propiciava esse clima. Mnica 
tambm se sentia numa festa. Fora muito rica, mas perdera 
muito dinheiro com luxos e aes de companhias que faliram.
Andando no grupo, estava conseguindo o que os mercados 
de capitais no ofereciam.
De repente, estacionou um carro enorme, belssimo, de 
cor branca, que quase passou em cima do p de Bartolomeu. 
Um motorista ricamente trajado disse:
 Desculpe-me, madame. Demorei porque tive problemas 
para estacionar.
Ficamos boquiabertos. Que amor de discpula!, 
imediatamente pensamos.

As borboletas e o casulo
Jurema era viva de um milionrio. Mas era desprendida 
da necessidade de mostrar sua riqueza. s vezes dispensava 
carros, motorista, roupas de grife e outras benesses que sua 
fortuna podia lhe propiciar. Vivia com suavidade. Ns, por 
alguns momentos, nos fascinamos com essas benesses. Jamais 
havamos andado num veculo to luxuoso. Estvamos 
encantados, mas o mestre, um pedestre que parecia que nunca 
dirigira um carro, seguia indiferente. Pediu o endereo para a 
professora e disse que iria a p. Precisava meditar. Como 
sempre, procurava a companhia de si mesmo.
Duas horas depois, ele chegou. A milionria j tinha 
passado rapidamente numa loja e comprado algumas roupas 
para a turma. Parecamos civilizados novamente. J havamos 
tomado banho e estvamos petiscando deliciosos queijos e 
frios. A coisa era to boa que havamos esquecido que o 
sistema tem coisas maravilhosas. Boquinha de Mel estava to 
faminto que usava as mos para pegar os petiscos, em vez de 
palitos de ao. Salomo no conversava, s tinha tempo para 
comer. Engraado que, ao observ-lo, percebi que seus tiques e 
manias haviam diminudo muito. No sabia se era a fome ou 
uma melhora consistente.
Dimas, enquanto lotava a boca de queijo, parecia um rato 
observando objetos caros em cima das cristaleiras, bem como 
os belssimos quadros afixados nas paredes. Acho que, se no 
tivesse sido fisgado pelo mestre e por seu projeto, teria feito 
uma limpeza na casa. Mnica comia discretamente. Estava to 
feliz em participar do ninho que nada a distraa muito. Nunca 
imaginei que pessoas to bonitas vivessem pesadelos to 
grandes.
O mestre foi introduzido na sala central, que tinha cento 
e cinqenta metros quadrados de espao, dividida em cinco 
ambientes. Seus olhos no se cativaram pela luxuosa manso 
da professora. Ela gostou da sua reao  estava cansada de 
gente que bajulava a sua casa, mas no a enxergava. Em 
seguida, foi tomar um agradvel banho e recebeu algumas 
roupas novas.
Quando todos comevamos a desfrutar do saboroso 
jantar, o vendedor de sonhos lhe fez um pedido.
 Fale-nos um pouco da histria do seu falecido marido. 
Ela ficou admirada, pois as pessoas no perguntam muito 
sobre os mortos, no querem causar constrangimentos. Mas 
ela amava falar sobre ele; sempre o admirara. Relatou seus 
tempos de juventude, o namoro, o casamento. Depois 
comentou sobre sua amabilidade, audcia e intelectualidade. O 
mestre disse duas vezes:
 Grande homem! Foi tambm um vendedor de sonhos. 
Em seguida, ela mencionou que seu marido fora diretor-
presidente de uma das companhias do imponente grupo 
Megasoft, que era formado por mais de trinta empresas. 
Pensvamos que o mundo dos negcios no interessaria ao 
mestre, mas inesperadamente ele perguntou:
 Como enriqueceu?
Para contar a histria financeira do marido, ela teve de 
relatar brevemente a histria do presidente do grupo Megasoft.
Contou que um pai, proprietrio de uma importante 
empresa, falecera e deixara uma fortuna para seu filho, um 
jovem de vinte e cinco anos. O jovem tinha uma mente 
privilegiada e era dotado de notvel capacidade de empreender 
e liderar. Superou largamente o pai. Abriu o capital da empresa 
que recebera de herana e, com o dinheiro das aes, expandiu 
os negcios e, pouco a pouco, investiu nas mais diversas 
atividades do mundo corporativo. Investiu em petrleo, 
cadeias de lojas de roupas, meios de comunicao, indstria de 
informtica, indstria eletrnica, hotelaria. Em quinze anos, 
construra o grupo Megasoft, que se tornou uma das dez 
maiores corporaes do mundo.
Ela comentou que, na abertura de capital, ele dera 
oportunidade para todos os funcionrios comprarem aes. 
Seu marido se tornou um acionista minoritrio da companhia 
que o jovem presidia. Com o estrondoso crescimento do grupo, 
ganhou muito dinheiro. Ao ouvir essa histria de dona Jurema, 
fiz um aparte, dizendo:
 Fazendo eco ao empreendedorismo desse jovem 
milionrio, lembrei que o maior acionista da minha 
universidade era justamente o grupo Megasoft. Depois que ele 
se tornou mantenedor da universidade, no faltaram verbas 
para financiar pesquisas e teses.
Em seguida, o vendedor de sonhos fez uns 
questionamentos para a professora Jurema.
 Voc conheceu o jovem que expandiu explosivamente 
esse grupo? Ele era livre ou foi prisioneiro do sistema? Sua 
filosofia era amar mais o dinheiro que a vida ou mais a vida 
que o dinheiro? Quais eram suas prioridades? Que valores o 
moviam? Tinha ele conscincia da brevidade da existncia ou 
se posicionava como um deus?
A idosa professora, pega de surpresa, no soube 
responder, pois raramente vira o jovem pessoalmente. Era 
ocupadssimo, cortejado por reis e presidentes, enquanto ela 
era uma simples professora. Mas disse que seu marido gostava 
muito dele.
 Segundo os comentrios, penso que era uma pessoa 
bonssima e educada  disse aos presentes.  Mas depois que 
meu marido faleceu, h sete anos, tive poucas notcias dele, a 
no ser que havia acontecido uma desgraa em sua famlia. 
Parece que ele teve problemas mentais. Disseram que veio a 
falecer, mas a imprensa acobertou o assunto. Dizem que, se 
estivesse vivo hoje, teria desbancado antigos magnatas e seria 
o homem mais rico da Terra.
O mestre fitou todos ns e disse:
 Estimada Jurema, voc foi generosa com esse 
megaempresrio. Tambm ouvi falar sobre sua ousadia, sua 
histria e sua morte. Mas temos a tendncia de transformar 
em anjos os que silenciaram sua voz; exaltar suas qualidades e 
esconder seus defeitos. Algum que o conheceu intimamente 
me disse que ele era ambicioso e no tinha tempo para mais 
nada a no ser para aumentar seu capital. O que era mais 
importante em sua vida ele colocou no rodap da sua histria.
Consternado, mostrando um ar pesado de quem 
discordava do caminho traado por esse lder, teceu alguns 
comentrios memorveis:
 No lhes peo para abominar o dinheiro, nem os bens 
materiais. Essa  temporariamente a nossa situao, mas o 
futuro ningum sabe. Hoje dormimos sob viadutos e temos o 
cu como cobertor, amanh quem pode prever? Peo-lhes, sim, 
que entendam que o dinheiro em si mesmo no traz felicidade, 
mas a falta dele pode tir-la drasticamente. O dinheiro no 
enlouquece, mas o amor por ele destri a serenidade. A 
ausncia do dinheiro nos torna pobres, mas o mau uso dele 
nos torna miserveis.
Ficamos pensativos.
 Chefinho, ser um duro feliz  bom, mas com dinheiro  
melhor ainda  filosofou Bartolomeu, tomando uma gua de 
coco, enquanto ns tomvamos vinho francs e chileno.
O mestre sorriu. Era difcil filosofar para esses filsofos 
de rua.
No outro dia, passvamos pelas ruas centrais da cidade. 
As pessoas, ao reconhecer o mestre, queriam abra-lo. Havia 
um brilho nos olhos delas ao v-lo. Algumas o beijavam. Ele 
estava se tornando pouco a pouco mais famoso que os 
polticos da sociedade, o que gerava uma sobrecarga de inveja.
Ao ver as pessoas se aglomerarem em torno dele na frente 
de um enorme shopping, o mestre subiu alguns degraus da 
escada que dava acesso  porta central e comeou a fazer um 
dos seus fascinantes discursos. Fez uma interpretao 
filosfica do mais famoso discurso do Mestre dos Mestres, o 
Sermo da Montanha.
Ele j tinha nos dito que amava esse texto e concordava 
com Mahatma Gandhi que, se todos os livros sacros do mundo 
fossem banidos e sobrasse apenas o Sermo da Montanha, a 
humanidade no ficaria sem luz.
A plenos pulmes, bradou:
 Felizes os humildes de esprito, pois deles  o reino da 
sabedoria. Mas onde esto os verdadeiros humildes, os que se 
esvaziam de si mesmos? Onde se encontram os que 
reconhecem a sua insensatez? Em que ambiente esto os que 
corajosamente admitem sua pequenez e fragilidades? Onde 
esto os que combatem diariamente o orgulho?
Aps dizer tais palavras, ele se fixou atentamente na 
multido; viu rostos apreensivos, faces ansiosas. Tomou flego 
e continuou:
 Felizes os pacientes, porque herdaro a terra. Que terra 
 essa? A terra da tranqilidade, os solos do encanto pela vida, 
o terreno do amor singelo. Mas onde esto os mansos? Onde 
esto os flexveis? Em que espaos se encontram os que so 
amigos da tolerncia? Onde esto os que lapidam a sua 
irritabilidade e ansiedade? Onde esto os que agem com 
brandura quando contrariados ou frustrados? Muitos no so 
dceis nem consigo mesmos. Vivem debaixo de cobranas e 
autopunio.
A multido aflua cada vez mais em torno dele. Ele elevou 
os olhos para o teto, abaixou-os lentamente e completou a 
interpretao da segunda bem-aventurana, invertendo os 
pensamentos clssicos de motivao:
 Parem com a necessidade neurtica de mudar os 
outros. Ningum muda ningum. Quem cobra demais dos 
outros que de si mesmo est apto para trabalhar numa 
financeira, mas no com os seres humanos.
E imediatamente prosseguiu:
 Felizes os que choram, porque sero consolados. Mas 
por que vivemos num mundo onde as pessoas escondem as 
lgrimas? Onde esto os que choram pelo egocentrismo que 
venda nossos olhos e nos impede de ver o que se passa na 
psique dos que amamos? Quantos medos ocultos nunca foram 
revelados? Quantos conflitos secretos nunca ganharam 
sonoridade? Quantas feridas ns causamos que nunca 
admitimos?
Enquanto ele falava, as pessoas pensavam. Faziam um 
mapeamento nem sempre agradvel das suas relaes sociais.
 Felizes os pacificadores, pois sero chamados filhos do 
Autor da existncia. Mas onde esto os que apaziguam as 
guas da emoo? Onde esto os mestres em resolver conflitos 
interpessoais? No somos ns peritos em julgar os outros? 
Onde esto os que protegem, apostam, se entregam, 
reconciliam, acreditam? Toda sociedade implica diviso, toda 
diviso implica diminuio. Pacificar no , portanto, ensinar 
a matemtica da soma, mas compreender a matemtica da 
subtrao. Quem no compreender essa matemtica est apto 
a conviver com outros animais e com mquinas, mas no com 
seres humanos.
Fiquei pasmo com essa assertiva. Eu tinha uma cultura 
acadmica admirvel, mas estava pouqussimo habilitado a 
conviver com seres humanos. Tinha cachorros, e no tinha 
problemas com eles, pelo menos no reclamavam. Mas 
conviver com seres humanos era uma fonte de dificuldades. Eu 
cobrava muito. Estava apto para trabalhar em banco. No 
compreendia a matemtica da subtrao. As pessoas tinham 
liberdade de pensar, desde que pensassem como eu. S ento 
comecei a entender que viver bem se deve mais  arte de saber 
perder do que de saber ganhar. Esperar muito dos outros  um 
barco furado.
As pessoas se aglomeravam cada vez mais para ouvir o 
discurso do mestre. O trnsito parou, gerando uma grande 
confuso. Devido ao tumulto, logo ele teve de encerrar sua 
explanao. Nesse dia, o mestre escolheu mais alguns 
discpulos. Todos tinham caractersticas particulares. Ningum 
era santo. Nenhum tinha vocao para ser perfeito.
Muitos comearam a acompanhar o vendedor de idias 
por onde quer que fosse. As pessoas se comunicavam pela 
internet e descobriam o seu roteiro. Apesar de ser seguido por 
muitos, ele treinava particularmente alguns. No porque 
ramos os mais qualificados, talvez porque fssemos os mais 
impenetrveis, os mais resistentes.

Agora
Trs dias depois, ele marcou uma reunio especial; 
parecia que iria nos revelar seu maior sonho. Estava 
interiorizado, parecia fixo em suas mais clidas idias. Levou-
nos para um ambiente calmo, onde a agitao social e sonora 
quase inexistia. Fez-nos sentar em meia-lua. Eram sete horas 
da manh. O orvalho gotejava das gramneas, os primeiros 
raios solares tilintavam no horizonte e batiam nas ptalas dos 
hibiscos, formando uma espcie de arco de ouro. Alguns 
pssaros festejavam o alvorecer do novo dia.
Cada vez mais pessoas se juntavam ao grupo em 
momentos especiais. Diferentemente de ns, o grupo mais 
prximo, elas tinham sua vida como qualquer conscio da 
sociedade. Trabalhavam, tinham famlia, lazer, atividades 
sociais. No estavam no projeto em tempo integral. Nesse dia, 
ramos trinta pessoas. Entre elas, havia trabalhadores braais, 
gerentes, mdicos, psiclogos, assistentes sociais. Como o 
projeto no era religioso nem o mestre defendia uma religio, 
havia cristos, budistas, islamitas e pessoas de outras 
religies.
Para nossa surpresa, ao iniciar a reunio, ele disse pela 
primeira vez algo mais claro sobre seu misterioso passado.
 J tive nas mos um poder impensvel que se estendia 
por mais de cem pases. Mas houve uma poca da minha 
existncia em que o tempo parou. Perdi o cho. Chorei 
abundantemente, chorei inconsoladamente. Por fim me isolei 
numa ilha no oceano Atlntico e l permaneci por mais de trs 
anos. A comida era boa, mas eu no tinha fome. S tinha fome 
de conhecimento. Digeria livros. Tive acesso a uma das mais 
espetaculares bibliotecas. Li dia e noite, como um asmtico 
que procura o ar. Li mais de doze livros por ms e quase cento 
e cinqenta por ano. Livros de filosofia, neurocincia, teologia, 
histria, sociologia, psicologia. Li comendo, sentado, em p, 
andando, correndo. Minha mente parecia uma mquina que 
fotografava pginas e mais pginas de conhecimento. Todo 
esse conhecimento me ajudou a reorganizar meu passado, 
restaurar minhas rotas destrudas. Tornei-me assim o ser 
humano que vocs vem, um pequeno e imperfeito vendedor 
de sonhos.
No deu mais explicaes. Suas palavras deram-me asas 
para que eu viajasse longamente no cu da minha psique. 
Enquanto o ouvia declarar algumas peas do seu passado, vi 
meus amigos completamente confusos. Do mesmo modo, o 
quebra cabea no se encaixava na minha mente. Como ele 
pode afirmar que seu poder era grandioso? A que poder se 
refere? Financeiro, poltico, intelectual, espiritual? Parece to 
frgil, to dcil, to pobre! Ele come com os miserveis. H 
momentos em que est tenso, mas sabe administrar sua 
tenso. Nada exige. Dorme em qualquer lugar. Suporta 
agressividade. Protege os que o contrariam. Como pode algum 
que teve muito viver abaixo da linha de pobreza? Ser que esse 
poder no foi construdo no seu imaginrio? Interrompendo 
minhas idias, ele teceu algumas importantes recomendaes:
 O projeto de vender sonhos no confronta com sua 
religio, cultura, crena. Alis, respeitem sua crena, 
aquilatem sua cultura, apreciem o passado de sua nao, 
exaltem a tradio do seu povo, mas uma mudana eu lhes 
peo.
E fez uma longa pausa, como se caminhasse lentamente 
em direo a sua meta fundamental.
 Peo-lhes que ampliem os horizontes da mente para 
respeitar, aquilatar e exaltar acima de tudo sua condio de 
seres humanos. Meu maior sonho  que possamos formar uma 
rede de seres humanos sem fronteiras em todas as naes, em 
todos os povos, em todas as religies, em todos os meios 
cientficos. Uma rede de seres humanos que resgate a natureza 
humana, o instinto de espcie que perdemos. A humanidade 
vive num caldeiro de tenso pela loucura da competio 
predatria, pelo desrespeito s regras internacionais do 
comrcio, pelos conflitos sociais, pela devastao do meio 
ambiente, pela dificuldade de interiorizao e de retorno s 
nossas origens. A Revoluo Francesa ocorreu h mais de dois 
sculos. Falamos dela como se tivesse ocorrido ontem, mas 
quando olhamos para o futuro no temos nenhuma garantia de 
que nossa espcie sobreviver mais um ou dois sculos.
Em seguida, falou do seu modelo. Disse que Jesus contou 
mais de sessenta vezes que era o filho do homem. Poucos na 
histria entenderam o que ele queria dizer. Revelou 
paulatinamente que era cem por cento pela humanidade e no 
apenas pelos judeus. Ao insistir que era filho do homem, 
queria mostrar em cdigo que era filho da humanidade, que 
era o primeiro ser humano completamente sem fronteiras. Sua 
cultura, raa, nacionalidade eram importantes, mas sua 
condio de ser humano era muito mais. Ele se apaixonou pela 
humanidade num nvel que a teologia no compreende e a 
psicologia no alcana. Somente um ser 
Humano sem fronteiras poderia dizer que as prostitutas 
precederiam ilustres telogos fariseus. Seu amor foi um 
escndalo para seus dias e ainda o  para os nossos. E 
adicionou solenemente:
 Tenho milhares de defeitos, cometi mais erros do que 
vocs imaginam, mas a psicologia e a filosofia do Mestre dos 
Mestres  meu modelo.  E props fundar a sociedade dos 
seres humanos sem fronteiras, apoiada em apenas quatros 
princpios: a) acima da raa, cultura e nacionalidade, enfim, 
acima de sermos chineses, americanos, europeus, palestinos, 
judeus, negros, brancos, amarelos, devemos nos posicionar 
como seres humanos sem fronteiras, que tm o compromisso 
vital de proteger a espcie humana e o meio ambiente; b) lutar 
contra toda forma de discriminao e apoiar toda forma de 
incluso; c) respeitar os diferentes; d) promover a interao 
entre povos de diferentes culturas e crenas.
O mestre sabia muito bem que algumas de suas propostas 
estavam nos princpios da Revoluo Francesa, na Carta dos 
Direitos Humanos da Organizao das Naes Unidas, a ONU, e 
na Carta Magna de muitas naes. Mas a diferena era que 
sonhava em extrair as pginas dessas cartas e imprimi-las nas 
pginas psquicas de um ser humano sem fronteiras.
Nada mais utpico, verbalizei em voz baixa. Mas o mestre 
leu meus lbios.
 Voc tem razo. Nada  mais utpico, imaginrio, 
virtual, romntico. Mas retire a utopia e seremos mquinas. 
Retire a esperana e seremos servos. Retire os sonhos e 
seremos autmatos. Se os lderes empresariais e polticos 
pensassem como espcie, dois teros dos problemas da 
humanidade seriam solucionados em um ms. E isso no  
utopia, um sonho virtual.
Meneei a cabea sem medo de reconhecer que ele estava 
certo. Recordei-me que no poucas vezes me sentia uma 
mquina de ensinar para alunos que se colocavam como 
mquinas de aprender. Seu semblante estava compenetrado, 
sua voz estava mais pausada do que o normal. Era um dia 
especial para ele. Parecia que tinha algo ainda importante para 
falar. Em seguida, contou-nos a parbola do casulo.
 Duas lagartas teceram cada uma seu casulo. Naquele 
ambiente protegido, foram transformadas em belssimas 
borboletas. Quando estavam prestes a sair e voar livremente, 
vieram as ponderaes. Uma borboleta, sentido-se frgil, 
pensou consigo: A vida l fora tem muitos perigos. Poderei 
ser despedaada e comida por um pssaro. E mesmo se um 
predador no me atacar, poderei sofrer com as tempestades. 
Um raio poder me atingir. As chuvas podero colaborar 
minhas asas, levando-me a tombar no cho. Alm disso, a 
primavera est acabando, e se faltar o nctar? Quem ir me 
socorrer?. Os riscos de fato eram muitos, e a pequena 
borboleta tinha suas razes. Amedrontada, resolveu no partir. 
Ficou no seu protegido casulo, mas como no tinha como 
sobreviver, morreu de um modo triste, desnutrida, desidratada 
e, pior ainda, enclausurada pelo mundo que tecera. Aps essas 
consideraes, ele nos disse:
 A outra borboleta tambm ficou apreensiva; tinha 
medo do mundo l fora, sabia que muitas borboletas no 
duravam um dia fora do casulo, mas amou a liberdade mais 
dos que os acidentes que viriam. E assim, partiu. Voou em 
direo a todos os perigos. Preferiu ser uma caminhante em 
busca da nica coisa que determinava a sua essncia.
Aps contar a parbola, o mestre descortinou suas 
intenes.
Fez uma breve pausa para ouvir o belssimo canto que 
parecia que o homenageava e fez uma serie de solicitaes 
simples e profundas. Eram tantas que eu tinha dificuldade de 
fazer anotaes:
 Chamei-os bem cedo porque os enviarei por dois dias 
para vivenciarem os princpios que fundamentam a 
experincia social de ser um ser humano sem fronteiras. Vou 
envi-los de dois em dois para o terreno social. No levem 
bolsa, dinheiro, cheque, carto de crdito, alimentos, nada que 
lhes d suporte para sobreviverem, somente remdios e 
produtos de higiene pessoal. Comam o que lhes oferecerem. 
Durmam na cama que lhes prepararem. No discriminem 
ningum. Se algum os rejeitar, no resistam, tratem-no com 
brandura. Atuem como socioterapeutas. Dem e recebam. No 
dominem as pessoas, no defendam sua crena, no imponham 
as suas idias, exalem sua humanidade. Perguntem, a quem 
encontrarem pelo caminho, no que vocs lhes podem ser teis. 
Dialoguem com as pessoas, conheam pginas secretas, 
desvendem seres humanos deslumbrantes entre os annimos. 
No os enxerguem com seus olhos, mas com os olhos deles. 
No invadam sua privacidade, no a controlem, vo at onde 
eles lhes permitam. Ouam-nos humildemente, mesmo os que 
pensam em desistir da vida, e os estimulem a eles mesmos se 
ouvirem. Se conseguirem ouvir-se, ser muito melhor do que 
ouvirem vocs. Lembrem-se de que o reino da sabedoria 
pertence aos humildes.
Depois de nos dar todas essas recomendaes, mostrou 
um certo ar de preocupao e nos alertou:
 Vivemos no terceiro milnio. Vender o sonho de ser um 
ser humano sem fronteiras nessa sociedade que atingiu o 
apogeu do individualismo parece o absurdo dos absurdos. Ser 
solidrio, generoso e solcito quando os outros pedem j  
extraordinrio, imagine quando no pedem. Vocs sero 
chamados de fanticos, doentes mentais, desvairados, 
proselitistas. Mas se receberam a mim, tambm recebero 
vocs.
Fora isso, no deu regras sobre o modo de abordar as 
pessoas e a quem procurar, se ricos, pobres, cultos, iletrados, 
moradores do centro, da periferia. No nos deu mapa. Seus 
cabelos revoavam com o vento, e ns pingvamos de suor. A 
sua proposta gerou incontestvel apreenso. Pensei comigo: 
Isso no vai dar certo. Seremos mal interpretados. Talvez 
escorraados. E se eu encontrar alguns dos meus colegas 
professores? O que diro de mim?. Ele complementou:
 H muitas formas de contribuir para o bem da 
humanidade, mas nenhuma delas  uma passagem tranqila, 
nenhuma  realizada sob constantes aplausos. A forma que 
proponho poder gerar mais desconfianas. De manh podero 
ser famosos,  tarde podero cair em desgraa. Num momento 
podero ser valorizados, noutro, tratados como escria social. 
As conseqncias so imprevisveis. Mas lhes garanto que, se 
superarem as intempries, sairo muito mais humanos, muito 
mais fortes, e como sobremesa entendero o que os livros 
jamais propiciaram. Entendero um pouco o que milhes de 
judeus viveram nas mos dos nazistas, os cristos na arena do 
Coliseu, os mulumanos na Palestina, bem como o que os 
religiosos, prostitutas, homossexuais, negros e mulheres, 
sofreram ao longo da histria.
Pensei comigo: Soltar Bartolomeu e Dimas para 
representarem o mestre sem monitor-los poder ser um 
desastre. No  muito diferente de deixar um estudante de 
medicina fazer uma cirurgia sem preceptor. O que o mestre 
nos pedia era para fazermos um laboratrio social diferente de 
tudo que estudei em sociologia. No era para ir  frica com 
suporte financeiro para fazer caridade, nem para exercer a 
filantropia numa instituio, nem discorrer sobre uma religio 
ou anunciar um partido poltico. Era um retorno puro s 
nossas origens. No podamos levar nada, nem mesmo nosso 
prestgio social.
Teramos de ser apenas seres humanos em conexo com 
outros seres humanos.
Franzindo a testa, ele disse que tnhamos uma escolha.
 Encorajo-os a sair do casulo pelo menos dessa vez, mas 
ningum  obrigado a faz-lo. Os riscos so muitos, as 
conseqncias imprevisveis. A escolha  de vocs, somente de 
vocs.
Apesar da apreenso, ningum foi embora, nem mesmo 
dois jovens de dezoito anos que estavam presentes. Como a 
juventude  vida por aventuras, queriam experimentar essa 
adrenalina.

Friends & Discpulos
Depois da reunio, ele nos enviou e estipulou o horrio de 
regresso. Cada pessoa pegou quem estava  sua direita como 
par, comeando por mim. Deu liberdade para que as mulheres 
dormissem em casa, mas elas o repreenderam. Discordaram do 
seu protecionismo.
 Queremos fazer o laboratrio social completo. Optamos 
por sair do casulo nesses dois dias  disse Jurema, 
representando as mulheres. Entretanto, quatro pessoas 
pediram desculpas e desistiram, mas retornariam no dia 
marcado.
O resultado no poderia ser mais complexo. Fomos 
confundidos com ladres e seqestradores. Fomos rejeitados, 
ridicularizados, ameaados. Vrias duplas tiveram de se 
explicar na polcia. Mas apesar de tudo tivemos experincias 
espetaculares. Divertimo-nos e aprendemos intensamente. 
Parecia que no percorramos a mesma sociedade, que 
entramos em um mundo completamente distinto, o mundo do 
outro. Todos a uma s voz disseram que se sentiram 
completamente inseguros por no dependerem de dinheiro e 
carto de credito. Algumas vezes nos sentimos como os judeus 
na Segunda Guerra Mundial ou os palestinos no Oriente Mdio, 
sem lar, sem ptria, sem proteo, sem saber se sobreviveriam. 
ramos apenas seres humanos e nada mais. A experincia 
sociolgica evidenciou que estamos perdendo de fato nossa 
humanidade. Que, de fato, a escondemos atrs de nossa tica, 
moralidade, ttulos, status, poder.
Boquinha de Mel foi vender sonhos nos lugares que ele 
mais conhecia, nos botecos e boates da vida. Passou inmeros 
apuros. Alguns jogaram vodca no seu rosto, outros o 
humilharam, outros o xingaram e ainda outros o enxotaram: 
V para l, seu bbado!. Perdeu a pacincia cinco vezes, 
ameaou dar bofetadas em dois alcolatras. Comeou a 
perceber que no fora fcil o trabalho que deu para os outros. 
Dimas era seu par.
Apesar das contrariedades, ajudou a levantar 
alcoolizados, ouviu conversas furadas, consolou, apoiou, 
suportou. No poucos lhe disseram que bebiam para no 
pensar nas perdas, traies, crises financeiras, mortes na 
famlia. No tinha soluo mgica, mas emprestou seus 
ouvidos. No fim do primeiro dia, aproximou-se de um homem 
de meia-idade sentado numa mesa sozinho, e educadamente 
disse-lhe:
 Gente fina, no quero incomod-lo. S gostaria de 
saber no que posso lhe ser til.
A resposta foi rpida:
 Pague-me mais uma dose de usque.
Disse que no tinha dinheiro. O alcolatra deu-lhe um 
empurro e foi grosseiro.
 Ento caia fora, seno vou chamar a polcia. 
Bartolomeu era um homem robusto. Pegou o alcolatra pelos 
colarinhos e, quando ia lhe dar uma chacoalhada, lembrou-se 
das recomendaes do mestre.
 Ah, se fossem outros tempos!  disse, irado. Dimas 
tambm ficou indignado.
O bbado colocou as mos sobre a cabea, logo se refez. 
Mesmo sem um raciocnio organizado, percebeu que fora 
indelicado. Pediu desculpas e os convidou para sentar. Ento 
chorou por vinte segundos sem dizer o motivo. Os alcolatras 
choram fcil.
Depois se apresentou. Disse que se chamava Lucas e 
contou que era um mdico cirurgio falido. Havia cometido um 
erro mdico que no comprometera a vida do paciente, mas o 
advogado desse paciente transformou seu erro numa 
aberrao. Processou-o e, como no tinha seguro, levou tudo o 
que havia construdo em vinte anos de carreira. Endividado, 
no conseguia pagar a prestao da casa, estava para ser 
despejado. No conseguiu pagar as pesadas parcelas do novo 
carro, que estava com ordem de busca e apreenso.
 No chore, amigo. Voc pode morar debaixo de pontes 
 disse Bartolomeu, angustiando mais ainda o moribundo.
Dimas entrou em ao. Para tentar consolar o mdico, 
contou parte da sua histria, uma histria que Bartolomeu 
desconhecia. Disse que seu pai ficara preso vinte e cinco anos 
por assalto  mo armada. Em seguida sua me se envolveu 
com outro homem e abandonou a ele, de cinco anos, e  sua 
irm, de dois. Foram para orfanatos separados. Ela foi adotada 
e nunca mais se viram. Dimas no foi adotado, pois ningum 
queria adotar um menino de cinco anos de pele escura. 
Cresceu sem nada, sem pai, sem me, sem irm, sem afeto, 
sem estudo, sem amigos.
Bartolomeu se condoeu do amigo e tentou consol-lo:
 My friend, sempre pensei que voc fosse um malandro, 
canalha, tapeador e vigarista sem causa. No o conhecia, cara. 
Voc  o mais normal dos malucos do grupo!
O doutor Lucas ficou emocionado com sua histria. O 
efeito do lcool diminuiu um pouco devido ao interesse que a 
conversa l gerou. Ficaram amigos. Conversaram por trs 
horas. Saram abraados e cantando O Lucas  um bom 
companheiro, o Lucas  um bom companheiro. Sentiram o 
prazer de uma amizade despretensiosa. Entenderam que viver 
fora do casulo tem seus inegveis riscos, mas tambm seus 
irrefutveis encantos.
Foram dormir num quarto no fundo da casa do mdico. A 
esposa tinha ouvido falar do movimento social dos sonhos. 
Preparou-lhes um suculento espaguete ao molho de tomate. No 
dia seguinte, ela lhes agradeceu. Fazia seis meses que no via 
seu marido animado a enfrentar desafios.
Dimas e Bartolomeu continuaram a jornada. No final da 
tarde do segundo dia, encontraram outro alcolatra em 
situao lastimvel, agora debruado sobre o balco. 
Bartolomeu parecia conhec-lo. Quando ele virou o rosto, 
confirmou. Era Barnab, seu melhor amigo de bares e noitadas. 
Tinha um metro e setenta e cinco de altura, pesava cento e 
dez quilos. Era quase impossvel no v-lo bbado e 
mastigando alguma coisa. O lcool ainda no conseguira tirar 
seu apetite. Seu apelido era Prefeito, pois adorava fazer 
discursos, discutir poltica e dar solues mgicas para os 
problemas sociais. Ele e Bartolomeu eram preo duro no 
quesito a lngua mais incontrolvel.
 Boquinha, voc aqui?  gritou Barnab quase que em 
cdigo porque no conseguia pronunciar as palavras.
 Prefeito, que bom v-lo!  E se abraaram.
Dimas e Bartolomeu o levaram para uma praa a 
cinqenta metros do local. Ficaram longas horas juntos at 
diminuir o efeito do lcool no crebro do amigo. Aps Barnab 
ficar um pouco mais lcido, disse ao Bartolomeu.
 Eu o vi nos jornais. Agora voc  famoso. Est 
traficando bebidas. No, no, desculpa, est dando uma de 
Papai Noel, distribuindo presentes de graa. Legal  falou, 
com a voz pastosa. E completou:  Hoje voc  gr-fino. No 
est mais no time dos bomios.
Bartolomeu disse que era o mesmo, s mudara um pouco 
a maneira de encarar os fatos. E aproveitou que estava com 
amigos para contar um pouco da sua histria, como o fez o dr. 
Lucas. Como Dimas, tambm fora para um orfanato na 
infncia, mas por causas distintas.
 Meu pai morreu quando eu tinha sete anos, e o cncer 
vitimou minha me dois anos depois. Fui levado ao liceu, um 
orfanato na periferia da cidade. Fiquei l at os dezesseis anos, 
e ento fugi.
Dimas olhou para Bartolomeu, surpreso, e disse:
 Cara, no vai me dizer que voc  o p de ouro. - 
Esse era o apelido que Bartolomeu tinha no orfanato, pois era 
um craque de futebol. Bartolomeu, impressionado, olhou para 
o Dimas e tambm o reconheceu. Eles tinham a impresso de 
que se conheciam, mas tinham sido amigos por pouco tempo. 
Ficaram juntos apenas um ano, e s agora, depois de vinte 
anos, se reencontravam.
 Que bom! A famlia est reunida de novo. S eu  que 
no tenho ningum - disse Barnab; e teve uma vertigem, 
apoiando o queixo com os dois punhos sobre a mesa.
Bartolomeu estava condodo pelo amigo. Olhou para o 
relgio e viu que estavam atrasados para a reunio com o 
mestre. Pediu ao Dimas que fosse na frente. Queria conversar 
um pouco mais com Barnab sobre a nova famlia.
Eu e a professora Jurema fomos conversar com alunos 
numa universidade do lado oposto da minha. Eu provocava a 
mente deles. Estimulava-os a desenvolver o mtodo socrtico, 
a construir projetos existenciais e a expandir o mundo das 
idias. Jurema levantava a voz e os estimulava a se aproximar. 
Todos ficaram impressionados com a eloqncia da velhinha. 
Ela tinha mais vigor e mais mpeto que eles. Estavam 
cansados, abatidos, desanimados.
De repente, quando menos esperava, encontrei alguns 
professores apontando para mim. Fiquei rubro. Eram colegas 
da minha universidade que estavam dando um curso 
justamente no local onde estvamos. Aproximaram-se dando 
risadas. Eu podia ler os lbios deles dizendo uns aos outros 
que o autoritrio coordenador do curso de sociologia perdera o 
juzo.
A professora Jurema me disse:
 Enfrente-os.  o desafio de sair do casulo.
Alis, esse era o preo que eu deveria pagar por ter sido 
pouco tolerante. Um professor que no se reciclava, que no 
ministrava boas aulas e que se sentia cobrado por mim no 
titubeou em dizer:
 Como est a vida de maluco?
Preferi dar meia-volta e tomar outro rumo. Mas a 
professora Jurema pegou nos meus braos para tentar acalmar 
meu nimo.
Controlei-me, fitei os olhos dele e respondi:
 Estou tentando entender a minha loucura. Quando me 
escondia atrs do intelectual, achava que era muito saudvel, 
mas como hoje sou um caminhante em busca de mim mesmo, 
sei que sou mais doente do que imaginava.
Eles ficaram atnitos. Perceberam que eu ainda 
conservava meu rpido raciocnio, mas nunca me haviam visto 
reconhecer um erro, jamais me viram tendo gestos de 
humildade. Comearam a se desarmar.
Aproveitei para fazer aflorar o raciocnio, sem pretenses 
de que me entendessem:
 Quem vocs so na essncia? Como est o seu prazer? 
Tm tido tempo para relaxar? Tm investido em seus projetos 
pessoais ou os tm soterrado? Tm se comportado como 
gigantes intelectuais ilhados em sua brilhante cultura ou tm 
sido seres humanos sem fronteiras que sabem dividir suas 
dores? Conhecem a matemtica da subtrao nas relaes 
sociais? Tm sido mquinas de ensinar ou tm sido agentes 
que formam pensadores?
Sentiram que o maluco que queria se suicidar estava 
melhor do que quando discutia com eles nas universidades. 
Um deles, Marco Antnio, professor de lgica do conhecimento 
aplicada  sociologia, que era o mais culto de todos ns do 
departamento, mas cuja didtica eu sempre criticara, me 
elogiou:
 Tenho acompanhado seus movimentos, Jlio, pelos 
jornais e pelos alunos. Estou deveras impressionado com sua 
coragem de fazer um corte em sua jornada para se reorganizar. 
Todo mundo, mais cedo ou mais tarde, deveria fazer tal corte 
no seu ativismo para se achar, repensar a sua histria.
Falei sobre o projeto dos sonhos. Comentei que no era 
um projeto de motivao, de crescimento pessoal, de auto-
ajuda, mas de formao de pensadores humanistas. Era um 
projeto para formar um ser humano sem fronteiras.
Pensativo e admirado, o professor Marco Antnio relatou 
que estava entediado com o conformismo social e aborrecido 
com o pernicioso paradoxo do isolamento psquico versus a 
massificao do consumo. Pedi-lhe mais explicaes sobre 
esse paradoxo, pois no estava entendendo a dimenso da sua 
idia. Ele disse:
 Os seres humanos esto vivendo em ilhas em reas que 
deveriam ser continentes, e em continentes em reas que 
deveriam ser ilhas. Ou seja, deveriam ter participao mtua 
em reas como dilogo, troca de experincias, superao de 
frustraes, e ser ilhas em reas como paladar, estilo de vida, 
artes, cultura. Mas a comunicao televisiva, o fast food, a 
indstria da moda tm massificado nossos gostos e estilos. 
Perdemos a individualidade e cristalizamos o individualismo.
Pensei comigo: Esse professor tem um pensamento 
muito prximo do mestre. Em seguida, ele comentou que 
depois que Marx lanou O capital, no se viam movimentos 
sociais novos, idealistas, utpicos, com propostas 
interessantes. E nos perguntou como poderia conhecer a 
experincia sociolgica de ser um ser humano sem fronteiras. 
Fiquei feliz em informar-lhe.
Todas as duplas voltaram entusiasmadas. Tiveram 
atropelos imprevisveis, mas vivenciaram feitos notveis. 
Feitos que no expandiam a nossa conta bancria nem nosso 
status social, mas resgatavam nossas origens.
Algumas duplas trouxeram amigos e amigas que haviam 
feito pelo caminho. Mnica trouxe cinco amigas modelos. 
Estavam excitadas em desfilar nas passarelas que 
desconheciam. Eu e Jurema trouxemos dois professores e dois 
alunos. Dimas trouxe o dr. Lucas e a sua esposa. Salomo 
trouxe seu antigo psiquiatra, especialista em transtornos 
ansiosos, mas que vivia continuamente depressivo. Fora 
contagiado pela alegria do seu paciente. Queria tomar algumas 
doses desse antidepressivo social.
Cada pessoa falava sem regras e controle. Todos 
contavam experincias singelas. Relatavam com euforia o 
prazer de terem penetrado nos recnditos da psique dos 
annimos. Descobriam o prazer indecifrvel de contribuir para 
a histria dos outros. Relatavam o jbilo promovido pela 
solidariedade annima.
Havia ao todo trinta e oito pessoas estranhas no grupo. 
Dentre essas, dois judeus ortodoxos e dois mulumanos, fora 
os que j faziam parte do time. Subitamente, percebemos a 
ausncia da pessoa mais vibrante, Bartolomeu. Pelas 
informaes de Dimas, ele estava com seu amigo e em breve 
chegaria.
O ambiente era to comovente que improvisamos naquele 
local a primeira das muitas festas do projeto. Nela, ricos e 
pobres, intelectuais e iletrados, cristos, mulumano, judeus, 
budistas e ascticos comiam, danavam, cruzavam seus 
mundos sem preconceitos, A regra era aquinhoar cada um com 
um pedao do seu ser.
Nem em seus delrios filosficos, Robespierre imaginou 
que os trs pilares da Revoluo Francesa, a liberdade, a 
fraternidade e a igualdade, seriam vividos de maneira to 
borbulhante por pessoas to distintas. O mestre, vendo nossa 
alegria, disse-nos:
 Jamais seremos iguais em nossa essncia, no tecido 
intrnseco de nossa personalidade, em nosso pensamento, 
modo de reagir, ver e interpretar os fenmenos da existncia. 
O sonho da igualdade s cresce no terreno do respeito pelas 
diferenas.
Mas nem todas as duplas tiveram xito. Meu amigo Edson 
enfrentou uma situao complicada. Estava com ambos os 
olhos roxos. Parecia ter levado dois tombos ou duas bofetadas. 
Estvamos curiosos para saber os fatos. Ele nos contou que, 
depois do sucesso de ter contagiado as pessoas com seu 
altrusmo e afetividade, algum o ofendera ostensivamente. 
Relatou:
 Um homem de uns cinqenta anos me perguntou se eu 
conhecia o Sermo da Montanha. Eu disse que sim.  Edson 
reteve a voz. Estava meio envergonhado. Tentando anim-lo, 
indaguei:
 Mas isso no  bom?
 Sim, mas o problema  que ele me pediu para recitar 
algumas palavras desse sermo, o que fiz com entusiasmo, 
pois conhecia de cor os textos. - Edson fez mais outra pausa. 
Comeou a ficar vermelho. O seu silncio suscitou a indagao 
de Dimas:
 Mas isso no  excelente?
 Sim, mas quando cheguei ao trecho em que devemos 
dar a outra face, ele me perguntou se eu acreditava nisso. Sem 
pestanejar, disse que sim.  E fez a terceira pausa. Estava 
constrangido. O mestre o ouvia atentamente. Diante do seu 
silncio, Mnica questionou:
 Mas isso no  maravilhoso, Edson? - Edson diminuiu o 
tom de voz.
 Sim, quer dizer, no. Nesse momento ele abriu a palma 
da mo direita e me deu uma bofetada na face esquerda. Nunca 
senti tanta dor, nunca senti tanta raiva. Meus lbios tremiam, 
e eu queria esganar o sujeito. Mas agentei.
O mestre estava apreensivo com seu herosmo.
 Parabns  reagiu a professora Jurema.  Esse  um 
verdadeiro milagre. Esse  um milagre da naturalidade. Mas 
nosso amigo estava com a roupa rasgada e a face arranhada.
 Qual  o motivo de o olho direito estar roxo tambm? 
 perguntou Salomo.
Foi ento que Edson explicou:
 Em seguida, ele me pediu a face direita. Eu no queria 
dar, mas quando me dei conta eleja tinha me esbofeteado. 
Quis agarrar o sujeito pelo pescoo, mas me lembrei de tudo o 
que vivemos juntos. Lembrei do dcil mestre de Nazar e 
lembrei do projeto do vendedor de sonhos. Agentei. No sei 
como, mas agentei. E ele zombava de mim. Tinha ouvido 
falar do nosso projeto e me chamava de vendedor de bobagens.
As pessoas aplaudiram sua atitude. Mas Edson pediu 
pacincia para a platia e disse que falhara. Como assim? 
Finalmente ele explicou o incidente:
 Em seguida, ele me pediu novamente a face direita. 
Fiquei bufando de raiva. Sabia que Jesus pediu para dar a 
outra face, mas no para dar a mesma face duas vezes. Ento 
olhei para o cu, pedi desculpas e o enchi de porrada. Como 
ele era mais forte do que eu, fui surrado tambm.
No era o momento para darmos risadas, mas quem 
agentou a cara do nosso amigo? O mestre estava com um 
sorriso contido. No aprovava a violncia, mas tambm no se 
agentou. Em seguida nos deu uma lio inesquecvel.
 Ser um ser humano sem fronteiras no  ser ingnuo 
nem colocar a vida em perigo desnecessariamente. Lembrem-
se de que eu no os chamei para serem heris. No provoquem 
e muito menos enfrentem os ofensores. Dar a outra face no  
sinnimo de fragilidade, mas de fora. No  sinnimo de 
estupidez, mas de lucidez.
Nesse momento deu-nos uma pausa para assimilarmos 
suas idias. Em seguida continuou:
 Dar a outra face  um smbolo de maturidade e fora 
interior. No se refere  face fsica, mas  psquica. Dar a outra 
face  procurar fazer o bem para quem nos decepciona,  ter 
elegncia para elogiar quem nos difama, altrusmo para ser 
gentil com quem nos aborrece.  sair silenciosamente e sem 
estardalhao da linha de fogo dos que nos agridem. Dar a outra 
face previne homicdios, traumas, cicatrizes impagveis. Os 
fracos se vingam, os fortes se protegem.
Edson absorveu essas palavras como a terra seca. A partir 
desse episdio, deu uni salto emocional, lapidou sua sabedoria, 
alargou as fronteiras da sua mente. Contribuiu muito para o 
nosso movimento.
As palavras do mestre penetraram como um raio em 
todos ns. Foram to impactantes que estimularam os judeus 
ortodoxos a abraarem os mulumanos que estavam presentes. 
Olhei para meu amigo, o professor Marco Antnio. Recordei-
me tambm de que enchera de porrada meus inimigos na 
universidade.
Nunca aprendi que os que do a outra face so muito mais 
felizes, mais tranqilos e dormem muito melhor. . Jurema 
cochichou em meus ouvidos:
 Dei aulas por mais de trinta anos. Mas tenho de 
admitir que formei muitos alunos agressivos, irritadios, 
vingativos, destitudos de solidariedade e sem nenhuma 
proteo.
Pensei comigo: Eu muito mais. Nos meios menos 
suspeitos, como as universidades, formamos alguns ditadores. 
S lhes falta o poder.
Enquanto eu ponderava essas coisas, o ambiente ficou 
tumultuado. Apareceu Bartolomeu com Barnab. Os dois 
estavam completamente embriagados. Bartolomeu ficara to 
eufrico com o reencontro de seu amigo que abriu a guarda. 
Foi tomar umas para comemorar e encheu a cara de vodca de 
novo.
Ambos estavam abraados um ao outro. Tranavam as 
pernas ao caminhar e, para no carem, apoiavam-se um no 
outro. Chegaram cantando uma cano de Nelson Gonalves:

Boemia, aqui me tens de regresso, e suplicando 
te peo a minha nova inscrio. Voltei para 
rever os amigos que um dia eu deixei a chorar 
de alegria.

No bastasse a bebedeira, Bartolomeu olhou para a turma 
e disse com vibrao a frase que mais gostava de proferir:
 Ah! Eu adoro essa vida.
E todos ns reagimos em coro:
 Fecha a boca, Bartolomeu.  E camos na gargalhada. 
Mas ele no fechou. Quase caindo, teve a petulncia de 
investir contra o projeto do mestre. Olhava para os 
convidados, e novamente ficou rubro. Disse que j conhecia 
essa bandeira.
 O seguinte, chefinho. Esse negcio do ser humano em 
fronteiras  antigo. Muito antigo, sabia?  Tentava estalar o 
dedo para mostrar essa antigidade. E completou:  Os 
alcolatras j sabiam disso h muito, muito tempo mesmo. 
Nenhum alcolatra  maior que o outro. Todos eles se beijam, 
todos eles se abraam, todos cantam juntos. Somos sem 
bandeira. T entendendo?
Observei lentamente o vendedor de idias. Ele investia 
seu tempo em nos treinar. Tinha uma pacincia de J, e agora, 
no auge do seu sonho, vinha uma frustrao dessas. Ele 
caminhou em direo aos dois e os abraou. E em tom de 
brincadeira disse:
 Algumas pessoas podem viver fora do casulo para 
sempre, outras de vez em quando precisam voltar para casa.
E, alm de no estar decepcionado, confirmou a idia do 
Boca de Mel. Incrvel!
 De fato, os alcolatras so seres humanos sem 
fronteiras, em especial se no forem agressivos. Por qu? 
Porque em determinados casos o efeito do lcool no crebro 
bloqueia os arquivos da memria que contm os preconceitos, 
o prejulgamento, as barreiras culturais, nacionais, sociais. Mas 
 melhor e mais seguro fazer essa conquista sbrio. Por meio 
da difcil arte de pensar e escolher.
E, no mostrando nenhum constrangimento, comeou a 
danar no meio de todos. Estava animadssimo. Sabia que 
ningum muda ningum, a no ser a prpria pessoa. Sabia 
mais do que todos ns que fora do casulo sempre h 
imprevisibilidades.
Observando a fraterna atitude do mestre perante os 
alunos que fugiam completamente do padro aceitvel, me 
convenci de que a grandeza de um mestre est em ensinar os 
rebeldes e os que tm dificuldade em aprender, e no os 
notveis da classe. Quantos crimes cometi! Nunca abracei um 
rebelde ou apostei num relapso.
Chamei a professora Jurema de lado e disse-lhe:
 Sepultei alunos nos pores do sistema educacional. 
Jurema, olhando para o espelho da sua histria, teve coragem 
de tambm confessar:
 Infelizmente, eu tambm. Em vez de incentivar a 
rebeldia criativa, a intuio, o raciocnio esquemtico nas 
respostas, exigia preciso das informaes. Formamos jovens 
estressados, tensos, com instinto de predadores, ansiosos para 
serem o nmero um, e no pacificadores, tolerantes, que se 
sintam dignos de ser o nmero nove ou dez.
Tnhamos a impresso de que depois dessa experincia 
saamos da infncia e entrvamos na meninice sociolgica. A 
festa entrou madrugada adentro. Ficamos bbados de alegria. 
Barnab foi chamado para entrar para o time dos sonhos. 
Bartolomeu e Barnab se tornaram a dupla mais excntrica, 
atrapalhada e perigosa daqueles ares. Tnhamos dvidas se 
eles se regenerariam ou se nos deixariam mais birutas do que 
ramos. Mas no importa, pois tambm estou aprendendo a 
adorar essa vida.

O vendedor de sonhos no templo financeiro
A fama do mestre crescia dia a dia, e comeava tambm a 
resvalar na elite financeira. Os empresrios e executivos 
tinham ouvido falar sobre esse homem incomum, e, como 
eram vidos por novos mtodos de liderana e novas formas de 
criatividade, fizeram chegar a mim um convite para que o 
mestre lhes desse uma conferncia. Queriam conhecer a 
mente daquele que estava incendiando a sociedade.
Para mim, terico do marxismo, essa elite s se 
interessava em primeiro lugar pelo dinheiro, em segundo lugar 
pela sua conta bancria e em terceiro, pelo seu capital. Quase 
respondi, impulsivamente, que o vendedor de idias no 
aceitaria a solicitao, mas, para no atropelar sua deciso, fui 
comunicar-lhe.
Entretanto, me surpreendi. Depois de pensar no convite, 
o mestre disse que falaria com eles, mas num auditrio que ele 
escolhesse. E me deu o endereo. Era um local de que eu 
jamais ouvira falar. No sabia o tamanho do anfiteatro, se 
havia ar-condicionado nem poltronas confortveis. S sabia 
que esse pessoal era exigente, estava acostumado ao mximo 
de conforto.
Disseram-me que o pblico seria constitudo de cerca de 
cem empresrios e executivos, dos quais apenas cinco eram 
mulheres. Havia industriais, banqueiros, proprietrios de 
grandes construtoras, donos de redes de supermercados, de 
cadeias de lojas e outros ramos. Representavam a maior parte 
da riqueza da grande megalpole e tambm do estado.
A elite financeira ficara excitada com a aceitao do 
convite, mas como sempre fui crtico desse povo, dei-lhes um 
banho de gua fria. Disse que o homem que eles ouviriam era 
intrpido, capaz de fazer at socialistas como Lnin fungar. 
Minha espetada causou mal-estar nos participantes. E depois 
disso, fiz uma brincadeira realmente maldosa. Disse que o 
vendedor de sonhos poderia cham-los de raa de vboras da 
sociedade capitalista, de casta de burgueses exploradores. Eles 
no gostaram da brincadeira. Ficaram muito apreensivos. Mas 
mesmo assim queriam garimpar as idias desse fascinante 
homem.
Pegaram o endereo e definiram o horrio da reunio. 
Alguns lderes acharam estranhos que desconhecessem o local, 
pois estavam acostumados a organizar eventos nos melhores 
lugares da cidade. Na noite do encontro, o mestre saiu na 
nossa frente. Parecia que fora meditar. Ser que estava 
afinando sua artilharia?, pensei. Ser que estava pedindo ao 
seu Deus sabedoria para puxar o tapete da classe dominante? 
 sua oportunidade de ouro para quebrar a espinha dorsal da 
elite financeira, continuei refletindo. Mal eu poderia prever o 
que aconteceria. Eu ficaria atnito, e eles, perplexos.
Como tambm no sabamos o endereo, fomos pedindo 
informaes. Estvamos prximo da numerao da rua, mas 
no encontrvamos o local do evento. O lugar era estranho, 
mal iluminado. Logo vimos um grupo de pessoas tambm 
perdido. Eram os empresrios e executivos. Achavam que o 
endereo que eu dera estava errado. Mas afirmei que era esse o 
endereo que tinha. Contudo, pensei que eles poderiam ter 
razo. O mestre, por ser um desprivilegiado, poderia 
desconhecer os anfiteatros da cidade. Dera-nos informao 
errada.
Os lderes empresariais estavam decepcionados. 
Resolvemos seguir juntos na rua e procurar um pouco mais 
adiante. De repente, demos num grandioso e lgubre 
cemitrio. Era o famoso Cemitrio da Recoleta. Perturbado, 
verificamos que o nmero batia com o que tnhamos. Pensei 
comigo: Se o mestre j tem fama de desvairado, agora ela se 
cristalizou na mente desse povo. Provavelmente, ele deve 
estar do outro lado da cidade.
Salomo disse:
 Eu enfrento os fantasmas na minha mente, mas 
detesto me aproximar de um cemitrio, ainda mais  noite. 
Vamos embora.
Sem muita segurana, segurei no seu brao. Pedi calma. 
Os participantes comeavam a chegar com seus carros 
luxuosos e a se aglomerar. Todos estavam confusos. Pela 
primeira vez me rebaixei perante essa turma. Pedia 
freqentemente desculpas pelo equvoco do endereo.
De repente, quando ameavamos ir embora, as portas do 
grande cemitrio se abriram, rangendo as dobradias. 
Imediatamente Boquinha de Mel abraou Mo de Anjo e 
comeou a tremer.
 S entortado pela vodca eu entro nesse lugar.
To logo Bartolomeu fez essa observao, apareceu uma 
figura estranha, amedrontadora. Estava irreconhecvel devido 
 iluminao deficiente da entrada, se bem que no interior do 
cemitrio a iluminao fosse melhor. O personagem fazia 
gestos para entrarmos. Era simplesmente o conferencista da 
noite, o mestre. Ficamos sem voz ao constatarmos que o 
endereo estava certo.
Todos ns, discpulos e empresrios, comeamos a nos 
mover lenta e apreensivamente para o singular anfiteatro. 
Cada um olhava sutilmente para o outro e devia pensar a 
mesma coisa: O que estou fazendo aqui!. Era a primeira vez 
que se tinha notcia de que uma conferncia sobre criatividade 
e liderana ocorreria num cemitrio. Era a primeira vez que se 
falaria sobre o pungente mundo dos vivos no palco dos 
mortos.
Enquanto nos aproximvamos do local da sua fala, o 
mestre usava a voz grave e vibrante e saudava de forma 
excepcional os participantes:
 Bem-vindos os futuros personagens mais ricos do 
cemitrio. Sintam-se em casa.
As pernas dos empresrios bambearam. Estavam 
acostumados a grandes embates, a batalhas competitivas, a 
riscos fenomenais, mas no a esse desafio. Foram nocauteados 
no primeiro round por um annimo. Eu no sabia o que falar 
nem como reagir, e as pessoas ao meu redor estavam 
igualmente atarantadas. O Cemitrio da Recoleta  imponente. 
 um cemitrio dos abastados. Seus mausolus so suntuosos, 
verdadeiras obras de arte.
Vendo-nos introspectivos, o mestre continuou a deixar 
fluir suas idias.
 Os notveis homens e mulheres da sociedade aqui 
jazem. Sonhos, pesadelos, sentimentos secretos, emoes 
visveis, golpes de ansiedade, momentos de raro prazer 
constituram a vida de cada ser humano que aqui repousou. 
Suas histrias esto adormecidas. E raramente algum se 
preocupa com elas, a no ser seus ntimos.
No sabamos aonde o mestre queria chegar, nem mesmo 
sabamos se a conferncia havia comeado ou se haveria 
conferncia. S sabamos que suas palavras nos conduziam a 
um passeio pela nossa prpria histria. O passado dos 
falecidos revelava as vielas do nosso futuro. Sua fala, que 
parecia instigadora do medo, comeou a ter uma doura 
inexplicvel. Em seguida, ele fez um pedido a todos os 
participantes:
 Leiam durante dez minutos as amveis mensagens 
afixadas na cabeceira dos mausolus.
Eu nunca havia feito essa experincia sociolgica. Apesar 
de a luminosidade no ser excelente, comeamos a percorrer 
as ruas do cemitrio e a ler as mensagens cravadas em metal, 
que celebravam a existncia das pessoas que partiram. 
Quantas saudades! Quantas marcas! Quantas palavras 
carregadas de nobres significados! Algumas mensagens diziam: 
Ao meu gentil e dcil marido, com saudades da sua amada 
esposa. Que Deus o tenha em paz; Ao querido papai  O 
tempo furtou sua presena, mas jamais furtar o amor que 
sentimos por voc; Papai, voc  inesquecvel. Todos os dias 
o amarei; Ao amigo insubstituvel  Obrigado por ter 
existido e ter participado de nossa vida.
No sei o que aconteceu comigo ao ler essas placas, mas 
me envolvi numa atmosfera de afetividade. Comecei a 
relembrar as pessoas que perdera. Nunca escrevi uma placa 
para meu pai. Nem ao menos lhe agradeci por ter me dado a 
vida. O seu suicdio bloqueou meus sentimentos. Nem para 
minha valente me escrevi uma mensagem, a no ser aquela 
que trago silenciosamente na mente: Eu a amo. Obrigado por 
ter suportado minha rebeldia.
Olhei para o lado e vi todos os meus amigos e os 
empresrios emocionados. Viajaram no tempo. Abriram as 
portas do inconsciente e depararam com a mais crua 
fragilidade. Eram homens que dirigiam empresas com milhares 
de pessoas, mas agora se sentiam simplesmente mortais.
Nesse momento, senti que o mestre criara 
propositadamente um clima. Tirara-lhes completamente a 
segurana, os mecanismos de defesa, a proteo do status 
financeiro, para torpede-los com suas palavras. Quando abriu 
a boca, perguntou algo que todo empresrio detesta ouvir:
 Onde esto e quem so os proletrios da atualidade?
Pensei comigo: Essas pessoas vo debandar. Embora 
estejam atordoadas pela viagem ao passado, no agentaro o 
tranco das crticas do vendedor de idias. Ningum respondeu 
nada. A resposta, que parecia bvia, no era. Nesse momento, 
o mestre extraiu meu sangue sem injetar a agulha. Invertendo 
a teoria marxista, disse:
 Vocs so os proletrios da atualidade, pelo menos uma 
casta importante deles.
Eu pensei: Que afirmao  essa? Ser que ele no sabe 
quem  o pblico que est presente?. Tive vontade de sair 
correndo porque parecia que o mestre no entendia nada do 
que estava falando, nem para quem estava falando. Mas em 
seguida ele me fez derrapar nas curvas dos meus pensamentos. 
E comeou a explicar.
Disse que o filsofo Karl Marx (1818-1883) deixara sua 
terra natal e fora para Paris, onde conhecera Friedrich Engels 
(1820-1895). Os dois afinaram suas idias, tornaram-se 
membros de grupos socialistas e iniciaram uma colaborao 
que durou a vida toda. Para eles, os fatores econmicos e 
tecnolgicos, expressos pelo modo como os bens so 
produzidos e as riquezas distribudas, seriam as foras que 
desenvolvem a histria e aliceram a poltica, a lei, a moral, a 
filosofia, enfim, toda a cultura. Marx acreditava que a histria 
humana era governada pelas leis da cincia e rejeitava todas as 
interpretaes religiosas da natureza e da histria. Por meio 
dessas leis, as pessoas, em especial a classe trabalhadora, 
teriam liberdade de construir a prpria histria.
Mas comentou que essa to sonhada liberdade no se 
materializara. Quando alguns socialistas tomaram o poder 
tornaram-se implacveis, destruram milhares de supostos 
opositores, silenciaram vozes, tolheram direitos, esmagaram, 
enfim, a liberdade que discursavam. A classe trabalhadora no 
construiu sua prpria histria, mas a histria que a cpula 
determinou. A antiga religio fora substituda pelo culto  
personalidade desses lderes.
 A revoluo deles era externa - relatou, e adicionou:  
Diferentemente deles, meu sonho no  destruir o sistema 
poltico vigente para reconstru-lo. No creio em mudanas de 
fora para dentro. Creio numa mudana pacfica de dentro para 
fora, uma mudana na capacidade de pensar, se enxergar, 
criticar, interpretar os fenmenos sociais, e, em especial, na 
capacidade de resgatar o prazer. Meu sonho est dentro do ser 
humano.
Aps essa breve explanao, que revelava que ele sabia o 
que estava dizendo, comeou a falar que, quando Marx lanou 
suas idias, a classe dominante no distribua renda, usava o 
poder poltico e financeiro para oprimir a classe trabalhadora. 
Uma pequena minoria vivia nababescamente diante da misria 
de uma imensa maioria. A diferena de classes ainda existia, 
as injustias sociais ainda no haviam sido erradicadas, mas 
no terceiro milnio o sistema, com o advento da globalizao, 
gerara uma nova classe de pessoas exploradas.
 Vocs!  enfatizou novamente.
Ao ouvir sua afirmao, pensei outra vez: Mas no so 
eles os privilegiados? No vivem no luxo e na mordomia? 
Como  possvel classific-los como uma classe explorada, 
como os proletrios deste milnio?
Mas, para comear a fundamentar suas idias, ele 
comeou a jogar por terra um ditado popular que muitos de 
ns conhecamos:
 Nos sculos passados, antes de o sistema se 
desenvolver, uma fortuna demorava trs geraes para se 
acabar. Por isso, o velho ditado tinha fundamento: av rico, 
filho nobre, neto pobre. Mas nos dias atuais raramente esse 
pensamento tem validade. Uma empresa slida pode 
desaparecer em cinco anos. Uma indstria importante pode 
estar fora do mercado em pouco tempo. Enfim, a quantidade 
de anos de uma gerao pode ser suficiente para destruir trs, 
quatro, cinco ou mais fortunas.
Meu castelo de cartas comeava a desmoronar. Os 
empresrios, depois do susto inicial, ficaram pensativos e 
comearam a concordar com esse provocador misterioso.
 Para suas empresas sobreviverem, vocs tm de 
competir num processo sem fim. Para suas empresas no 
serem devoradas por concorrentes, tm de se redescobrir a 
cada ano, se superar a cada ms e se reinventar a cada 
semana.
E fez uma pergunta bsica, cuja resposta todos erraram:
 O sistema esmaga as empresas que caem na 
insignificncia ou na ineficincia?
Todos a uma s voz responderam que sim. Mas ele disse 
que no.
 Ele no esmaga as empresas. Esmaga seus lderes. 
Tambm nos disse que mdicos, advogados, engenheiros, 
jornalistas e tanto outros profissionais estavam no mesmo 
processo de esmagamento. Os donos do dinheiro comearam a 
entender que no eram to ricos como pensavam. Os 
proprietrios do poder comearam a perceber que no eram 
to fortes como imaginavam. Durante essa exposio inicial, 
algumas pessoas estavam ainda cticas. O mestre amava os 
cticos, pois podia peg-los na astcia das suas idias. Para 
no deixar dvidas, fez o diagnstico e mostrou o resultado:
 Senhoras e senhores, o tempo da escravido no foi 
extirpado das pginas da histria, apenas mudou de forma. 
Vou lhes fazer algumas perguntas e lhes peo plena 
honestidade, transparncia cristalina. Saibam que quem no  
transparente tem uma dvida impagvel com sua sade 
psquica. Respondam me: quem tem dores de cabea?
As pessoas ficaram um pouco constrangidas, mas, um 
aps o outro, comearam a levantar a mo. Verifiquei que 
quase todos levantaram a mo.
 Quem tem dores musculares? - Novamente a grande 
maioria levantou a mo, estava mais desinibida.
Depois ele comeou a fazer inmeras outras indagaes:
 Quem acorda fatigado? Quem tem queda de cabelo? 
Quem sente que sua mente  agitada? Quem sofre por 
problemas que ainda no aconteceram? Quem tem a sensao 
de estar por um fio? Quem se irrita por pequenos problemas? 
Quem tem emoo flutuante  num momento  tranqilo e 
noutro, quando contrariado, tem reaes explosivas? Quem 
tem medo do futuro?
A maioria dos presentes nem se dava ao luxo de abaixar a 
mo. Tinha todos os sintomas. Eu no acreditava no que via. 
Esfregava os olhos com as duas mos e me questionava: No 
so eles a elite da sociedade? Como podem ter pssima 
qualidade de vida? No so eles que tomam os melhores 
vinhos e champanhes? No freqentam os melhores 
restaurantes? Por que ento esto gravemente estressados? 
Fiquei abalado.
Minha mente no parava de refletir sobre os fundamentos 
socialistas. Eles precisavam ser corrigidos. Os burgueses 
andavam com carros de luxo, mas estavam paralisados por 
suas tenses. Iam  casa de praia, mas suas emoes no 
surfavam nas ondas do prazer. Dormiam em colches macios, 
mas faltava-lhes conforto psquico, o sono no era agradvel. 
Trajavam temos impecveis, mas estavam quase nus, sem 
proteo contra suas tenses e preocupaes.
Que loucura! pensei intimamente. Onde est a 
felicidade que o sistema prometeu para os que atingem o pdio 
do capitalismo? Onde est a tranqilidade para aqueles que 
acumularam riquezas? Onde est o prmio pela competncia? 
Eles fazem seguro de casa, de vida, empresarial, previdencirio 
e at seguro contra seqestro, mas por que tm uma rica 
sintomatologia, que denuncia uma dramtica insegurana? O 
sistema esmagava seus lderes.

Abalando alguns da teoria marxista
O questionamento do mestre no Cemitrio da Recoleta 
colocou nossos neurnios em estado de choque. Eu atacara a 
elite empresarial durante anos e anos em sala de aula, mas 
precisava rever alguns conceitos. Comecei a entender que o 
sistema traa a todos, em especial aos que mais o 
alimentavam. Atingia inclusive as celebridades, no apenas 
pela invaso de privacidade e pela contrao da sensibilidade, 
mas porque o sucesso era freqentemente fugaz. Era muito 
fcil cair na insignificncia.
Em nome da competitividade, o sistema sugava-lhes at a 
ltima gota de energia cerebral. Eles gastavam mais energia 
que muitos braais, viviam fadigados devido ao excesso de 
pensamentos. Eram vencedores, mas no levavam o prmio, 
pelo menos no para o territrio psquico.
Na produo industrial, em especial, o estresse se 
multiplicava, pois havia uma verdadeira guerra de preos 
baixos, distorcida por subsdios governamentais que 
contaminavam o valor dos produtos, capaz de desbancar 
empresas do outro lado do mundo. Acrescentavam-se a esse 
caldeiro as diferenas de impostos inseridas nos produtos e 
as diferenas salariais pagas pelos trabalhadores de cada pas, 
bem como o fenmeno dumping (empresas que colocam seus 
preos abaixo dos custos de produo para conquistar o 
mercado). Sobreviver era uma arte infernal.
A situao dos participantes no poderia ser pior. Trinta e 
cinco por cento deles tinham problemas cardacos ou eram 
hipertensos. Quinze por cento tinham cncer, alguns dos quais 
no virariam o ano com vida. Trinta por cento tinham crises 
depressivas. Dez por cento tinham sndrome do pnico. 
Sessenta por cento tinham conflitos conjugais. Noventa e 
cinco por cento tinham trs ou mais sintomas psquicos ou 
psicossomticos, sessenta e cinco por cento dos quais 
atingiam a incrvel marca de dez sintomas.
A explorao dos proletrios ainda existia em diversas 
naes. Mas nas sociedades desenvolvidas e nas emergentes, 
onde as leis trabalhistas eram justas e os direitos humanos 
respeitados, os grandes explorados eram os que tinham um 
trabalho intelectual intenso, como gerentes, diretores, 
empresrios, profissionais liberais, professores, jornalistas.
O rolo compressor era to avassalador que muitos 
executivos tinham a fleuma de levar seus problemas para casa 
e at para as suas frias. Os trabalhadores que tinham salrios 
satisfatrios, mas sem posio de liderana ou gerenciamento 
nas empresas, tinham tempo para os amigos, para sentir o 
perfume dos alimentos, relaxar nos finais de semana, dormir e 
despertar sem ser asfixiados com preocupaes. Enquanto 
para os lderes empresariais, essas experincias eram artigo de 
luxo. No bom sentido da palavra, os vassalos viviam pela 
primeira vez melhor que o feudo.
Foi ento que entendi com clareza por que o mestre 
insistia em dizer que o sucesso  mais difcil de trabalhar que 
o fracasso: o risco do sucesso  ser uma mquina de 
atividades. Marx e Engels se contorceriam no tmulo se 
soubessem que o desenvolvimento ltimo do capitalismo 
atingiria o sonho do socialismo: seria o caos da elite 
empresarial e o osis dos trabalhadores. Embora houvesse 
excees. O problema da classe trabalhadora era o 
consumismo, a compulso pelo crdito e o gasto acima da 
renda. Excetuando esses fenmenos, o topo do capitalismo 
produziria o reino dos trabalhadores e a explorao mental de 
grande parte dos que exerciam posio de liderana.
O que era interessante  que nenhuma estatstica 
abordava a nova casta de explorados. Parecia que eram fortes, 
auto-suficientes, semideuses, no precisavam de apoio e muito 
menos de sonhos. No eram seres humanos sem fronteiras, 
eram seres humanos entrincheirados. Excetuando alguns 
poucos cursos e consultas mdicas espordicas, quase nada se 
fazia por eles. Depois dessa abordagem, ficou patente que o 
mestre sabia muito bem o que estava falando e para quem 
estava falando. S no sabamos como ele sabia de tudo isso. 
Como pode um maltrapilho deter todas essas informaes? 
Que homem  esse que transita entre os miserveis e os 
milionrios com inigualvel desenvoltura? De onde procede?
Bartolomeu, ao ver os participantes da excepcional 
conferncia reconhecerem que estavam fragilizados, no 
suportou ficar quieto. Levantou a mo direita e interpelou o 
mestre:
 Chefinho, esses caras esto mal das pernas! Vamos 
fazer uma vaquinha para ajud-los.  Provavelmente achou 
que os participantes estavam bem-trajados porque iam a algum 
baile de fantasia.
Foi a primeira vez na civilizao moderna que um 
miservel chamou os membros da elite financeira de 
pauprrimos. Foi a primeira vez que um proletrio se sentiu 
mais rico que os milionrios da sua sociedade. Sua fala foi to 
espontnea que o que era trgico tornou-se cmico. Os 
participantes olharam uns para os outros e sorriram 
ininterruptamente. No desrespeitaram os mortos com suas 
gargalhadas, riram da prpria miserabilidade. Precisavam 
comprar muitos sonhos se quisessem ter o mnimo de sade 
psquica.
No bastassem as surpresas da noite, aconteceu outra que 
nos deixou literalmente de cabelo em p. Subitamente saiu de 
dentro de uma tumba, localizada quatro metros  frente da 
primeira fila dos presentes, uma figura assustadora, com um 
palet branco velho na cabea. E deu um grito horripilante:
 Eu sou a morte! Vim peg-los!
Essa cena no estava no script do mestre, que tambm 
levou um susto. O tumulto foi to grande que pela primeira 
vez acreditei em fantasmas. Meu corao, e penso que tambm 
o dos demais presentes, queria sair pela boca. O que era 
aquilo? Samos da esfera da razo para o terreno da fobia. 
Alguns comearam a sair correndo, mas o fantasma deu 
algumas risadas e nos acalmou.
 Calma, gente. Calma! Por que esto desesperados? 
Logo dormiremos num lugar como este.
A figura tirou o palet da cabea. Era o infeliz do Barnab. 
Bartolomeu e Barnab, a dupla incontrolvel, tinham de dar 
seu show, no importava onde estivessem. Bom senso nem 
para remdio.
Toda vez que estvamos no auge da sobriedade, caamos 
nos patamares mais inspitos da doidice. Eles estragavam 
tudo. Se no passado fossem meus alunos, certamente eu os 
expulsaria. Mas felizmente encontraram outro mestre que 
apostava tudo o que tinha em quem pouqussimo tivesse. No 
conseguia entender como conseguia amar esses baderneiros 
incorrigveis.
Percebendo que a platia ainda estava tensa, Barnab 
tirou um chocolate do bolso e comeou a com-lo. Durante a 
mastigao, resolveu contar um pouco da sua histria. 
Comoveu a todos:
 Vim muitas vezes embriagado e deprimido a este 
cemitrio para fazer terapia. Como os vivos raramente 
conversavam comigo por me tacharem de alcolatra, maluco, 
irresponsvel, e os poucos que conversavam logo vinham 
dando bronca e conselhos baratos, eu adentrava este cemitrio 
e conversava com os mortos. Aqui chorei pelos meus erros. 
Aqui disse que era um frustrado, algum que queria comear 
tudo de novo, mas falhava continuamente. Aqui confessei que 
me sentia um lixo humano. Aqui pedi desculpas a Deus pelas 
bebedeiras que tive, pelas saideiras que me faziam dormir nas 
praas, por ter abandonado minha famlia. Nunca um morto 
reclamou das minhas bobagens.
Os empresrios ficaram emocionados com a sinceridade e 
a facilidade de Barnab para dividir seus sentimentos, 
caractersticas que raramente existiam no meio deles. Tinham 
necessidade vital de se abrir, mas no podiam demonstrar 
fragilidade, no podiam ser humanos.
Ao ver o Barnab confessar suas mazelas, entrou 
Bartolomeu novamente no palco. Abraou-o e tentou consol-
lo da pior forma possvel.
 No chore, Prefeito. Minhas dvidas so maiores que as 
suas. Eu sou imoral.
 No, as minhas so piores. Eu sou um pervertido  
afirmou mais alto Barnab.
 No, meus erros so incontveis. Eu sou um crpula  
disse Bartolomeu num tom mais alto ainda.
 No, voc no me conhece direito. Eu sou um 
depravado.
E, para assombro geral da platia, comearam a disputar 
quem deles era o pior. Os empresrios nunca tinham visto 
isso. S conheciam a acirrada disputa para ver quem era o 
melhor. Ns queramos acabar com a disputa bizarra, mas 
temamos dar um escndalo maior. E para mostrar que era o 
mais devasso dos homens, Bartolomeu perdeu a pacincia. 
Disse:
 Sou corrompido, desonesto, mentiroso, no cumpro 
minhas promessas, no pago minhas contas, cobio a mulher 
do prximo. Alm disso, j furtei seu dinheiro quando estava 
bbado...
Interrompendo a lista enorme de erros de Bartolomeu, 
Barnab expressou, magoado:
 Pare, pare, pare! Reconheo que de fato voc  o maior 
cafajeste da face da terra.
 No exagere, Barnab!  reagiu Bartolomeu, sem 
gostar do ttulo.
Ao ouvir esse embate, eu, que no sei fazer orao, como 
no podia falar nada para silenci-los, olhei para as estrelas e 
disse baixinho: Deus tenha piedade desses miserveis. Cale 
sua boca!. Mas os empresrios os acharam divertidssimos. 
Queriam possuir a autenticidade e o desprendimento 
flagrantemente expressos pelos dois. Trabalhavam por anos ou 
dcadas com seus colegas, mas eram tmulos to fechados 
como os do anfiteatro que pisavam. No mundo profissional, 
viviam fora do casulo, no mundo psquico eram cofres, ilhas 
intocveis. No sabiam sequer dar um ombro para chorar, 
disfaravam seus sentimentos.
O mestre, em vez de repreend-los severamente, para 
nossa surpresa, os elogiou:
 Parabns, vocs me fizeram recordar minhas 
imperfeies.
 Conte comigo, chefinho  disse Boquinha olhando 
para mim, tentando me provocar e balbuciando: Al, 
superego. Aprenda comigo. Meu sangue ferveu num lugar 
como aquele, dos mais imprprios para ficar nervoso. Ah, 
como tambm sou imperfeito!, pensei.
Em seguida o homem que seguamos contou mais uma de 
suas histrias. Comentou que muitas espcies tinham mais 
vantagens fsicas e perceptivas que a humana. Elas viam 
melhor, ouviam com incrvel acuidade, corriam mais, saltavam 
com grande envergadura, percebiam odores mais sutis e mais 
distantes, mordiam com mais fora. Mas, apesar disso, a 
espcie humana tinha um crebro muito mais sofisticado, com 
mais de cem bilhes de clulas. E argumentou que um crebro 
to sofisticado deveria nos privilegiar com as asas da 
independncia. Entretanto, indagou aos presentes:
 Por que nosso crebro nos fez uma massa de seres 
dependentes, em especial na infncia? Raramente uma criana 
de quatro anos sobreviveria sozinha, enquanto com essa idade 
muitos mamferos ou rpteis no tm mais nenhum contato 
com os pais. Alguns j esto em plena fase reprodutiva, 
enquanto outros com quatro anos j so idosos. Por que somos 
mais dependentes que as demais espcies, apesar de amarmos 
a independncia e termos atrao pelo individualismo?  
disse ele, querendo dar uma descarga de lucidez em seus 
discpulos e na elite empresarial.
As pessoas ficaram emudecidas. No sabiam aonde o 
mestre queria chegar, mas sem perceber estavam penetrando 
no mercado das suas idias, no armazm dos seus sonhos.
Um idoso empresrio, que tinha mais de setenta anos de 
idade e aparentemente era um dos mais ricos da platia, 
puxou-me de lado e me disse baixinho:
 Eu conheo esse homem. Onde ele mora?
 O senhor nem imagina.  E completei:  Acho que o 
senhor est enganado.
 No! Eu conheo essa extraordinria mente de algum 
lugar.
Em seguida, outro empresrio, que tinha ao redor de 
cinqenta anos, que falira trs vezes e sempre investira no 
social, respondeu com uma s palavra  pergunta do mestre:
 Educao.
O mestre o exaltou:
 Magnfico. Educao  a chave! O crebro nos tornou 
completamente dependentes na infncia devido  necessidade 
vital de incorporao de experincias existenciais acumuladas 
ao longo das geraes. Elas devem ser aprendidas e 
assimiladas por meio da educao. No so transmitidas 
geneticamente. A educao  insubstituvel.  Aps isso, 
abalou os participantes alertando-os das conseqncias da 
explorao mental a que eram submetidos, e que 
possivelmente estavam transferindo para seus filhos.
Discorreu que muitos pais pressionam seus filhos para 
competir, estudar desvairadamente, fazer cursos, preparar-se 
para sobreviver no futuro, sem saber que a presso excessiva 
aniquila a ingenuidade da infncia, debela os valores 
existenciais, bloqueia o aprendizado das experincias, esfacela 
a humanidade deles. Depois de uma pausa para respirar e 
metralhou-os como fez comigo quando me conhecera:
 Seus filhos conhecem os acidentes que tiveram pelo 
caminho? Sabem como os superaram? Conhecem seus medos 
e suas incoerncias? Descobriram seus golpes de ousadia? 
Exploraram seus mais importantes ideais? Conhecem sua 
filosofia de vida, sua capacidade de intuir, analisar, refletir? E 
suas lgrimas, foram contempladas por eles? Desculpem-me, 
mas se no conhecem, vocs esto formando mquinas para 
serem usadas pelo sistema e no seres humanos para 
transform-lo. Se no conhecem, vocs esto desprezando os 
motivos fundamentais pelos quais nosso crebro nos fez 
dependentes.
E fez uma pergunta que tirou o sono de alguns:
 Durante trinta segundos coloquem-se no lugar dos seus 
filhos e pensem nas mensagens que eles escreveriam para 
serem afixadas um dia em seus mausolus.
Essa sugesto causou um turbilho psquico nos ouvintes. 
No gostaria de ler o que meu filho escreveria sobre mim. Ele 
nunca me conheceu. Sempre me escondi. Como pode algum 
que aparentemente vive  margem da sociedade valorizar 
tanto a educao? O que o move? Que segredos esconde?, 
pensei.
Depois de todo esse questionamento, ele calibrou seu 
pensamento e apontou para seu grande alvo:
 O sistema capitalista trouxe e tem trazido conquistas 
inimaginveis para a sociedade, mas corre srio risco de 
imploso em menos de um sculo, talvez em algumas dcadas. 
Todavia, no mais como Marx previa, por disputas de classes 
sociais, mas por um problema que est no seu cerne: ele 
produz a liberdade de possuir e se expressar, mas no a 
liberdade de ser. O desenvolvimento do capitalismo depende 
da ansiedade pelo desejado e no pelo necessrio. Depende da 
insatisfao crnica para empurrar o consumo. Se num 
determinado perodo a humanidade fosse formada de poetas, 
filosficos, artistas plsticos, educadores, lderes espirituais, 
haveria um colapso do PIB (Produto Interno Bruto) mundial, 
pois em tese essas pessoas so mais satisfeitas e consomem 
mais o necessrio. Talvez o PIB casse 30% ou 40% 
repentinamente. Haveria centenas de milhes de 
desempregados no mundo. Seria a maior recesso da histria, 
haveria guerras e disputas interminveis.
Depois desses argumentos, ele viu a platia boquiaberta. 
Os homens de negcios no tinham pensado nisso. Mas o 
mestre no quis mais entrar em detalhes sobre o trip: a 
educao, o consumismo e a insatisfao. Procurou 
desconversar. Em seguida, transformou a situao tensa num 
ambiente ameno. Comeou a vender o sonho do relaxamento.
 Retornando aos sintomas que lhes perguntei, vou fazer 
mais uma pergunta, e se me responderem coletivamente eu os 
convidarei para abrirem um hospital psiquitrico.
A platia de fato relaxou.
 Quem anda esquecido? Quem tem dficit de memria? 
Era incrvel, mas quase todos levantaram a mo. Esqueciam 
compromissos, informaes corriqueiras, nmeros telefnicos, 
locais onde haviam colocado objetos, nomes de pessoas. 
Descontrado, ele comentou:
 Alguns so to esquecidos que colocam a chave do 
carro dentro da geladeira e a procuram na casa toda.  As 
pessoas riram. E ele adicionou:  Mais engraados so os que 
procuram os culos sem perceber que esto na sua face. 
Outros chegam a esquecer os nomes de colegas com quem 
trabalharam por anos. Os mais espertos, para no dar gafe, 
perguntam a eles: Qual seu nome todo mesmo?. Na verdade, 
querem saber o primeiro nome.
Alguns empresrios j usavam essa tcnica. Desconfio que 
at meu mestre tambm a usava.
 Senhores, para esse dficit corriqueiro de memria, 
no procurem o mdico. E por qu?  indagou.
 Porque ele tambm est esquecido!  respondeu um 
senhor de terno azul e gravata cinza com listras creme.
Todos zombaram da prpria existncia estressante. 
Comearam a entender que o dficit de memria na maioria 
dos casos era uma tentativa desesperada do crebro para 
diminuir a avalanche de preocupaes.
Bartolomeu havia levantado as duas mos, indicando que 
estava superesquecido.
 Chefinho, por que eu sempre esquecia o nome das 
minhas sogras?
A turma no agentou sua petulncia. Barnab, que o 
conhecia de longa data, dessa vez no livrou a sua barra, 
entregou sua ficha:
 Tambm, o Boquinha casou trs vezes e se juntou 
umas sete. No dava tempo de assimilar o nome das sogras.
Boca de Mel olhou para a platia e abriu as mos, pedindo 
compreenso. Queria dizer: Nunca disse que sou santo!. De 
fato, no era flor que se cheirasse. Ele bem que tentava, mas 
no conseguia fingir que era normal.
O mestre tentou poup-lo.
 No o escolhi por causa dos seus erros ou acertos. Mas 
por quem voc , por causa do seu corao. No o corao 
fsico, mas o psquico.
E para mudar o foco que o constrangia, agiu mais uma 
vez com ternura.
 Tambm sou esquecido, Bartolomeu. Algumas pessoas 
me dizem: Mestre, a minha memria est ruim. Eu lhes digo: 
No se preocupem, a minha est pssima.
As reaes e as palavras que ouvi mais uma vez tiraram a 
venda dos meus olhos. Eu tambm era esquecido, mas jamais 
admitira que meus alunos esquecessem. Era um carrasco na 
correo das provas. Lembro-me de Jnatas, um brilhante 
debatedor de idias, que no entanto no sabia registrar as 
informaes num papel. Foi reprovado continuamente por 
mim e por outros colegas doutores. Ns o reputvamos como 
um alienado e irresponsvel, mas talvez fosse um gnio 
incompreendido. Foi jubilado pelo sistema. Ns ramos a voz 
do sistema. Atiramos no esgoto da educao possveis 
pensadores sem ter sentimento de culpa. Somente agora, que 
aprendia a comprar sonhos de uma mente livre, eu descobria 
que, se tivesse ampliado o leque para avaliar a mente dos 
meus alunos, poderia ter dado nota mxima para quem errara 
todos os dados.
Eu estava inconsolado com toda essa anlise. Fui 
intolerante at com meu filho. Joo Marcos tinha uma leve 
dislexia, no conseguia acompanhar direito sua turma. Mas eu 
exigia, pressionava, queria extrair dele o que no podia dar. 
Queria que fosse um exmio aluno para que no fundo minha 
imagem de pai e professor pudesse se destacar. De fato, a 
mensagem que meu filho e meus alunos deixariam em meu 
tmulo no seria carregada de elogios e de saudades.
Jurema parece que entendia o que eu estava pensando. 
Tocou meus ombros e me disse em voz baixa:
 Como disse Alexander Graham Bell, se andarmos pelos 
caminhos que outros j percorreram, chegaremos no mximo 
aos lugares que eles atingiram. Se no vendermos novas 
idias para que os alunos andem por novos caminhos, eles no 
mximo conseguiro construir a histria desses empresrios, 
que arrebentaram com sua sade e seus sonhos.
Os empresrios saram um a um, observando atentamente 
os mausolus pelos quais passavam. Durante a travessia, 
alguns lembraram que, do sculo XVI ao XIX, o inumano 
sistema comprara seres humanos de pele negra como se 
fossem animais e os encerrara nos pores funestos e ftidos 
dos navios, transportando-os como escravos para lugares 
distantes, como a
Europa e as Amricas. Atrs deles ficaram os amigos, os 
filhos, a esposa, a liberdade.  frente deles estava o futuro 
amedrontador, a dor, o trabalho forado e uma saudade 
incontrolvel.
Nos tempos atuais, o sistema parece ter fabricado novos 
escravos, s que lhes paga salrios altos e d-lhes uma srie de 
benefcios. Atrs deles tm ficado os filhos, a esposa, os 
amigos, os sonhos.  frente deles est um futuro incerto, 
voltil, competitivo, apreensivo e um trabalho mental forado. 
Como nos tem dito o vendedor de idias: a histria  cclica.
As ltimas conferncias dadas pelo mestre, em especial 
no Cemitrio da Recoleta, ganharam um destaque maior ainda 
na grande mdia. A sociedade local ficou impressionada pelo 
fato de at empresrios terem sidos magnetizados pelo 
enigmtico homem. Indagaes que inquietavam a minha 
mente inundavam tambm a mente das pessoas.
Algumas diziam que ele era o maior impostor de que se 
tinha notcia, outras, um pensador muito  frente do seu 
tempo. Algumas comentavam que era o maior destruidor da 
tranqilidade social, outras, ao contrrio, o maior promotor 
dela. Algumas comentavam que era um grande ateu, outras, o 
portador de uma incompreensvel espiritualidade. Algumas 
diziam que era de outro mundo, outras, que era uma das raras 
pessoas que no perdera a essncia humana. Talvez fosse uma 
mistura de tudo isso ou nada disso, pensavam determinadas 
pessoas. Discorrer sobre sua identidade tornou-se, assim, uma 
das conversas mais excitantes nos bares, restaurantes, nas 
salas de caf das empresas e at em escolas. As discusses 
eram apaixonadas.
Quanto mais sua fama crescia, mais suas dificuldades 
aumentavam. No dava entrevistas nem anunciava o roteiro do 
dia seguinte, mas mesmo assim era noticiado, pois sempre 
discursava em pblico. Quando ficvamos aborrecidos com as 
reportagens que distorciam as suas idias, ele nos acalmava, 
afirmando: No existe uma sociedade livre sem uma imprensa 
livre. A imprensa comete erros, mas silencie a imprensa, que a 
sociedade viver uma noite sem luz, ter uma mente sem 
voz.
Devido ao assdio social, no conseguia transitar pela 
sociedade sem ser fotografado. O mestre no apreciava ser 
uma celebridade. Estava estudando a possibilidade de mudar 
de metrpole ou de pas. Pensava em vender sonhos no 
Oriente Mdio, na sia ou em qualquer lugar em que as 
pessoas o vissem apenas como um simples mortal.
J no era mais possvel fazer debates em lugares 
pequenos. Ele era um plo de atrao social. Freqentemente 
centenas de pessoas se reuniam espontaneamente para ouvi-
lo. Tinha que elevar o tom de voz, e mesmo assim as camadas 
mais externas da multido no conseguiam discernir suas 
palavras. Seu ensinamento era passado oralmente, de boca em 
boca. No gostava de fazer debates em anfiteatros fechados 
nem de usar recursos multimdia; amava falar ao ar livre. Um 
dos motivos era para que os que no apreciassem suas idias 
tivessem liberdade de sair de cena mais facilmente.
Observando o movimento em torno do mestre, algumas 
empresas queriam associar a imagem delas  dele. Queriam 
fazer o marketing de que eram inovadoras, ousadas, 
inexplicveis. Mas ele tinha calafrios diante dessa 
possibilidade. Depois de recusar inmeros presentes e ofertas 
de dinheiro pelo uso de sua imagem, algo incomum aconteceu. 
Algumas pessoas muito bem-trajadas do poderoso grupo 
Megasoft procuraram-nos separadamente, sem a presena do 
mestre, e fizeram-nos uma proposta aparentemente muito 
interessante.
O primeiro contato foi comigo, com Salomo e com 
Dimas. Em primeiro lugar, elogiaram intensamente o trabalho 
social que o mestre estava fazendo. A sociedade tornara-se 
mais solidria, mais afetiva e mais humana depois que ele 
aparecera por esses ares, disseram-nos. E acrescentaram:
 Sabemos que ele pauta sua vida pela humildade, que 
no ama a fama, mas queremos lhe fazer uma grande surpresa, 
uma homenagem por tudo o que ele tem feito pela sociedade. 
A homenagem no  lhe dar bens materiais, pois sabemos que 
no aceitaria, mas mostrar nosso reconhecimento oferecendo 
o maior estdio coberto da cidade, que pertence a uma das 
empresas do grupo, para que ele d uma conferncia para mais 
de cinqenta mil pessoas. Essa conferncia seria televisionada 
e, depois, retransmitida como um programa especial, num 
horrio nobre, para todo o pas. Milhes de pessoas iriam ouvi-
lo.
Ficamos animados e, ao mesmo tempo, pensativos com a 
oferta. Mas os lderes do grupo empresarial pareciam dotados 
de uma inteno pura. Para nos seduzir ainda mais, nos 
disseram:
 Por favor, no nos privem nem privem a sociedade 
desse privilgio. Todos querem e precisam ouvir esse sbio 
vendedor de sonhos. H inmeras pessoas se deprimindo, se 
angustiando, pensando em suicdio, se drogando, vivendo 
ansiosamente, e que poderiam ser ajudadas pelas suas 
palavras. Fazemos questo de lhe prestar essa homenagem e 
de dar esse presente para a populao. A nica coisa que 
pedimos  que ele no fique sabendo. Reiteramos que 
queremos lhe fazer uma grande surpresa.
Como o assunto era delicado, conversamos com todo o 
grupo. Depois de refletir sobre a proposta e analisar o benefcio 
que a sociedade teria, achamos que poderia ser bom. Afinal de 
conta, milhes seriam atingidos. Tambm pensamos que j era 
tempo de o mestre receber publicamente uma homenagem. 
Boquinha de Mel e Barnab ficaram excitadssimos com a 
proposta. Jurema foi a nica pessoa que no gostou muito da 
idia, justamente ela, que tinha aes do grupo Megasoft. Mas, 
por fim, cedeu.
Tnhamos que armar um esquema para levar 
disfaradamente o mestre para o estdio. Organizamo-nos, e 
na data marcada o conduzimos ao grandioso estdio. Logo que 
nos aproximamos do local, vimos o trnsito congestionado e 
inmeras pessoas entrando pela porta central. Quando 
chegamos perto da entrada privativa, o mestre achou 
estranho. Questionou:
 Por que devemos entrar nesse local?  E mostrou 
desconforto.
Como no podamos revelar a homenagem, pedimos que 
acatasse em silncio nossa solicitao. Falamos que iramos a 
um show. Como continuava nos questionando, ns o 
colocamos contra a parede.
 Ao longo da caminhada, voc nos fez inmeros pedidos 
e ns o ouvimos. Ser que no pode acatar o que lhe pedimos?
Foi uma chantagem dizer isso, pois sabamos que o 
mestre muitas vezes nos ouvia e nos suportava. Pressionado, 
ele nos seguiu silenciosamente.
Quando amos entrar na sala vip, ele indagou 
apreensivamente:
 Quem preparou o evento?
 Algumas pessoas que gostam muito de voc. Espere e 
ver  dissemos, sem lhe dar maior explicao.
Os executivos do grupo Megasoft estavam numa sala 
especial, preparando o evento. Na sala em que nos 
encontrvamos, havia uma rica mesa de frutas, frios e sucos. O 
mestre no comeu. Estava compenetrado, introvertido, 
reflexivo. Comeamos a comer como esfomeados.
Barnab pegou um grande cacho de uvas sem semente e, 
socando vrios bagos na boca ao mesmo tempo, expressou 
quase incompreensivelmente:  Essa turma  gente fina.
Bartolomeu, com trs fatias de salame na boca e duas de 
presunto, balbuciou:
 Estou gostando desses empresrios.  Em seguida 
comeou a cantarolar para despistar o que falara.
Fizemos um sinal para que comessem quietos. O mestre 
percebeu alguma coisa no ar. Inquieto, olhava para o alto, 
como se se desligasse do ambiente para meditar. Passados 
longos vinte minutos, chegou o momento da conferncia. Trs 
moas muitssimo bem-trajadas nos conduziram at o palco. O 
mestre caminhava lentamente pelos corredores, 
diferentemente do seu andar corriqueiro.
Antes de nos dirigirmos para os nossos assentos, os 
organizadores do evento, trajando ternos impecveis, vieram 
ao nosso encontro e nos cumprimentaram. Por ltimo, 
cumprimentaram o mestre. Eram cinco executivos. O ltimo 
deles parecia ser o lder, talvez o diretor-presidente de uma 
das empresas do grupo. Ao cumpriment-lo, apertou sua mo e 
lhe disse em tom de brincadeira:
 Bem-vindo a este estdio. Obrigado por seus delrios. 
Grandes homens tm grandes sonhos.
O mestre, sempre bem-humorado, nunca se importara que 
dissessem que seus sonhos fossem delrios, mas, 
aparentemente incomodado com o ambiente, fitou o executivo 
e dessa vez no lhe agradeceu pelas palavras, apenas penetrou 
profundamente nos olhos dele. O lder ficou desconcertado. 
At ento o mestre talvez realmente pensasse que assistiria a 
um show. Aps os cumprimentos, os organizadores foram se 
sentar em frente ao palco, do lado direito, e ns fomos nos 
sentar do lado esquerdo.
Na parte alta do palco, havia um enorme telo de oito 
metros de altura por dezesseis de largura. Outros teles 
estavam espalhados pelo estdio. Subitamente apareceu o 
apresentador do evento no palco, trajando um terno preto. No 
citou o nome dos executivos nem da empresa patrocinadora. 
Fez tudo com simplicidade, como deveria ser. Com uma voz 
vibrante, comeou diretamente a apresentar o vendedor de 
sonhos. A imensa platia silenciou.
 Senhoras e senhores, temos a enorme satisfao de 
apresentar-lhes a pessoa mais complexa e inovadora que 
surgiu nesta sociedade nas ltimas dcadas. Um homem que, 
sem carto de crdito, sem uma equipe de marketing, sem 
dinheiro, sem revelar sua origem e sua cultura acadmica, e 
sem ttulos sociais, contagiou a sociedade com sua 
sensibilidade e altrusmo. Conseguiu conquistar um prestgio 
que muitos polticos, com toda a mquina pblica, no 
conquistaram. Conseguiu uma fama invejada por celebridades. 
Ele  um fenmeno social!
Nesse momento, fazendo eco s suas palavras, as pessoas 
interromperam a apresentao para aplaudir o homenageado. 
Olhamos para o mestre e percebemos que no estava feliz. Ele, 
que sempre se sentira bem em qualquer lugar, que tinha uma 
exmia capacidade de se adaptar aos mais diversos ambientes, 
parecia incomodado com os elogios. Mas era indubitvel que 
era um fenmeno social. Ns o seguamos porque era uma 
pessoa excepcional. O apresentador continuou:
 Grandes e pequenos o seguem. Annimos e cones 
sociais o ouvem. Esse homem tem deixado a esquerda poltica 
atnita e a direita pasma. No conhecemos sua identidade. 
Estamos h meses perplexos. A imprensa, as autoridades e at 
as pessoas perguntam: de onde ele veio? O que viveu? Quais 
foram os captulos mais importantes de sua histria? Por que 
procura abalar os pilares da sociedade? Qual o seu objetivo? 
No sabemos. Ele se diz apenas um vendedor de sonhos, um 
mercador de idias numa sociedade que deixou de sonhar.
Aps definir o indefinvel homem que seguamos, ele 
chamou o mestre at o palco, fazendo uma espcie de 
brincadeira que levou a platia a sorrir:
 Com vocs, o vendedor de pesadelos! Disse que 
estvamos ali para homenage-lo. Constrangido, ele se 
levantou e se dirigiu at o centro do palco. Foi ento que 
comeou a perceber o que estava acontecendo. Foi comovente 
ver as pessoas aplaudi-lo prolongadamente. Ns, seus 
discpulos, em sintonia com a platia, tambm o aplaudimos 
emocionadamente.
 Por sua vez, enquanto caminhava, ele mexia os lbios, e 
parecia dizer para si mesmo continuamente: Eu no mereo. 
Eu no mereo. Rapidamente lhe colocaram um microfone de 
lapela, ainda sob o som dos aplausos.
Parecia incrvel que um homem vestindo um velho palet 
preto com dois remendos brancos, um na frente, outro nas 
costas, camisa amarela sem engomar, cabelos semilongos 
levemente despenteados e barba por fazer, que fazia debates 
em pblico mas amava o anonimato, fosse to querido. Aps os 
aplausos, as pessoas aguardavam suas palavras.
No palco, olhou para os lderes do evento e no os 
felicitou pelo acontecimento. Em seguida, deu alguns passos e, 
fitando a multido, iniciou sua fala com estas palavras:
 Muitos se dobram diante de reis devido ao seu poder. 
Outros se curvam diante de milionrios devido ao seu 
dinheiro.         Outros ainda se prostram diante de celebridades 
devido a sua fama, mas eu, com muita humildade, me curvo 
diante de todos vocs. No mereo essa homenagem.
A multido que estava no estdio foi ao delrio. As 
pessoas se levantaram novamente e o aplaudiram. Nunca 
haviam visto um homenageado homenagear solenemente a 
platia que lhe assistia. Silenciosamente, esperou que as 
pessoas diminussem os aplausos para continuar suas palavras. 
Quando ia inici-las, o apresentador o interrompeu. No 
entendemos o motivo da interrupo, pois parecia que a 
apresentao tinha sido completa, mas ele nos surpreendeu 
dizendo:
 Senhores e senhoras, antes que esse misterioso e 
inteligente homem nos brinde com suas magnficas palavras, 
gostaria de lhe fazer um tributo por tudo o que ele tem feito 
pelo sistema social.
Em seguida, olhou para o mestre e pediu gentilmente que 
continuasse no centro do palco, e apenas se virasse para 
assistir a um inusitado filme que passaria no enorme telo do 
estdio. Nesse momento, desligaram seu microfone.
Comearam a passar um filme. Espervamos campos, 
flores, vales e montanhas para homenagear o mestre. Mas o 
filme no mostrava a primavera, e sim o rigor do inverno; mas 
no um inverno fsico, e sim um dramtico inverno psquico. 
Mostrava a entrada principal de um grande e envelhecido 
hospital. No era um hospital geral, era um hospital 
psiquitrico, um dos poucos que sobrara naquela regio. As 
paredes externas tinham cor marrom-escura, com manchas 
desbotadas. Havia diversas rachaduras em forma de estrias 
horizontais. O edifcio tinha trs andares, e sua arquitetura era 
retilnea, contrastando com as formas da psique, que no eram 
retilneas, previsveis nem lgicas. A imagem no encantava os 
olhos.
Em seguida, o olho da cmera adentrou pelos espaos do 
hospital e comeou a mostrar alguns pacientes psicticos 
conversando sozinhos, outros tremulando as mos, esses 
impregnados com medicamentos. O olho da cmera penetrou 
nos corredores e revelou outros pacientes sentados em bancos 
desconfortveis, com o olhar fixo no infinito ou com a cabea 
entre as pernas. Nenhuma das imagens tinha som, nem fundo 
musical.
Achamos estranhssimo aquilo. Pensvamos que se 
tratasse de um filme de fico, mas no era bem filmado. O 
cinegrafista tremia a cmera, parecia amador. De vez em 
quando se interrompia rapidamente o filme, e a cmera do 
estdio colocava a face do mestre na tela. Ele meneava a 
cabea, parecia estar descontente. No sabamos o que se 
passava na sua mente, se estava mais confuso do que ns ou 
se estava entendendo a homenagem por um ngulo que no 
conseguamos enxergar, ou se estava condodo dos pacientes 
exibidos na tela. Talvez mais adiante o filme o mostrasse 
irrigando aquele lugar com seus sonhos, afeto e solidariedade.
De repente, como num filme de terror, o som comeou a 
aparecer. Todo o estdio levou um susto ao ouvir algum 
gritando no interior de um quarto, dizendo:
 No! No! V embora!
Era um paciente psiquitrico desesperado. A cmera 
direcionou seu foco para a porta desse quarto. Ela se abriu 
lentamente e mostrou um paciente agoniado no fundo do 
quarto, sentado na cama com as mos tampando o rosto. No 
parava de gritar: V embora! Saia da minha vida!. Estava 
muito aflito, num estado de ansiedade incontrolvel, e tentava 
afugentar os monstros que assombravam a sua mente. Suas 
mos continuavam sobre o rosto. Flexionava o corpo sem 
parar, como algumas crianas autistas. Vestia uma camiseta 
branca amarrotada, cujos botes estavam presos nas posies 
erradas. Seu cabelo estava desgrenhado, revelando descuido 
consigo mesmo, um marcante auto-abandono.
A pessoa que o filmava perguntou-lhe:
 Que imagem o est deprimindo? ; O som no estava 
perfeito, mas era possvel ouvir:
 Tenho medo! Tenho medo! Socorro! Meus filhos vo 
morrer! Ajudem-me a tir-los desse lugar!  bradava ofegante, 
dominado por um pnico indecifrvel. Quem o filmava insistia 
na pergunta:
 Estou aqui para ajud-lo. Calma. O que o angustia? 
Abalado, disse:
 Estou dentro de uma casa que est desabando. A casa 
est lutando contra si mesma.  Em seguida, alucinando, o 
paciente falou com os personagens que s ele via e ouvia.  
No! No se destruam! Vou ser soterrado! No me deixem sem 
ar!
As pessoas do estdio ficaram mudas. Algumas 
comearam se sentir asfixiadas. Ns tambm sentimos a 
garganta apertar. O paciente comeou a dizer que as 
estruturas da casa comeavam a lutar vorazmente entre si. 
Estvamos confusos com o filme. Ningum entedia nada. 
Nunca ouvramos falar das partes de uma casa digladiando 
uma com a outra. Era o pice da loucura. Nem mesmo 
entendamos por que o cineasta filmara o caos psquico desse 
paciente. No sabamos nem se era um profissional de sade 
mental que usaria o filme para futura anlise e tratamento do 
paciente. Ser que o mestre vai aparecer e resgatar esse 
paciente?, pensei.
 Fale-me sobre suas vises  solicitou o cmera.
Sem tirar as mos do rosto, o paciente, com a voz 
trmula, expressou:
 O teto est gritando: Eu sou a parte mais importante 
dessa casa! Eu a protejo. Eu, somente eu, suporto o sol e as 
tormentas.
O cineasta, tentando extrair mais dados sobre as 
alucinaes do paciente, insistiu:
 Fale mais. Quanto mais falar, mais se aliviar. O 
paciente, contorcendo-se de medo, bradou:
 As obras de arte esto me deixando surdo. Protestam, 
protestam sem parar!
 O que elas dizem?
 Somos nicas nessa casa. Somos as mais caras. Todos 
os que entram pela porta principal nos observam. Admiram-
nos em primeiro lugar!  Suando frio, o paciente tentou 
expelir a voz que o ensurdecia:  Saia da minha mente! Deixe-
me em paz!
Nesse momento, lembrei-me de mim mesmo no alto do 
Edifcio San Pablo. No perdi a racionalidade, no fui 
seqestrado por alucinaes, no me senti um moribundo 
enclausurado numa masmorra fantasmagrica junto com meus 
filhos. Se eu vivera um drama indizvel, imagine a dor desse 
homem, que penetrara em todas as fronteiras da loucura. Sua 
aflio causava arrepios em mim e em toda a platia.
Mnica, que tambm j tinha experimentado os vales 
profundos da misria emocional, falou de maneira assustada e 
quase inaudvel:
 Como pode a mente humana entrar em colapso e 
desespero a esse nvel?
O sofrimento exposto na tela era to grande e cativava 
tanto nossa ateno que por instantes esquecemos o que 
estvamos fazendo naquele ambiente. O mestre continuava no 
centro do palco, de costas para ns, com o olhar fixo na tela. 
No era possvel definir seus sentimentos. Devia estar 
condodo da misria expressa solenemente na tela.
O paciente psiquitrico disse, com a cabea voltada para 
a parede:
 Ningum me entende! S me do remdios!  Em 
seguida relatou que a moblia queria praticar canibalismo 
contra as outras partes dessa casa. Bradou:  A moblia sob 
ataque de raiva quer engolir as obras de arte. Grita contra elas: 
Eu sou a nica parte digna dessa casa. Eu dou conforto! Eu 
decoro!
De repente, olhei para os executivos do grupo Megasoft e 
os vi sorrindo. Pensei comigo: no  possvel uma reao 
dessas diante de tanta dor. Esses caras sabem que o final ser 
suave, regado a felicidade. Certamente no so psicopatas. 
Como pode algum sorrir diante da desgraa dos outros?
E para completar a macabra filmagem, o paciente 
assombrara-se com outra parte da casa. Dessa surgiu uma voz 
mais orgulhosa, mais imponente e mais dominadora. O 
cmera, interessado em captar os mnimos detalhes da sua 
mazela psquica, perguntou mais uma vez:
 Quem o est inquietando?
O paciente deu as costas para a cmera, tirou as mos do 
rosto e colocou-as contra a parede. Seus pulmes procuravam 
desesperadamente o ar. A flutuao da camisa denunciava que 
estava ofegante. O cmera insistiu, sem brandura:
 Fale sobre esses fantasmas!  sua chance de vomitar 
seus monstros.
O paciente retomou suas reaes iniciais. Gritou:
 Tenho medo! Tenho medo! O cofre ameaa destruir 
tudo. Ameaa devorar toda a estrutura. Brada com voz de 
trovo: Eu financio tudo. Eu comprei vocs. Eu os trouxe  
existncia. Curvem-se diante do meu poder. Eu sou o deus 
dessa casa!
A respirao do paciente parecia a de um asmtico. 
Jamais eu vira algum to fragilizado. Jamais vira algum to 
necessitado. Estava preste a ter um enfarto. Nesse momento, 
tentando sair do calabouo, o paciente virou o rosto para a 
cmera e comeou a gritar desesperadamente:
 Vamos morrer soterrados. Tenho medo! Tenho medo! 
Socorro! Tudo vai desabar.
Como pela primeira vez sua face ficou descoberta, o 
cineasta deu um zoom e a captou num dose nico. Seu rosto 
em pnico ficou nas dimenses gigantescas do telo. Ao 
contemplarmos sua face, no foi a sua casa que desabou, foi 
nosso mundo. Perdemos o cho. Ficamos trmulos. Perdemos 
a voz. Ficamos paralisados. A cena era inacreditvel, surreal. O 
paciente do filme era o mestre...
No tive reao exterior, mas interiormente minha mente 
foi invadida por uma enorme tempestade. Em pnico, eu 
gritava dentro de mim: No  possvel! Seguimos um doente 
mental, um psictico. No  possvel!. A experincia 
sociolgica implodiu. Fomos enganados. O mpeto 
revolucionrio revestiu-se da mais plena fragilidade. Eu no 
sabia se tinha raiva de quem eu estava seguindo ou compaixo 
por sua misria. No sabia se me punia ou se me cobria de 
vergonha.
A platia estava atnita. Assim como eu, as pessoas no 
conseguiam acreditar que o personagem do palco fosse o 
mesmo do filme, pois, apesar da semelhana, aquele que ns 
reputvamos como mestre tinha barba um pouco mais 
comprida. Meus amigos apertavam os braos uns dos outros, 
querendo ser acordados de um sono que jamais queriam ter 
dormido.
O apresentador, para no deixar dvidas, fez um gesto 
para ligar o microfone do vendedor de sonhos. E como se 
estivesse num tribunal de inquisio, perguntou:
 O senhor poderia confirmar ser o personagem do filme 
 o senhor?
Todos fizeram silncio. Torcamos muito, mas muito 
mesmo, para que ele dissesse que no. Que havia um engano, 
que era seu ssia ou quem sabe um irmo gmeo. Mas, fiel  
sua conscincia, ele se virou para a multido, depois fixou os 
olhos no seu grupo de amigos, e, deixando escapar algumas 
lgrimas, disse sem meias palavras:
 Sou eu. Sim, sou eu.
Em seguida, cortaram o som do seu microfone. No 
precisava, pois ele no ensaiou se defender.
O locutor fez um ar de deboche e disse em tom menor:
 Um doente mental  e mexeu a cabea com ar de 
satisfao. Logo aps, elevou o tom de voz, voltou-se para uma 
cmera de TV que filmava o evento e disse assoberbadamente:
 Senhoras e senhores, descobrimos a identidade do 
homem que amotinava esta grande metrpole. Descobrimos as 
origens daquele que incendiava a mente de milhares de 
pessoas. De fato, ele  um grande fenmeno social.  E, 
apontando o dedo indicador direito para ele, enfatizou com 
sarcasmo:  Eis a o maior impostor de todos os tempos. O 
maior espertalho da sociedade. O maior golpista, o maior 
ilusionista e o maior herege deste sculo. E, para mostrar 
nossa gratido, lhe entregamos o ttulo de honra de maior 
vendedor de loucura, pesadelo, lixo, falsidade, estupidez que 
esta sociedade j produziu.
Nesse momento, fotos e mais fotos foram tiradas pelos 
jornalistas convidados. Uma belssima modelo saiu ao seu 
encontrou e lhe entregou o diploma. Os organizadores tinham 
planejado tudo nos mnimos detalhes. Por incrvel que parea, 
ele no o recusou. Delicadamente o recebeu. Os discpulos 
estavam perplexos, a platia estava paralisada, no se ouvia 
nenhuma conversa paralela.
Os msculos da minha face no se mexiam, meu 
raciocnio estava aprisionado. Minha mente borbulhava 
perguntas: Todas as idias que ouvimos e que nos arrebataram 
saram da mente de um psictico? Como  possvel? O que fiz 
da minha vida? Mergulhei num mar de sonhos ou de 
pesadelos? Sa de um suicdio fsico e entrei num suicdio 
intelectual? Psictico ou sbio?
Aps a revelao de que o paciente do filme era o homem 
que seguamos, os organizadores do evento dirigiram o rosto 
prazerosamente para ns, querendo nos dizer que ramos o 
mais excelente bando de trouxas, o maior grupo de otrios que 
a sociedade conhecera. Pareciam querer se vingar. Mas do 
qu? O que estava por detrs dessa armadilha? Por que arrasar 
um homem publicamente? Qual o motivo de tanta raiva contra 
um ser humano aparentemente inofensivo?
S mais tarde ficamos sabendo que, por culpa de um 
dos ousados discursos do mestre, ocorrera um desastre no 
valor das aes da gigante internacional da moda La Femme, 
pertencente ao grupo Megasoft. O desabamento do valor das 
aes se deu logo aps o mestre ter enfaticamente 
recomendado, no templo da moda, que nas etiquetas das 
grifes e no interior das lojas de roupas deveria haver tarjas 
orientando que a beleza no pode ser padronizada, que toda 
mulher tem sua beleza particular e que elas jamais deveriam 
se identificar com modelos que representavam a exceo 
gentica na espcie humana.
O grande problema era que o diretor-presidente da 
gigante da moda, que fora um dos organizadores do evento no 
estdio, escrevera uma nota na imprensa dizendo que a 
proposta era um absurdo, coisa de maluco. No bastasse isso, 
cometera o erro de colocar em destaque nessa nota uma frase 
infeliz de um brilhante poeta, frase essa que cultivava o 
desastre da sndrome de Barbie. Dizia: Que me desculpem as 
feias, mas beleza  fundamental. A nota havia corrido o 
mundo no apenas por meio da imprensa escrita, mas tambm 
da internet, gerando debates acalorados na mdia e produzindo 
uma reao de repdio em cadeia  empresa. Milhares de 
pessoas tinham enviado mensagens para as inmeras lojas do 
grupo La Femme espalhadas pelo mundo, contrapondo-se  sua 
filosofia.
O resultado foi que as aes da empresa caram trinta por 
cento em dois meses, gerando perdas de mais um bilho e 
quinhentos milhes de dlares. Foi um acidente econmico. O 
fenmeno da vingana, que s existe na espcie humana, 
mostrou suas garras. Desmascarar o homem que causara tanto 
dano virou questo de honra para os lderes dessa companhia, 
uma questo de sobrevivncia. Queriam um desmascaramento 
pblico para reconquistar a credibilidade perdida.
No sabamos onde enfiar a cara no estdio. Perdemos a 
coragem, o glamour e o entusiasmo. Eu, particularmente, 
aprendera a amar esse homem, mas minhas energias se 
esgotaram. Agora entendia a dor contida na simplista e 
impactante frase de John Lennon, quando se dissolveram os 
Beatles: o sonho acabou. Nosso movimento tambm se diluir 
inevitavelmente, pensei. Mas quando imaginava que fosse 
esse o sentimento de todo o grupo, me surpreendi com as 
mulheres, Mnica e Jurema. Eram elas mais fortes que os 
homens? No sei, mas sei que mostraram um romantismo 
irracional. Disseram:
 No importa se o mestre foi ou  psictico. Estivemos 
com ele nos aplausos, tambm estaremos nas vaias.
Dois homens tambm mostram um afeto ilgico:
 Sou mais louco que o chefinho. Pra onde vou?  
expressou Bartolomeu, completamente perdido.
Barnab no ficou para trs. Enfatizou:
 Se ele  doido no sei, mas sei que me fez sentir-me 
gente. No o abandonarei. Tambm sou mais maluco que ele.
 E, espetando Bartolomeu, disse:  Mas menos maluco 
que voc, Boquinha.
 Thank you, amigo  respondeu, sentindo-se elogiado. 
O mestre se preparou para sair. Deu as costas e tomou a 
direo da entrada. A multido ficou alvoroada. Pensvamos 
que queriam linch-lo. De repente, ouvimos as pessoas 
gritarem em coro:
 Fale! Fale! Fale!
O estdio parecia que viria abaixo. Os executivos ficaram 
preocupadssimos. Para no provocarem um gravssimo 
acidente com tumultos e pisoteios e macularem ainda mais a 
imagem da empresa, ligaram novamente o microfone dele e 
fizeram um gesto para que retornasse e falasse. Certamente 
pensaram que ele sujaria as prprias mos dando explicaes 
superficiais, argumentos sem fundamentos. Desprezavam, 
assim, o doente mental que tinham difamado. 
Verdadeiramente, no o conheciam.
Fitando a platia e depois o grupo que o seguia, ele alou 
suavemente a voz e, sem medo de si mesmo e da imagem que 
fariam dele, dissecou sua histria como um microcirurgio 
disseca pequenssimas artrias e nervos.
Delicadamente nos contou uma histria, a mais 
dramtica que j ouvi. S que dessa vez no era uma parbola, 
mas a sua histria real, crua, desnuda. O homem que eu 
seguira mostrava pela primeira vez as entranhas do seu ser. 
Fiquei cnscio de que eu tambm verdadeiramente no o 
conhecia.
 Sim, fui doente mental, ou ainda sou. Os psiquiatras e 
psiclogos, bem como vocs,  que devem me julgar. 
Internaram-me porque tive uma depresso gravssima 
acompanhada por confuso mental e alucinaes. Minha crise 
depressiva foi regada com o mais contundente sentimento de 
culpa. Uma culpa pelos erros indecifrveis que cometi com 
pessoas que amava muitssimo.
Nesse momento, fez uma pausa para respirar. Parecia que 
queria reunir seu ser despedaado, organizar o pensamento 
para contar sua histria dilacerada. Que erros o vendedor de 
sonhos cometeu que o desequilibraram?, refleti. No era ele 
forte e generoso? No viveu o pice da solidariedade e 
tolerncia? Para nossa surpresa, ele declarou:
 Fui um homem rico, muito rico, e tambm poderoso. 
Ultrapassei a todos os da minha gerao. Jovens e idosos 
vinham se aconselhar comigo. Onde eu colocava as mos, 
meus negcios prosperavam. Chamavam-me de Midas. Era 
criativo, ousado, visionrio, intuitivo, no tinha medo de 
caminhar por terrenos inexplorados. Minha capacidade de me 
adaptar s intempries e reagir com mais vigor quando 
derrotado deixava a todos pasmos. Mas, aos poucos, o sucesso 
que sempre achei que eu controlava passou a me controlar, me 
envenenou, penetrou nos espaos ntimos da minha mente. 
Assim, sem que me desse conta, perdi minha simplicidade e 
me tornei um deus, um falso deus.
Estvamos pasmos com suas palavras. Ponderei: Ser 
que ele foi mesmo rico? Que poder era esse que ele teve? Ser 
que no est delirando de novo? No andava com vestes 
rasgadas? No dependamos da benevolncia dos outros para 
sobreviver?. Ao ouvir a declarao do mestre, o humor de 
Bartolomeu voltou como um raio:
 Esse  meu chefinho. No dou tiro errado. Sabia que 
era milionrio.  Em seguida caiu em si, cocou a cabea e 
perguntou, inconformado:  Mas por que vivamos na dureza?
No havia explicao. Talvez tivesse falido, como tantos 
empresrios, pensei. Mas pode uma falncia financeira 
desencadear uma grave doena psquica? Pode ela levar ao 
rompimento da sanidade e imergir nos terrenos da loucura? 
Interrompendo meus pensamentos, ele continuou seu relato. 
Teve a coragem de confessar:
 Progredir, competir, ser o primeiro, ser o melhor, ainda 
que dentro dos limites da tica, era meu alvo. No queria ser 
mais um, queria ser nico. Tornei-me uma das mais excelentes 
mquinas de trabalhar e fazer dinheiro. O problema no  
quando possumos dinheiro, ainda que muito, o problema  
quando o dinheiro nos possui. Quando isso ocorreu na minha 
histria foi que entendi que o dinheiro pode empobrecer. 
Tornei-me o mais miservel dos homens.
Enquanto o ouvia, fiquei embasbacado diante de um 
homem supostamente poderoso, mas que tirara a maquiagem, 
despira as mscaras e honestamente se tornara crtico de si 
mesmo. Procurei me lembrar dos grandes polticos da histria, 
e no me veio  mente ningum com tal coragem. Olhei para 
mim e percebi que tambm no tinha tal ousadia. Suas 
palavras audaciosas comearam a me trazer alento. Comecei 
novamente a admirar o homem que seguamos. Em seguida 
nos relatou que ele, sua esposa, seu casal de filhos e mais dois 
casais de amigos iriam fazer um ecoturismo, uma excitante 
viagem de frias para conhecer uma das grandes florestas do 
planeta que ainda estava preservada.
Mas tempo para ele era um escasso artigo, nos falou. Por 
isso programou a viagem meses antes na sua concorrida 
agenda.
Estava tudo certo, mas, como sempre, mais um grande 
compromisso surgiu: teve de fazer s pressas uma 
videoconferncia internacional para investidores. Envolvia 
somas enormes de dinheiro. Sua famlia e o grupo de amigos 
adiaram a viagem por um dia para esper-lo. No dia seguinte, 
teve de resolver s pressas um negcio que j vinha se 
arrastando: tinha de realizar a compra de outra grande 
empresa, caso contrrio poderia perd-la para os concorrentes. 
Centenas de milhes de dlares estavam em jogo. Adiaram 
outra vez a viagem. No dia em que viajariam, os diretores de 
sua companhia de petrleo apresentaram uma nova 
problemtica. Decises fundamentais teriam de ser tomadas. 
Aps essa exposio, ele comentou, inconsolado, para a platia 
do estdio:
 Para no adiar a viagem mais uma vez, pedi mil 
desculpas e solicitei que meus filhos, esposa e amigos fossem 
na frente, que depois iria encontr-los num vo particular. 
Minha querida esposa estava inconformada. Julieta, minha 
querida filha de sete anos, apesar de estar entristecida, me 
beijou e me disse:
Papai, voc  o melhor pai do mundo. Fernando, meu 
amvel filho de nove anos, tambm me beijou e me disse: 
Voc  o melhor pai do mundo, mas o mais ocupado 
tambm. Respondi:
Obrigado, meu filhos, mas um dia o papai ter mais 
tempo para os melhores filhos do mundo.  E mudando o 
semblante do rosto, deu um grande suspiro e disse:  Mas no 
deu tempo...
 Fez uma pausa e comeou a chorar. Com a voz 
embargada, falou para a multido comovida:
 Enquanto eu estava na reunio de trabalho, horas 
depois que pegaram o vo, fui interrompido pela minha 
secretaria, que disse que um grande avio havia cado. Meu 
corao comeou a palpitar. Atento aos noticirios televisivos, 
entrei em desespero, pois noticiavam que um avio cara numa 
densa floresta e no sabiam se havia sobreviventes. Era o avio 
em que eles estavam. Meu corpo desfaleceu. Chorava 
inconsoladamente. Perdi tudo o que tinha. No tinha ar para 
respirar, solo para caminhar e razo para viver. Entre lgrimas 
e dor, reuni equipes de resgate, mas no encontraram os 
corpos deles; o avio tinha se incendiado. Nem ao menos pude 
me despedir das pessoas mais importantes da minha vida, 
olhar nos olhos deles e tocar na sua pele. Parece que no se 
foram.
Do dia para a noite, o homem invejado tornou-se objeto 
de penria, o homem imbatvel tornou-se o mais frgil dos 
seres. E como sobremesa da sua indecifrvel dor, tinha que 
lidar diariamente com pensamentos que o torturavam de 
sentimento de culpa.
 Os psiclogos que me assistiram queriam eliminar 
minha culpabilidade. Tentaram me dizer que no tive 
responsabilidade nessa perda. Direta no, mas indireta sim. 
Tentaram me proteger em vez de me fazer enfrentar o monstro 
da culpa, assumi-lo, trabalh-lo, us-lo, domestic-lo. Fiz 
tambm alguns tratamentos psiquitricos. Os medicamentos 
entravam em meu crebro, mas no no territrio da culpa. No 
aliviavam minha autopunio. Eram bons profissionais, mas eu 
era resistente. Enclausurei-me em meu mundo.
Em seguida, continuou a penetrar nos captulos inslitos 
do seu passado. E comeou a se questionar:
 O que constru? Por que no dei prioridade ao que mais 
amava? Por que nunca tive coragem de fazer uma cirurgia em 
minha agenda? Quando  tempo de desacelerar? O que  mais 
inadivel do que a prpria vida? O que adianta ganhar todo o 
ouro do mundo e perd-la?
Que perdas! Que peso emocional! Que dor insuportvel! 
Enquanto o ouvia, comecei a entender que todos ns, por mais 
sucesso que tenhamos, perdemos. Ningum voa para sempre 
num cu de brigadeiro, ningum navega eternamente numa 
lagoa plcida. Uns perdem mais, outros menos, uns sofrem 
perdas evitveis, outros inevitveis. Uns perdem no teatro 
social, outros no teatro psquico. E se algum conseguir passar 
ileso pela vida, uma coisa perder: a juventude. Fui um 
homem de perdas e seguia um mestre em perdas. Mas, de 
repente, rememorando os ltimos meses em que estivramos 
juntos, fiquei pasmo. Esse homem est mutilado diante de 
uma imensa platia. Mas como conseguia danar? Por que era 
o mais alegre dos caminhantes? Por que seu humor nos 
contagiava? Como conseguia ser tolerante se a vida lhe fora 
intolerante? Como vivia suavemente, se carregava pesos 
insuportveis?
Enquanto fazia esses questionamentos, subitamente olhei 
para os organizadores do evento e os vi abaladssimos; parece 
que eles desconheciam quem era o homem que tinham 
desmascarado. No sabiam a verdadeira identidade do 
psictico de quem eles tinham debochado. Olhei para a 
multido e vi pessoas chorando, seja porque tinham se 
condodo dele, seja porque tivessem viajado tambm pelo 
territrio das suas perdas. Nesse nterim, a professora Jurema 
segurou minhas mos e, apertando-as, me perturbou ainda 
mais. Disse-me:
 Mas eu conheo essa histria.  ele!
Sua voz se sufocou, e minha mente contraiu-se. Indaguei 
aos seus ouvidos:
 O que voc est me dizendo, professora?
  ele! Os pequenos sargentos prepararam uma 
emboscada para o seu grande general. Como isso  possvel?  
falou em cdigo, indignada. Jurema estava to emocionada 
que no conseguia expandir seu raciocnio.
 No estou entendendo! Quem  o mestre?  indaguei 
novamente.
Ela olhou fixamente para os lderes que tinham 
organizado o evento e disse algo que me abalou.
  incrvel. Ele est pisando no palco que lhe pertence. 
 Depois disso no conseguiu dizer mais nada.
A minha mente entrou em parafuso, como pipas que 
sofrem queda livre quando rompem as linhas que as sustentam 
no ar. Ao repetir a ltima frase: Ele est pisando num palco 
que  seu, comecei a entender o que a professora queria 
dizer. Inacreditvel! Ele  o proprietrio do poderoso grupo 
Megasoft? Os sargentos prepararam uma armadilha para seu 
prprio general, pensando que fosse um soldado raso? No  
isto um absurdo? Mas ele est morto? Ou esteve ilhado?, 
pensei. Mas o mestre no criticara drasticamente o lder 
desse grupo no jantar na casa de dona Jurema? No  possvel! 
Estamos delirando, ponderei.
Um filme comeou a rodar em minha mente. Veio-me  
memria que o mestre se envolvera em muitos eventos ligados 
a essa corporao. Ele me resgatara no San Pablo, um edifcio 
do grupo Megasoft. E misteriosamente fora quase baleado 
nesse edifcio. Fora espancado no templo da informtica 
aparentemente a pedido de um executivo do mesmo grupo e se 
calara. Fora caluniado por um jornalista do sistema de 
comunicao desse grupo e silenciara. Agora era humilhado 
por lderes da mesma corporao e no se rebelara. O que 
estava acontecendo? O que tudo isso significava?
Respirei profundamente, tentando ordenar o turbilho de 
idias. Coloquei as mos no rosto e disse para mim: Isso no 
pode ser verdade! Ou ? No, no pode ser! Somos 
especialistas em inventar fatos quando estamos estressados! 
Peguei no brao direito da professora Jurema e indaguei:
 Como pode um dos homens mais poderosos do planeta 
dormir debaixo de pontes? Como pode um bilionrio comer 
sobras de alimentos? Isso  o supra-sumo da ilgica!  A 
professora movimentou a cabea, revelando que estava to 
perturbada e confusa quanto eu.
E antes que eu me aventurasse a me perder mais ainda no 
carretel das minhas indagaes, o homem que seguamos 
cruzou as avenidas dos nossos pensamentos e nos disse que, 
devido s suas dramticas perdas, suas crises se tornaram to 
intensas que comeou a perder a racionalidade. Comentou que 
suas idias no conseguiam se organizar. Recusava-se a se 
alimentar, corria risco de vida e, por fim, fora internado num 
hospital psiquitrico. No hospital, comeara a ter a viso 
fantasmagrica que o filme mostrara. Seu crebro parecia que 
iria implodir.
Num tom mais seguro, retomou a histria que os 
organizadores tinham usado para destru-lo publicamente. 
Contou a segunda parte, que certamente desconheciam.
 Depois do teto, do cofre e de outras estruturas que 
disputavam agressivamente entre si para mostrar sua 
supremacia, ouvi outra rea da casa se manifestando, mas 
dessa vez era uma voz suave, meiga, singela. Era uma voz que 
sussurrava debaixo da terra e no me aterrorizava.
E olhando para a platia, o mestre afirmou:  Era a voz 
do alicerce. Diferentemente de todas as demais estruturas 
dessa grande casa, o alicerce no queria ser a maior, a melhor 
nem a mais importante. Queria ser apenas reconhecido como 
parte do conjunto.
Eu esforava-me para entender o que o misterioso homem 
que eu seguira queria revelar, mas era difcil. Comeando a 
clarear nosso intelecto, acrescentou:
 Todavia, ao ouvir a voz do alicerce, todas as partes o 
condenaram veementemente. O cofre foi o primeiro. Saturado 
de orgulho, disse: Voc nos envergonha, pois  a parte mais 
suja desta casa. O teto, embriagado de soberba, o desprezou 
dizendo:
Jamais algum que entrou nesta casa perguntou sobre o 
alicerce. Voc no merece destaque. As obras de arte 
declararam arrogantemente: Voc  indigno de reivindicar 
seu valor, assuma sua posio inferior. A moblia foi taxativa: 
Voc  insignificante. Olhe para onde est localizado. E 
assim o alicerce foi rejeitado por todas as demais estruturas 
dessa casa. Humilhado, rechaado e sem espao para 
continuar fazendo parte daquela construo, resolveu deix-la. 
Qual o resultado?  perguntou  multido. Todos disseram 
coletivamente, at os adolescentes que estavam presentes no 
estdio:
 A casa desabou!.
 Sim, a casa desmoronou. A minha casa, que representa 
a minha personalidade, desmoronou porque desprezei o meu 
alicerce. Quando desabou, eu briguei com Deus. Gritei: Quem 
 voc, que silencia diante do meu caos? Voc no intervm 
porque no existe? Ou existe e no se importa com a 
humanidade?. Briguei com os psiquiatras e psiclogos. 
Briguei com as teorias psicolgicas e com os medicamentos. 
Briguei com a vida. Achei-a injusta comigo, um poo de 
incertezas. Briguei com meus bens. Briguei com o tempo. 
Enfim, com tudo e com todos. Mas quando o alicerce se 
manifestou, fui iluminado, tive um grande insight, compreendi 
que estava profundamente errado. Antes de tudo, havia 
brigado com meu alicerce. Havia atirado no lixo os meus 
principais valores, as minhas prioridades.
Diante dessa explanao, comevamos a entender um 
pouco alguns dos segredos desse fascinante vendedor de 
sonhos. Sem meias palavras, ele comeou a interpretar a sua 
viso alucinatria. Disse que valorizara muitssimo o poder 
financeiro, representado pelo cofre. Dera importncia 
fenomenal  sua capacidade intelectual para suportar os 
desafios, representada pelo teto. Exaltara o prestgio social e a 
fama, representados pelas obras de arte. Regalara-se no 
conforto e nos prazeres da vida, representados pela moblia. E 
afirmou:
 Mas tra e neguei meus alicerces. Coloquei o amor dos 
meus filhos e de minha esposa debaixo do tapete das minhas 
atividades e preocupaes. Dei tudo para eles, mas esqueci de 
dar o que para mim era um detalhe, mas para eles era 
fundamental: a mim mesmo. Meus amigos ficaram em terceiro 
plano, meus sonhos em ltimo. Como  possvel ser um bom 
pai, um bom amante e um bom amigo, se as pessoas que 
amamos esto fora da nossa agenda? S um hipcrita 
acreditaria nisso. Fui um hipcrita, um notvel hipcrita que 
muitos admiravam e em quem se espelhavam.
Disse com intrepidez que escondia seus erros, suas falhas, 
suas atitudes estpidas, que representavam a parte suja do seu 
alicerce, mas que eram fundamentais para a estrutura da sua 
personalidade. Agora entendo o que ele queria dizer com o 
pensamento: Quem no reconhece suas mazelas tem uma 
dvida impagvel consigo mesmo. Esfacela a sua humanidade.
Ao ouvir suas cortantes palavras, comecei a compreender 
o homem que me arrebatara. No podia ser um homem 
comum. Tinha de ser mais do que um pensador, mais do que 
uma mente brilhante, uma cultura incomum. Pois um homem 
com tais caractersticas poderia ter minha admirao, mas no 
me cativaria, no aplainaria meu ego infectado de orgulho. 
Tinha de ser algum que visitara os vales escabrosos do medo, 
que se atolara no charco dos conflitos psquicos e sociais, que 
fora dilacerado pelos predadores da mente e se perdera nos 
labirintos da loucura. E depois de tudo isso se reconstrura 
com uma fora incomum e escrevera um romance com a 
prpria existncia. Sim, tal homem  que eu seguira.
Suas idias eram penetrantes como as de um filsofo, e 
seu humor, vibrante como o de um palhao. Suas reaes eram 
paradoxais, flutuavam entre os extremos. Era procurado por 
cones da sociedade, mas no fazia diferena entre uma 
prostituta e um puritano, entre um intelectual e um doente 
mental. Sua sensibilidade chocava-nos.
Toda vez que eu via algum preso pela polcia diante das 
cmeras de TV, ele escondia o rosto, queria proteger sua 
imagem. O homem que estava  minha frente no se escondia. 
Lembro-me do que dissera ao psiquiatra, no edifcio em que 
nos conhecemos, que havia dois tipos de loucura  e ousara 
dizer que a dele era visvel. Agora, quando lhe haviam 
preparado, com a nossa ajuda, a mais desumana emboscada, 
ele, sem vergonha do seu passado, novamente declarara suas 
chagas diante de mais de cinqenta mil pessoas. Sua 
honestidade era cristalina.
Quando o ouvi confessar que trara seu alicerce, minha 
mente foi invadida por fenmenos sociolgicos. Quem no  
traidor? Que puritano no  em alguns momentos um crpula 
consigo mesmo? Que religioso no trai a Deus com sua 
soberba e suas intenes subjacentes? Que idealista no fere 
seus ideais polticos em nome de interesses subterrneos? Que 
ser humano no trai sua sade por algumas horas trabalhadas 
a mais? Quem no trai seu sono por transformar a cama em 
um leito de tenses? Quem no trai os filhos por suas 
ambies, com argumentos de que trabalha para eles? Quem 
no trai o amor do homem ou da mulher de sua vida com seus 
prejulgamentos ou pela escassez de dilogo e tolerncia?
Tramos a cincia com nossas verdades absolutas, tramos 
nossos alunos com nossa incapacidade de ouvi-los, tramos a 
natureza com nosso desenvolvimento. Como o mestre nos 
alertou, tramos a humanidade quando hasteamos a bandeira 
de que somos judeus, palestinos, americanos, europeus, 
chineses, brancos, negros, cristos, mulumanos. Somos todos 
traidores que precisam desesperadamente comprar sonhos. 
Temos todos um Judas alojado em nossa psique. Especialista 
em esconder seu alicerce debaixo do tapete do ativismo, da 
tica, da moralidade, da justia social.
Parecia que ele lia meus pensamentos. Percebendo minha 
introspeco, ele fitou meus olhos e depois elevou os dele para 
a platia, abordando-a:
 A interpretao da viso  que no importa que alguns 
chamem de alucinao  me fez reconhecer que meu 
adoecimento psquico era muito anterior s minhas perdas.  
E indicando que era um ser humano que saiu das cinzas, 
resgatou o bom humor e brincou com a multido:  Cuidado, 
senhoras e senhores, quem lhes fala  um desvairado de longa 
data.
A platia saiu do estado de comoo para o sorriso. Era 
uma cena difcil de descrever.
 Depois que tive cincia de que havia trado meus 
alicerces, eu precisava encontrar os fundamentos da minha 
personalidade. Foi ento que sa do hospital sozinho e me 
isolei por um longo perodo para procurar por mim mesmo. Foi 
uma longa trajetria. Perdi-me muitas vezes durante o 
percurso. Aps esse tempo, sa do meu casulo e me tornei uma 
pequena andorinha que plana sobre as ruas e avenidas, 
estimulando as pessoas a procurarem seu prprio ser.  E 
novamente expressou bom humor dizendo:  Cuidado, amigos, 
essa loucura  contagiante.
As pessoas sorriram novamente e irromperam em 
aplausos, como se aspirassem a esse contgio, tal qual eu, 
Bartolomeu, Barnab, Jurema, Mnica, Dimas e tantos outros. 
Recordo como se fosse hoje o dia em que, querendo eu desistir 
de tudo, ele me bombardeou com uma poesia cujos 
pensamentos me fizeram reconciliar-me com meus alicerces. 
At hoje alguns desses pensamentos ecoam em minha mente:

Seja anulado no parntese do tempo o dia em 
que este homem nasceu!
Que na manh desse dia sejam dissipados os 
orvalhos
que umedeciam a relva!
Que a noite em que este homem foi concebido 
seja
usurpada pela angstia
Resgate-se dessa noite o brilho das estrelas que 
pontilhavam o cu!
Recolham-se da sua infncia seus sorrisos e 
seus medos!
Anulem-se da sua meninice suas peripcias e 
suas
aventuras!
Risquem-se da sua maturidade seus sonhos e 
pesadelos,
sua lucidez e suas loucuras.

Fomos contagiados por um vendedor de idias que nos 
ensinou a no negar o que somos. Antes desse contgio, 
ramos todos normais, estvamos todos doentes. Queramos 
de alguma forma ser deuses, sem saber que ser deus  andar 
sobrecarregado, tenso, pesado, com o compromisso neurtico 
de ser perfeito, de se preocupar com a imagem social, de dar 
importncia vital para a opinio alheia, de se cobrar, se punir, 
exigir. Perdemos a leveza do ser. Parecamos zumbis 
engessados pelos nossos pensamentos estreitos. Fomos 
educados para trabalhar, crescer, progredir e infelizmente 
tambm para ser especialistas em trair a nossa essncia no 
diminuto parntese do tempo em que existimos. Em que 
fbrica de loucura vivemos?

Se eu pudesse voltar no tempo
Aps revelar e interpretar a histria da grande casa, o 
mestre, sob forte inspirao, proferiu suas ltimas idias. Mais 
uma vez no exaltou sua grandeza, mas sua pequenez. Mais 
uma vez fez poesia no deserto, quando seus lbios ainda 
estavam sedentos. Olhou para o vazio, como se estivesse em 
outra esfera, e confundiu nossa mente. Demonstrou um 
relacionamento informal diante de um Deus desconhecido para 
mim. Esquecendo que estava perante o grande estdio, bradou:
 Deus, quem s tu? Por que esconde sua face atrs do 
lenol do tempo e no acusa as minhas insanidades? Falta-me 
sabedoria, e tu o sabes muito bem. Com os ps, piso na 
superfcie do solo, mas com a mente caminho na superfcie do 
conhecimento. Estou mortalmente abatido pela soberba, 
achando que sei alguma coisa. At quando digo que no sei, 
manifesto minha soberba de que sei que no sei.
Depois dessas palavras, abaixou os olhos, observou 
rapidamente os lderes que o odiavam e depois a platia, e fez 
um discurso filosfico que penetrou sorrateiramente nos 
recnditos do nosso ser.
 A vida  longussima para se errar, mas 
assombrosamente curta para se viver. A conscincia da 
brevidade da vida perturba a vaidade dos meus neurnios e me 
faz ver que sou um caminhante que cintila nas curvas da 
existncia e se dissipa aos primeiros raios do tempo. Nesse 
breve intervalo entre cintilar e dissipar, ando  procura de 
quem sou. Procurei-me em muitos lugares, mas me achei num 
lugar annimo, no nico lugar onde as vaias e os aplausos so 
a mesma coisa, o nico lugar onde ningum pode entrar sem 
permitirmos, nem ns mesmos.
Ah! Se eu pudesse retornar no tempo! Conquistaria 
menos poder e teria mais poder de conquistar. Beberia 
algumas doses de irresponsabilidade, me colocaria menos 
como aparelho de resolver problemas e me permitiria relaxar, 
pensar no abstrato, refletir sobre os mistrios que me cercam.
Se eu pudesse retornar no tempo, procuraria meus 
amigos da juventude. Onde esto? Quem est vivo? Eu os 
procuraria e reviveria as experincias singelas colhidas no 
jardim da simplicidade, onde no havia as ervas daninhas do 
status nem a seduo do poder financeiro.
Se eu pudesse retornar, daria mais telefonemas para a 
mulher da minha vida nos intervalos das reunies. Procuraria 
ser um profissional mais estpido e um amante mais intenso. 
Seria mais bem-humorado e menos pragmtico, menos lgico e 
mais romntico. Escreveria poesias tolas de amor. Diria mais 
vezes eu te amo!. Reconheceria sem medo: Perdoe-me por 
troc-la pelas reunies de trabalho! No desista de mim.
Ah, se eu pudesse retornar nas asas do tempo! Beijaria 
mais meus filhos, brincaria muito mais, curtiria sua infncia 
como a terra seca absorve a gua. Sairia na chuva com eles, 
andaria descalo na terra, subiria em rvores. Teria menos 
medo que se ferissem e se gripassem, e mais medo de que se 
contaminassem com o sistema social. Seria mais livre no 
presente e menos escravo do futuro. Trabalharia menos para 
lhes dar o mundo e me esforaria muito mais para lhes dar o 
meu mundo.
E observando atentamente o esplendoroso estdio, suas 
colunas, teto, assento, completou, intensamente comovido:
 Se eu pudesse retornar no tempo, daria todo o meu 
dinheiro para ter mais um dia com eles e faria desse dia um 
momento eterno. Mas eles se foram; as nicas vozes que ouo 
so as que ficaram ocultas nos escombros da minha memria: 
Papai, voc  o melhor pai do mundo, mas o mais ocupado 
tambm.
Aps declamar essa poesia, lgrimas escorriam 
volumosamente pela sua face, ratificando que os grandes 
homens tambm choram. E finalizou com estas palavras:
 O passado  meu algoz, no me permite o retorno, mas 
o presente levanta generosamente meu semblante descado e 
me faz enxergar que no posso mudar o que fui, mas posso 
construir o que serei. Podem me chamar de louco, psictico, 
maluco, no importa. O que importa  que, como todo mortal, 
um dia terminarei o show da existncia no pequeno palco de 
um tmulo, diante de uma platia em lgrimas.
Esse ltimo pensamento tocou as razes da minha mente. 
Respirando profundamente, finalizou suas palavras:
 Nesse dia, no quero que digam: Eis que nesse tmulo 
repousa um homem rico, famoso e poderoso, cujos feitos esto 
nos anais da histria. E nem que digam: Eis que jaz nele um 
homem tico e justo. Pois isso  mera obrigao. Mas espero 
que digam: Eis que nesse tmulo repousa um simples 
caminhante que entendeu um pouco o que  ser um ser 
humano, que aprendeu um pouco a ser apaixonado pela 
humanidade e conseguiu um pouco vender sonhos para outros 
passantes....
Nesse momento, deu as costas para a platia e saiu sem 
se despedir. A multido presente no estdio rompeu o silncio, 
levantou-se e comeou a aplaudi-lo ininterruptamente. Seus 
discpulos no suportaram, verteram lgrimas. Estvamos 
aprendendo tambm a perder o medo de nos emocionar em 
pblico. Os seus supostos inimigos tambm se levantaram. 
Dois deles o aplaudiram. O diretor-presidente ficou inerte, no 
sabia onde enfiar a cara.
De repente, um garoto rompeu o esquema de segurana, 
subiu no palco e correu atrs dele. Deu-lhe um abrao afetivo e 
prolongado. Era Antnio, o jovem de doze anos que estivera 
desesperado no velrio do seu pai, velrio esse que o vendedor 
de sonhos havia transformado num ato solene de homenagem. 
Depois do abrao, ele disse:
 Perdi meu pai, mas voc me ensinou a no perder a f 
na vida. Muito obrigado.
O mestre olhou para o jovem e, comovido, o surpreendeu.
 Perdi meus filhos, mas voc tambm me ensinou a no 
perder a f na vida. Muito obrigado.
 Deixe-me segui-lo  pediu o jovem.
 H quanto tempo a escola est em voc?
 Estou na sexta srie.
 Voc no entendeu a pergunta. No disse em que ano 
voc est na escola, mas h quanto tempo a escola est em 
voc.
Eu, um professor que havia feito da arte de ensinar meu 
mundo, nunca vi algum formular essa pergunta, ainda mais a 
um jovem. O garoto ficou perdido.
 No entendo a pergunta.
Suspirando e fitando-o, o mercador de idias disse-lhe:
 Pois o dia em que entender, voc se tornar um 
vendedor de sonhos tal como eu, e nas horas disponveis 
poder me seguir.
O jovem saiu pensativo e confuso do palco. Mas, 
enquanto caminhava, um fenmeno aconteceu. Sua mente foi 
iluminada. A cmera do estdio o filmava. Ela captou a 
mudana de seu semblante. Estava irradiante de alegria. Em 
vez de ir para seu lugar, ele se juntou a ns. Todos queramos 
entender o que ocorrera, mas no entendemos naquele 
momento.
O mestre continuou a sair. Partiu sem direo, sem 
agenda, vivendo cada dia sem pressa, sem mapa, como o vento 
que sopra e ningum sabe de onde vem, nem para onde vai. 
Dessa vez saiu sem nos convidar a segui-lo. Ficamos 
profundamente entristecidos.
Ser que nos separaremos para sempre? Ser que o sonho 
de vender sonhos acabou? O que faremos? Para onde vamos? 
Escreverei outras histrias? No sabemos. S sabemos que 
somos meninos brincando no anfiteatro do tempo e que 
entendem muito pouco os mistrios da existncia.
Quem realmente  o mestre? De onde procede? Qual a 
sua formao acadmica?  ele um dos homens mais 
poderosos do mundo ou um miservel com uma inteligncia 
incomum? Tambm continuamos sem saber at este 
momento. Mas no importa. O que importa  que rompemos o 
crcere da rotina, tambm samos do casulo e nos tornamos 
pequenos caminhantes.
Bartolomeu e Barnab tocaram em meus ombros. No sei 
se haviam entendido tudo o que ocorrera no estdio ou se no 
entenderam nada. Honestos, disseram para mim:
 No nos siga. Estamos perdidos.
Abracei-os calorosamente. Aprendi a amar homens de um 
modo no previsto nos textos de psicologia e sociologia. 
Apesar das incertezas em relao ao nosso futuro, olhamos uns 
para os outros e dissemos:
 Ah! Eu adoro esta vida!
Os demais membros do grupo se juntaram ao abrao. 
Talvez estivssemos nos despedindo ali para sempre. Todavia, 
no ltimo passo antes de sair do palco, o mestre se virou e 
olhou para ns. Nossos olhares se cruzaram lenta e 
intensamente. Nossas retinas entraram em xtase diante dessa 
imagem. Imediatamente nosso sonho se reacendeu. Entramos 
no palco e samos em seu encalo, sabendo que imprevisveis 
aventuras estariam  nossa frente e vendveis inesperados 
tambm. Samos cantando euforicamente nossa cano:
Sou apenas um caminhante Que perdeu o medo de se 
perder Estou seguro de que sou imperfeito Podem me chamar 
de louco Podem zombar das minhas idias No importa!
O que importa  que sou um caminhante Que vende 
sonhos para os passantes , No tenho bssola nem agenda No 
tenho nada, mas tenho tudo Sou apenas um caminhante  
procura de mim mesmo.
FIM (do primeiro volume)


Agradecimentos e homenagens
Encontrei inmeros vendedores de sonhos pelo caminho. 
Atravs de sua inteligncia e seus gestos generosos, eles me 
inspiraram, me ensinaram e me fizeram ver minha pequenez. 
Interromperam sua trajetria em algumas curvas da existncia 
para pensar nos outros e se doar sem pedir nada em troca. 
Fizeram dos seus sonhos projetos de vida e no desejos que se 
esfacelam no calor das tormentas.
Dedico este livro ao meu querido Geraldo Pereira. Filho 
de Jos Olympio, grande editor. No faz muito tempo que 
Geraldo fechou os olhos para a vida. Ele foi um poeta da 
existncia, um excelente vendedor de sonhos no universo da 
literatura e tambm no teatro social. Foi meu amigo e 
conselheiro. Rendo-lhe as mais notveis homenagens.
Dedico este livro  estimada amiga e leitora Maria de 
Lurdes Abadia, ex-governadora de Braslia. Ela vendeu muitos 
sonhos na capital brasileira, dos quais destaco os sonhos para 
os desprivilegiados que viviam do lixo e no lixo da cidade. 
Devolveu-lhes algo fundamental para a sade psquica: a 
dignidade.
Ao meu estimado amigo Guilherme Hannud, um 
empresrio dotado de nobre sensibilidade e sedento de ajudar 
os outros.
Por meio dos seus projetos sociais, deu oportunidade de 
trabalho a centenas de ex-presidirios para que tivessem fora 
de sair do charco da rejeio e conquistassem, em detrimento 
das cicatrizes do passado, o status inalienvel de seres 
humanos.
Ao querido amigo Henrique Prata e  notvel equipe de 
mdicos do Hospital Pio XII, dos quais destaco a dra. Silas e o 
dr. Paulo Prata (in memoriam), e meu amigo, o dr. Edmundo 
Mauad. Como vendedor de sonhos compulsivos, esse time de 
pessoas transformou o pequeno Hospital do Cncer de Barretos 
num dos maiores e melhores das Amricas, oferecendo um 
tratamento gratuito de altssimo nvel para pacientes pobres 
que jamais teriam condies de pag-lo. Eles provaram que os 
sonhos prolongam a vida e aliviam a dor.
 querida leitora Marina Silva, que na infncia foi 
castigada pelas intempries da existncia, mas cujos sonhos 
de transformar o mundo nutriram sua coragem e intelecto e a 
levaram a ser senadora e, depois, uma extraordinria ministra 
do Meio Ambiente. Marina almeja ansiosamente preservar a 
natureza para as futuras geraes. Por meio dela gostaria de 
dedicar esta obra a todos os cientistas do IPCC 
(Intergovernmental Panel on Climate Change), que batalham 
muitssimo para iluminar a mente de lderes polticos para que 
tomem atitudes urgentes a fim de amenizar o desastre do 
efeito estufa. Infelizmente, muitos desses lderes deitam-se no 
leito do egocentrismo e resistem a comprar sonhos.
Aos queridos amigos e lderes catlicos, dos quais cito, 
como representantes, os padres Jonas Abibe, Oscar Clemente e 
Salvador Renna. Neles, o amor ao prximo e a tolerncia 
deixaram de ser teoria e ganharam as pginas da realidade. 
Com exmio afeto, tm semeados sonhos de uma sociedade 
saturada de fraternidade e altrusmo. Aos queridos amigos e 
lderes protestantes, dos quais cito, como representantes, 
Marcelo Gualberto, Aguiar Valvassora e Mrcio Valado. O 
prazer em se doar encontrou neles um solo frtil. Por onde 
passam tm exalado o perfume do amor e da grandeza dalma. 
Aos meus inumerveis amigos budistas, islamitas, espritas. 
Eles me encantaram com seus sonhos. Aos meus amigos ateus 
e agnsticos. Eu fiz parte desse grupo e sei que muitos deles 
so notveis seres humanos, diletos sonhadores.
Dedico este romance em especial aos maiores vendedores 
de sonhos da sociedade, os educadores. Mesmo com baixos 
salrios, eles teimam em vender sonhos no microcosmo da 
sala de aula para que os alunos alarguem as fronteiras de seu 
intelecto e se tornem agentes modificadores do mundo, pelo 
menos do seu mundo. Tenho inmeros amigos professores de 
todas as esferas. Para represent-los, cito Silas Barbosa Dias, o 
professor dr. Jos Fernando Macedo, presidente da Associao 
Mdica do Paran, no apenas um excelente professor de 
cirurgia vascular, mas um vendedor de humanismo na 
medicina, e o dr. Paulo Francischini. O dr. Paulo tem usado 
com notveis resultados um dos meus programas para 
gerenciar pensamentos e proteger a emoo em sua disciplina 
nos cursos de mestrado e doutorado, visando  formao de 
pensadores.
A Jesus Badenes, Laura Falc e Francisco Sole, 
executivos brilhantes de uma das maiores editoras do mundo, 
a Planeta. Eles mais do que editam livros, vendem sonhos para 
irrigar a criatividade e a arte de pensar dos seus leitores. Aos 
diletos amigos Csar, Denis, Dbora e todos os demais 
membros da equipe Planeta Brasil. Eles ficaram to animados 
com o livro O vendedor de sonhos que me estimularam a 
escrever a continuao desta obra. Agradeo especialmente ao 
meu amigo e editor Pascoal Soto pela inteligncia e 
serenidade. Suas opinies foram valiosssimas nesta obra.
Ao meu instigante pai, Salomo, que desde criana eu vi 
vendendo sonhos ao levar pessoas carentes e doentes para os 
hospitais pelo simples prazer de ajudar. Ele sempre foi um 
excelente contador de histrias e um notvel ser humano. Ao 
meu culto sogro, Georges Farhate. Por incrvel que parea, 
entre muitos sonhos que vendeu, ele nos ensinou que vale a 
pena acreditar na vida ao se candidatar, com noventa anos de 
idade, a mais um pleito democrtico, enquanto muitos jovens 
de vinte ou trinta anos sentem-se envelhecidos e alienados. s 
queridas Dirce e urea Cabrera pelo carinho para com minhas 
obras.
A minha amvel esposa Suleima e s minhas filhas 
Camila, Carolina e Cludia. Elas me fascinam com sua argcia, 
inteligncia e generosidade. Desejo que jamais amem o culto  
celebridade, vivam a arte da autenticidade e entendam que os 
mais belos sonhos nascem no terreno da humildade e crescem 
no solo do inconformismo. Almejo que no apenas estejam 
dentro da escola, mas a escola esteja dentro delas, e se tornem 
vendedoras de sonhos at o ultimo flego de vida.
Aos meus queridos pacientes. No apenas ensinei, mas 
aprendi muito com eles. Aprendi muito mais com seus 
delrios, crises depressivas, ataques de pnico e transtornos 
obsessivos do que com o pequeno universo dos tratados 
cientficos. A todos eles, a minha eterna gratido. Encontrei 
diamantes nos solos dos seres humanos que sofrem. Quem no 
reconhece seus conflitos jamais ser saudvel, e quem no se 
deixa ensinar pelos conflitos dos outros jamais ser um sbio.
Moro dentro de uma mata h cerca de vinte anos, numa 
pequena e bela cidade onde no h livraria. Nesse ambiente 
inusitado, desenvolvi as idias psicolgicas, sociolgicas e 
filosficas contidas em meus livros. No esperava que um dia 
fosse lido por milhes de pessoas, fosse publicado em muitos 
pases e lido e utilizado em diversas universidades. Meus 
sonhos me levaram a lugares inimaginveis.


Este livro foi composto em
Minion Pr para a Editora
Academia de Inteligncia em
junho de 2008

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Este livro foi digitalizado e corrigido por Artemio Prilla e
Disponibilizado para uso de deficientes visuais. 
